Universidade de Coimbra lidera projeto europeu para eliminar os gases mais poluentes
Uma nova plataforma interativa e de livre acesso vai ajudar a indústria a escolher alternativas sustentáveis destinadas aos sistemas de climatização domésticos e industriais.

Sempre que fechamos a porta do frigorífico ou ligamos o ar condicionado para mitigar o calor do verão, ativamos um ciclo térmico suportado por compostos químicos com uma pegada ecológica devastadora. Estas substâncias, designadas de gases fluorados, são amplamente usadas na refrigeração e têm uma capacidade extraordinária de aprisionar calor na atmosfera.
Para quebrar esta dependência ambiental, cientistas da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra assumiram a liderança de uma iniciativa internacional de grande escala.
A instituição portuguesa coordena o consórcio GWPathfinder, que recebeu um financiamento de quase três milhões de euros através do programa Horizon Europe. Sob a coordenação do investigador Luís Pedro Viegas, do Centro de Química, este grupo de trabalho irá desenvolver uma aplicação digital de acesso livre.
O objetivo central é criar uma ferramenta capaz de orientar decisores políticos e líderes industriais na escolha de fluidos alternativos com baixo impacto climático.
Uma inteligência artificial ao serviço do clima
O núcleo deste projeto assenta no desenvolvimento de um ecossistema virtual dinâmico e interativo. Em vez de recorrer a tabelas estáticas, os investigadores estão a desenvolver um algoritmo avançado de aprendizagem automática que antecipa com exatidão o potencial de aquecimento dos compostos sintéticos atuais e das novas misturas químicas em estudo.

Este modelo computacional avaliará igualmente os produtos resultantes da degradação dessas substâncias na natureza, expandindo o conhecimento científico disponível.
Luís Pedro Viegas, investigador do Centro de Química de Coimbra do Departamento de Química da FCTUC
Esta tecnologia avançada será integrada em modelos de avaliação internacional como o PROMETHEUS e o TIAM-ECN. Os especialistas conseguem, desta forma, cruzar os planos de descarbonização energética planetária com a introdução de novos fluidos térmicos nas bombas de calor e nos sistemas de climatização. A intenção é disponibilizar dados comparáveis e validados que sustentem decisões comerciais rápidas e seguras, minimizando as margens de erro regulamentar.
Alinhamento com as metas ecológicas mundiais
A urgência deste trabalho reflete as exigências da Emenda de Kigali ao Protocolo de Montreal e do Acordo de Paris, tratados internacionais que exigem a redução drástica e progressiva dos hidrofluorocarbonetos. A equipa baseada em Coimbra pretende desenhar uma série de trajetórias de emissões adaptadas a diferentes realidades regionais e setores de atividade económica.
O rigor da partilha de conhecimento constitui outro pilar estratégico da equipa. Todas as bases de dados geradas respeitarão princípios de ciência aberta, assegurando que as conclusões sejam localizáveis, acessíveis e totalmente reutilizáveis por qualquer laboratório ou empresa do mundo.

O que se pretende criar, portanto, é um verdadeiro ecossistema de partilha de conhecimento livre de barreiras comerciais.
Do laboratório para o mercado internacional
A investigação tem como intuito levar o desenvolvimento deste mecanismo virtual desde uma fase inicial de ensaio laboratorial até um patamar de maturidade tecnológica elevado, pronto para aplicação industrial direta. O cronograma de trabalhos prevê que o protótipo esteja totalmente operacional e disponível para uma implementação em larga escala no final de agosto de 2029.
O sucesso desta plataforma traduz-se no fornecimento de metodologias seguras para que as indústrias abandonem os compostos tradicionais sem perder eficiência energética. Com esta liderança, a academia portuguesa assume um papel central na definição dos padrões ambientais que vão regular os aparelhos de climatização domésticos e industriais nas próximas décadas, transformando a ciência de computadores numa estratégia ativa de combate às alterações climáticas.
Referência da notícia
Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC). UC coordena projeto europeu de 2,9 milhões de euros para acelerar a eliminação de gases fluorados poluentes.