Esta aldeia espanhola vive com uma maldição há mais de 500 anos

É conhecida pelas bruxas e por uma antiga maldição que nunca terá sido levantada. É, aliás, a única localidade espanhola que permanece excomungada pela Igreja Católica.

Esta aldeia espanhola está excomungada há mais de 700 anos. Foto: Wikimedia // Juanje 2712
Esta aldeia espanhola está excomungada há mais de 700 anos. Foto: Wikimedia // Juanje 2712

Um castelo medieval, um mosteiro e casas históricas. Quem passa por esta pequena aldeia pela primeira vez pode não estranhar nada. Afinal, há tascas onde se prova o cordeiro aragonês e produtos locais, como as marmeladas e compotas. Mas há um detalhe que só se descobre depois: as ruas estreitas onde vivem cerca de 90 habitantes escondem uma história pouco comum.

Do que é que estamos a falar? De Trasmoz, em Saragoça, que ganhou fama por uma história bem invulgar: há séculos que está ligada a uma excomunhão, uma maldição e muitas histórias de bruxas.

Aliás, esta é considerada a única localidade espanhola que permanece excomungada pela Igreja Católica e também é conhecida como “a aldeia maldita”. Para explicarmos tudo, temos de recuar mais de sete séculos, quando as relações entre os habitantes e os monges do vizinho Mosteiro de Veruela estavam longe de ser pacíficas.

Uma disputa por madeira que acabou em excomunhão

A história de Trasmoz está intimamente ligada ao Mosteiro de Veruela, situado a poucos quilómetros. Durante a Idade Média, a pequena localidade mantinha uma situação particular: apesar de estar rodeada por territórios sob influência do mosteiro, encontrava-se sob jurisdição civil e ligada à monarquia aragonesa.

Muito por isso, as relações entre os dois lados foram ficando cada vez mais tensas, sobretudo devido à utilização de recursos naturais. Um dos conflitos mais conhecidos dizia respeito à exploração da madeira do Monte de la Mata, essencial para uma população que enfrentava invernos rigorosos.

Em 1255, o conflito atingiu um ponto de rutura. O abade de Veruela decidiu excomungar a população de Trasmoz. A decisão significava que os habitantes ficavam afastados dos sacramentos e da vida religiosa da Igreja.

A bruxaria também entrou nesta história. Começaram a circular rumores sobre práticas pagãs, feitiçaria e supostos aquelarres no castelo.

Quanto havia de verdade nestas histórias e quanto serviu simplesmente para alimentar os conflitos de poder da época é outra questão. O certo é que a fama acabou por ficar.

E ficou mesmo. Séculos depois, basta mencionar Trasmoz para a palavra “bruxa” aparecer quase automaticamente.

A maldição que veio séculos depois

Se a excomunhão já dava à aldeia uma história pouco habitual, o episódio seguinte tornou tudo ainda mais peculiar.

Vista del Moncayo desde Trasmoz. Foto: Wikimedia // Benjamín Núñez González
Vista del Moncayo desde Trasmoz. Foto: Wikimedia // Benjamín Núñez González

Em 1511, Trasmoz voltou a entrar em conflito com o Mosteiro de Veruela, desta vez por causa da água. O senhor da localidade, Pedro Manuel Ximénez de Urrea, contestou o desvio de água que prejudicava o abastecimento da população. O caso chegou às Cortes de Aragão, que acabaram por dar razão ao senhor de Trasmoz.

O desfecho não foi propriamente conciliador. Segundo a tradição histórica associada à localidade, o abade de Veruela, Miguel Ximénez de Embún, realizou durante a noite um ritual contra Pedro Manuel Ximénez de Urrea e os habitantes de Trasmoz.

Terá coberto o crucifixo do altar com um pano negro e recitado o Salmo 108, acompanhado pelo toque de uma campainha a cada passagem.

Assim nasceu a famosa “maldição de Trasmoz”. A história ganhou ainda outro detalhe que ajudou a torná-la praticamente indestrutível: segundo a tradição local, como a maldição teria contado com autorização papal, apenas outro Papa poderia levantá-la. Isso nunca aconteceu. É por isso que, mais de 500 anos depois, Trasmoz continua a apresentar-se como uma aldeia excomungada e amaldiçoada.

Naturalmente, isto pertence ao campo da história, da tradição e da crença. Não há uma maldição sobrenatural que possa ser comprovada. Mas, para efeitos turísticos, convenhamos que é um cartão de visita difícil de superar.

Do castelo das bruxas às histórias de Bécquer

O Castelo de Trasmoz é o grande protagonista desta história. A fortificação remonta ao século XII e esteve ligada durante séculos à monarquia aragonesa. Mais tarde, foi abandonada e sofreu um incêndio, tendo a torre de menagem sido parcialmente destruída. Atualmente, a torre foi restaurada e pode ser visitada.

A estrela da aldeia. Foto: Wikimedia // Diego Delso
A estrela da aldeia. Foto: Wikimedia // Diego Delso

No interior existe o Museo de la Torre, el Caballero y la Brujería, dedicado à história da fortaleza e às lendas que rodeiam a localidade. A partir do topo, a recompensa é uma vista ampla sobre Trasmoz, o vale e o Parque Natural do Moncayo.

E, no meio de toda a história, há um nome que não pode ficar de fora desta história: Gustavo Adolfo Bécquer. O escritor espanhol esteve durante vários meses no vizinho Mosteiro de Veruela, mais precisamente, entre 1863 e 1864. Foi precisamente nessa região que encontrou inspiração para algumas das suas famosas “Cartas desde mi celda”. As histórias relacionadas com Trasmoz e com a chamada Tía Casca ajudaram a consolidar a imagem misteriosa da aldeia.

A Tía Casca, aliás, não é apenas uma personagem inventada para uma história de terror. A tradição local recorda-a como uma mulher acusada de bruxaria que acabou por morrer violentamente em meados do século XIX.

Bécquer recuperou a sua história e contribuiu para a transformar numa das figuras mais conhecidas das lendas de Trasmoz.

Hoje, a aldeia transformou esse passado sombrio numa parte importante da sua identidade. Há referências às bruxas pelas ruas, eventos dedicados à magia e às lendas locais e uma feira anual que junta história, plantas medicinais, tradições e muita imaginação.

Referências da notícia

BBC, Piegsa-Quischotte, I. (2022). Spain’s cursed village of witches.
NiT, Pincelli, I. (2026). A “aldeia maldita” com menos de 90 habitantes que vive sob uma maldição há 771 anos.