Investigadores portugueses estudam as emoções que as cidades provocam nos residentes
eMOTIONAL Cities é o projeto que reúne evidências científicas sobre o comportamento neurológico em espaços urbanos para ajudar a construir cidades mais humanizadas.

Ninguém poderá negar que as cidades são stressantes. Trânsito, correrias, sirenes, obras, estímulos visuais e auditivos são fatores que causam fadiga e aumentam o risco de transtornos de ansiedade e depressão.
Estudos científicos já demonstraram que ruas estreitas ou longas e espaços lotados elevam os batimentos cardíacos, enquanto parques e jardins reduzem o stress e promovem bem-estar emocional.
E isso é, precisamente, o que se pretende com o estudo eMOTIONAL Cities, coordenado pelo Instituto de Geografia e Ordenamento do Território (IGOT) e pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.
Laboratórios urbanos no centro de Lisboa
A investigação procura avaliar como o planeamento urbano pode influenciar a saúde mental, os comportamentos e as emoções de quem interage com os espaços públicos. A ideia, no fundo, é transformar as ruas em laboratórios vivos, medindo o seu impacto na qualidade de vida.
O projeto, financiado no âmbito do programa Horizonte 2020 da Comissão Europeia, está a monitorizar os efeitos urbanísticos nos residentes de diferentes áreas de Lisboa, como o Parque das Nações, a Baixa, os jardins da Gulbenkian, a Lapa ou Belém.

Para medir as alterações ocorridas no cérebro, a equipa de investigadores construiu uma mochila, que funciona como uma ferramenta multifuncional de diagnóstico.
O aparelho recolheu dados fisiológicos e neurológicos de 90 voluntários em ambientes urbanos, medindo suas reações com instrumentos como ressonância magnética, eletroencefalograma, GPS, estação meteorológica, rastreio ocular, entre outros.
Planear cidades seguras e inclusivas
Compreender os efeitos neurológicos que os meios urbanos produzem no nosso bem-estar poderá vir a ser um recurso valioso para planear cidades mais inclusivas, seguras e sustentáveis.
| Impactos positivos do urbanismo na saúde mental |
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| Espaços verdes: viver perto de parques, árvores, jardins reduz o risco de ansiedade e depressão |
| Circuitos pedonais: ciclovias e vias para pedestres encorajam a atividade física, melhoram o humor e a saúde mental |
| Design urbano: espaços públicos bem planeados promovem a interação social e reduzem o isolamento |
| Conexão com a natureza: a integração de elementos naturais no ambiente construído ajuda a reduzir a agressividade e a melhorar o foco cognitivo |
E isso significa, desde logo, construir áreas urbanas que tenham em conta as necessidades de toda a população e, em especial, dos grupos mais vulneráveis como idosos, crianças, pessoas com mobilidade reduzida e portadoras de deficiências motoras ou cognitivas.
Ao identificar questões-chave que interferem negativamente na saúde física e mental, os investigadores esperam dar um contributo decisivo para mudar ou refinar políticas públicas em áreas tão distintas como o planeamento e a reabilitação de espaços urbanos, a promoção da mobilidade ativa, melhorias no acesso a serviços públicos ou até a regulação de fluxos turísticos para zonas menos pressionadas.

Promover a saúde urbana implica uma abordagem multidisciplinar entre áreas do conhecimento que vão do planeamento urbanístico à neurociência, passando pela ciência de dados. As novas tecnologias, essenciais para apoiar a tomada de decisões, também não podem ficar de fora, advertem os investigadores.
| Impactos negativos do urbanismo na saúde mental |
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| Espaços sobrelotados: ruído, má qualidade do ar e falta de áreas verdes elevam os níveis de cortisol, afetando regiões do cérebro responsáveis pela regulação emocional |
| Cores e padrões: os tons quentes podem aumentar a ansiedade, enquanto os tons frios promovem o relaxamento |
| Design urbano: sinalização inadequada ou organização de ruas complexas aumentam a confusão principalmente na população que sofre de demência |
| Acessibilidade: portas estreitas, escadas íngremes e instalações inadequadas limitam a mobilidade |
Só combinando diferentes especialidades e múltiplas ferramentas será possível desenvolver soluções holísticas capazes de responder aos desafios trazidos pelas mudanças climáticas, pela expansão urbana e pela perda de biodiversidade.
Referência da notícia
eMOTIONAL Cities – Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa