Investigadores portugueses estudam as emoções que as cidades provocam nos residentes

eMOTIONAL Cities é o projeto que reúne evidências científicas sobre o comportamento neurológico em espaços urbanos para ajudar a construir cidades mais humanizadas.

Investigadores portugueses estão a estudar como o ambiente urbano interfere nas emoções e nas tomadas de decisão. Foto: Pixabay
Investigadores portugueses estão a estudar como o ambiente urbano interfere nas emoções e nas tomadas de decisão. Foto: Pixabay

Ninguém poderá negar que as cidades são stressantes. Trânsito, correrias, sirenes, obras, estímulos visuais e auditivos são fatores que causam fadiga e aumentam o risco de transtornos de ansiedade e depressão.

Estudos científicos já demonstraram que ruas estreitas ou longas e espaços lotados elevam os batimentos cardíacos, enquanto parques e jardins reduzem o stress e promovem bem-estar emocional.

Mitigar os efeitos negativos das cidades é, portanto, cada vez mais essencial, tendo em conta que a maioria da população vive concentrada em zonas urbanizadas.

E isso é, precisamente, o que se pretende com o estudo eMOTIONAL Cities, coordenado pelo Instituto de Geografia e Ordenamento do Território (IGOT) e pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

Laboratórios urbanos no centro de Lisboa

A investigação procura avaliar como o planeamento urbano pode influenciar a saúde mental, os comportamentos e as emoções de quem interage com os espaços públicos. A ideia, no fundo, é transformar as ruas em laboratórios vivos, medindo o seu impacto na qualidade de vida.

O que se espera obter, no final, são evidências científicas sobre como o ambiente urbano molda o sistema neuronal e determina estados emotivos e tomadas de decisão.

O projeto, financiado no âmbito do programa Horizonte 2020 da Comissão Europeia, está a monitorizar os efeitos urbanísticos nos residentes de diferentes áreas de Lisboa, como o Parque das Nações, a Baixa, os jardins da Gulbenkian, a Lapa ou Belém.

O neurourbanismo é um campo disciplinar emergente que estuda o impacto dos ambientes construídos na saúde mental. Foto: Pixabay
O neurourbanismo é um campo disciplinar emergente que estuda o impacto dos ambientes construídos na saúde mental. Foto: Pixabay

Para medir as alterações ocorridas no cérebro, a equipa de investigadores construiu uma mochila, que funciona como uma ferramenta multifuncional de diagnóstico.

O aparelho recolheu dados fisiológicos e neurológicos de 90 voluntários em ambientes urbanos, medindo suas reações com instrumentos como ressonância magnética, eletroencefalograma, GPS, estação meteorológica, rastreio ocular, entre outros.

Planear cidades seguras e inclusivas

Compreender os efeitos neurológicos que os meios urbanos produzem no nosso bem-estar poderá vir a ser um recurso valioso para planear cidades mais inclusivas, seguras e sustentáveis.

Impactos positivos do urbanismo na saúde mental
Espaços verdes: viver perto de parques, árvores, jardins reduz o risco de ansiedade e depressão
Circuitos pedonais: ciclovias e vias para pedestres encorajam a atividade física, melhoram o humor e a saúde mental
Design urbano: espaços públicos bem planeados promovem a interação social e reduzem o isolamento
Conexão com a natureza: a integração de elementos naturais no ambiente construído ajuda a reduzir a agressividade e a melhorar o foco cognitivo

E isso significa, desde logo, construir áreas urbanas que tenham em conta as necessidades de toda a população e, em especial, dos grupos mais vulneráveis como idosos, crianças, pessoas com mobilidade reduzida e portadoras de deficiências motoras ou cognitivas.

Ao identificar questões-chave que interferem negativamente na saúde física e mental, os investigadores esperam dar um contributo decisivo para mudar ou refinar políticas públicas em áreas tão distintas como o planeamento e a reabilitação de espaços urbanos, a promoção da mobilidade ativa, melhorias no acesso a serviços públicos ou até a regulação de fluxos turísticos para zonas menos pressionadas.

Pequenas mudanças na cidade, como os sítios onde nos sentamos, caminhamos ou nos reunimos – podem fazer uma grande diferença na forma como nos sentimos ligados à comunidade.
Pequenas mudanças na cidade, como os sítios onde nos sentamos, caminhamos ou nos reunimos – podem fazer uma grande diferença na forma como nos sentimos ligados à comunidade.

Promover a saúde urbana implica uma abordagem multidisciplinar entre áreas do conhecimento que vão do planeamento urbanístico à neurociência, passando pela ciência de dados. As novas tecnologias, essenciais para apoiar a tomada de decisões, também não podem ficar de fora, advertem os investigadores.

Impactos negativos do urbanismo na saúde mental
Espaços sobrelotados: ruído, má qualidade do ar e falta de áreas verdes elevam os níveis de cortisol, afetando regiões do cérebro responsáveis pela regulação emocional
Cores e padrões: os tons quentes podem aumentar a ansiedade, enquanto os tons frios promovem o relaxamento
Design urbano: sinalização inadequada ou organização de ruas complexas aumentam a confusão principalmente na população que sofre de demência
Acessibilidade: portas estreitas, escadas íngremes e instalações inadequadas limitam a mobilidade

Só combinando diferentes especialidades e múltiplas ferramentas será possível desenvolver soluções holísticas capazes de responder aos desafios trazidos pelas mudanças climáticas, pela expansão urbana e pela perda de biodiversidade.

Referência da notícia

eMOTIONAL Cities – Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa