Do Minho ao Algarve: onde descobrir o legado do Império Romano em Portugal

Quase 1.600 anos após o fim do Império Romano do Ocidente, Portugal conserva cidades, monumentos e infraestruturas que ajudam a entender esse passado.

Império Romano
O legado do Império Romano em Portugal, de norte a sul. Foto: Unsplash

Muito antes de Portugal existir como país, este território já fazia parte de uma das maiores potências da História. Durante séculos, a Lusitânia integrou o Império Romano e deixou marcas profundas que continuam visíveis em cidades, campos e até em praias.

Estradas, pontes, termas, fábricas, villas rurais e até barragens sobreviveram à queda do poder imperial e atravessaram milénios quase intactas.

Mais do que vestígios isolados, estes lugares ajudam a perceber como se vivia na periferia do império: onde se tomavam banhos públicos, como se organizava o espaço urbano, de que forma se produziam alimentos e como o quotidiano romano se adaptou quando Roma deixou de mandar.

Eis alguns dos sítios mais reveladores — organizados geograficamente — para descobrir esse passado ainda bem presente.

1. Aquae Flaviae e a Ponte de Trajano (Chaves)

No extremo norte do país, Chaves conserva um dos mais impressionantes conjuntos romanos em território português. A ponte sobre o rio Tâmega, mandada construir no início do século II pelo imperador Trajano, continua funcional e mantém inscrições originais que identificam a obra e o seu patrono.

A cidade romana de Aquae Flaviae desenvolveu-se em torno das águas termais, exploradas desde a Antiguidade pelas suas propriedades medicinais. As termas romanas, hoje integradas num núcleo museológico, revelam a importância do culto do corpo, da saúde e do convívio social numa cidade que era ponto estratégico de passagem entre o interior da Península e a Galécia.

2. Bracara Augusta (Braga)

Braga assenta literalmente sobre fundações romanas. Fundada como Bracara Augusta no tempo de Augusto, tornou-se uma das cidades mais importantes do noroeste peninsular, sede administrativa e religiosa.

Braga
Braga foi uma cidade-chave do noroeste da Península Ibérica. Foto: Unsplash

No centro histórico, há vários vestígios: as termas do Alto da Cividade, troços de muralhas, estruturas habitacionais e objetos do quotidiano revelam uma cidade planeada, com espaços públicos bem definidos. A continuidade de ocupação explica porque muitos destes restos estão integrados na malha urbana atual, criando um diálogo permanente entre passado e presente.

3. Tongobriga (Marco de Canaveses)

Menos conhecida do grande público, Tongobriga é um dos sítios arqueológicos mais esclarecedores sobre a romanização do noroeste. Aqui, a leitura da cidade é clara: fórum, termas, habitações e arruamentos mantêm uma lógica urbana reconhecível.

O silêncio do lugar, hoje desabitado, contrasta com a importância que teve entre os séculos I e IV.

Tongobriga permite perceber como centros urbanos secundários funcionavam fora das grandes capitais, desempenhando papéis administrativos, comerciais e sociais fundamentais.

4. Vias romanas da Lusitânia (Braga, Porto, Viseu)

Mais do que cidades, os romanos pensavam em rede. Entre Braga, Porto e Viseu subsistem troços de estradas, pontes e marcos miliários que integravam a vasta malha viária da Lusitânia.

Muitas destas vias foram reutilizadas durante séculos e ainda hoje condicionam percursos modernos. Podemos dizer até que caminhar por estes traçados é seguir os passos de soldados, mercadores e viajantes que cruzavam o território transportando bens, ordens imperiais e ideias — numa infraestrutura que foi essencial para a coesão do império.

5. Conímbriga (Condeixa-a-Nova)

Conímbriga é, provavelmente, o sítio romano mais emblemático de Portugal. Não é por acaso, afinal, que é conhecido como a grande “capital de ruínas” romana em Portugal.

Aqui, as ruínas permitem percorrer bairros inteiros, com casas luxuosas, pátios ajardinados, mosaicos detalhados e complexos sistemas de aquecimento.

Um dos elementos mais marcantes é a muralha tardia, construída quando o império já dava sinais de fragilidade. Essa estrutura revela medo, retração urbana e mudança de mentalidades. O museu monográfico ajuda a contextualizar a cidade e a perceber como o esplendor romano conviveu com a instabilidade dos últimos séculos.

6. Villa Romana do Rabaçal (Penela)

A poucos quilómetros de Conímbriga, a villa do Rabaçal mostra a vida rural das elites romanas. O complexo distingue claramente a zona agrícola da área residencial, onde se destacam mosaicos geométricos e figurativos de grande qualidade.

Villa Romana do Rabaçal
Os trabalhos arqueológicos tiveram início no ano de 1984 com o apoio voluntário de especialista. Foto: CM Penela

Esta villa ilustra a importância da economia agrária na Lusitânia e como o campo podia ser tão sofisticado quanto a cidade. Era aqui que se produzia riqueza, que se administravam propriedades e que se mantinha um estilo de vida confortável longe dos centros urbanos.

7. Teatro Romano de Lisboa (Olisipo)

Lisboa romana permanece em grande parte escondida sob a cidade atual, mas o teatro, junto ao Castelo de São Jorge, é uma exceção notável. Descoberto apenas no século XX, revela como Olisipo se integrava culturalmente no mundo romano.

O teatro não era apenas espaço de entretenimento: funcionava como instrumento político e social. A visita permite compreender como o espetáculo, a arquitetura e a propaganda se cruzavam numa cidade portuária aberta ao Mediterrâneo.

8. Miróbriga (Santiago do Cacém)

No Alentejo litoral, Miróbriga destaca-se pela diversidade das suas estruturas.

Fórum, templos, termas, ponte e um raro hipódromo formam um conjunto que revela uma cidade ativa entre os séculos I e IV.

A presença do hipódromo é particularmente significativa, mostrando que o lazer e os espetáculos também faziam parte da vida fora das grandes capitais. Miróbriga controlava um território estratégico, ligando o interior agrícola ao litoral e às rotas marítimas.

9. Tróia (Grândola)

Na península de Tróia encontra-se um dos maiores complexos industriais do mundo romano dedicados à salga e conservação de peixe. Tanques, oficinas, termas, necrópoles e habitações revelam uma verdadeira cidade fabril.

Ruínas romanas de Tróia
Tróia foi ocupada pelos romanos há cerca de dois mil anos, e a cidade transformou-se num importante centro de produção de preparados de pescado, exportados para todos os pontos do império. Foto: Wikimedia // RitaBatalha94

Os produtos aqui fabricados seguiam em ânforas para todo o império, tornando Tróia um exemplo claro de economia globalizada na Antiguidade.

10. Évora romana (Ebora Liberalitas Julia)

O templo romano de Évora, frequentemente associado a Diana, é um dos monumentos mais icónicos do país. Integrava o fórum da cidade e simboliza a importância política e religiosa de Ebora na Lusitânia.

A reutilização do edifício ao longo da Idade Média e a sua posterior valorização ilustram como o património romano foi reinterpretado em diferentes épocas. É um exemplo claro de continuidade urbana ao longo de quase dois mil anos.

11. Ammaia (Marvão)

Inserida numa paisagem natural quase intacta, Ammaia foi uma cidade romana fundada no século I e abandonada progressivamente após o colapso do poder imperial. As escavações recentes têm revelado novos dados sobre o quotidiano, a organização urbana e os rituais funerários.

O isolamento do sítio ajuda a perceber a dimensão original da cidade e a relação entre espaço urbano e território envolvente.

Hoje, Ammaia é quase uma espécie de um laboratório privilegiado para estudar a transição entre o mundo romano e a Antiguidade tardia.

12. São Cucufate (Vidigueira)

No coração do Alentejo, a villa de São Cucufate impressiona pela escala e preservação. Evoluiu de exploração agrícola para residência palaciana, com dois pisos, termas privadas e áreas ajardinadas.

São Cucufate
A Villa romana de São Cucufate, igualmente conhecida como Ruínas de Santiago, é um monumento histórico em Vila de Frades, no município da Vidigueira, em Portugal. Foto: Wikimedia // Carole Raddato

O local continuou a ser ocupado após o período romano, o que permite observar camadas sucessivas de uso e adaptação. É um exemplo claro de como algumas estruturas romanas sobreviveram reinventadas, mesmo depois do império desaparecer.

13. Milreu (Estói, Faro)

No Algarve, a villa de Milreu revela a prosperidade das elites romanas do sul. Mosaicos com temas marinhos, termas, lagares e instalações agrícolas mostram uma economia diversificada e ligada ao Mediterrâneo.

Este local ajuda a compreender a importância do Algarve romano, não como periferia marginal, mas como região integrada nas redes comerciais do império, com forte ligação ao mar e à produção agrícola.