Será que as alterações climáticas têm impacto no futuro do surf em muitas regiões da Terra?
O surf ganhou importância cultural, social e económica ao longo do último século e hoje é globalmente relevante. Baseado no fenómeno natural da interação das ondas do oceano com a linha de costa, será que o futuro do surf está ameaçado pelas alterações climáticas?

A prática do surf, que ocorre em muitas zonas costeiras do globo, é importante para esses locais, pois, além de sustentar o lazer e o turismo, é muitas vezes um meio de subsistência para essas regiões.
Os melhores picos de surf do mundo estão vulneráveis às alterações climáticas
A comunidade ligada ao surf e ao oceano, é a primeira a perceber os impactos no ecossistema do surf, sejam eles causados pela deterioração da qualidade da água, pela perda de habitat, pela poluição por plástico e detritos marinhos e, cada vez mais, pelos impactos das alterações climáticas.

Embora os surfistas saibam intuitivamente que fatores como a subida do nível do mar e o aumento da atividade das tempestades afetarão as ondas, é também importante demonstrar cientificamente como as alterações climáticas irão moldar e alterar os ecossistemas do surf, de forma a que seja possível uma melhor preparação para as alterações que se avizinham e integrar a resiliência no planeamento costeiro.
Uma equipa de cientistas em parceria com a associação Save the Waves, organização internacional sem fins lucrativos que trabalha com diversas organizações dedicadas à proteção dos ecossistemas de surf e que tem como missão proteger os ecossistemas de surf em todo o mundo, desenvolveu um estudo para analisar a relação do surf e as alterações climáticas.
Estando a resiliência da linha de costa relacionada com a degradação por construções, paredões e escassez de sedimentos, a sensibilidade ao nível do mar com o facto do aumento da profundidade da água alterar a quebra da onda e a composição do fundo do mar com o facto de serem os bancos de areia e recifes de corais que dão forma à onda.

Neste estudo foram analisadas as vulnerabilidades de 57 picos de surf em 8 países, incluindo Portugal, Austrália, Peru, Brasil, EUA, Reino Unido, El Salvador e Costa Rica.
Estes locais foram selecionados por estarem incorporados na chamada Reserva Mundial de Surf, um estatuto solicitado pelos atores locais e designado pela associação Save the Waves, com base na importância cultural, histórica e ambiental de cada local para o surf.
O Dr. Dan Reineman, consultor e autor principal do estudo, utilizou uma ferramenta que desenvolveu, chamada SurfCAT, Ferramenta de Avaliação da Vulnerabilidade dos Picos de Surf às Alterações Climáticas, para analisar riscos diretos e indiretos.
Trata-se de uma série de questões, respondidas por 190 especialistas locais, das condições de surf, que gera uma avaliação dos fatores mais influenciados pelas alterações climáticas, criando-se assim uma base de dados única.
Esta ferramenta científica avalia múltiplas métricas de risco, incluindo a sensibilidade do pico de surf ao nível da maré e à subida do nível do mar, o transporte de sedimentos e composição do fundo do mar, a adaptabilidade da linha de costa e o corredor de ondulação, bem como a inclusão no planeamento da adaptação.
Assim, a maior parte dos picos de surf selecionados apresentam um risco médio ou elevado de perturbação devido às alterações climáticas.
Enquanto a subida do nível do mar pode atuar em algumas regiões costeiras a longo prazo, as respostas humanas às alterações climáticas podem ter já um efeito a curto prazo.
Além das alterações climáticas, há a intervenção humana a ter também impacto no surf
As próprias respostas humanas às alterações climáticas, como, por exemplo, a construção de paredões que também representam ameaças existenciais e imediatas para a qualidade das ondas e a dinâmica de sedimentos.
Mas esta situação está a tornar-se rapidamente uma questão climática, porque uma costa desprovida das suas defesas naturais é uma costa sem nada que absorva o que está para vir, designadamente fortes tempestades. E nos próximos meses poderá ocorrer já um evento severo, atendendo ao grau de intensidade do atual El Niño.
O Centro de Previsão Climática da NOAA emitiu um alerta El Niño e estima em mais de 90% a probabilidade de um evento muito forte na costa da Califórnia neste outono e inverno, pois a temperatura à superfície ultrapassou o recorde histórico para este fenómeno.
Malibu é apenas um exemplo visível de uma transformação que se desenrola ao longo de toda a costa da Califórnia, onde a areia que forma as praias foi cortada em quase todas as suas fontes: presa atrás de barragens nos rios que antes a forneciam e selada atrás de paredões nos penhascos que antes a depositavam.

Estima-se que em Malibu ao longo dos anos, desde que foi construída a barragem de Rindge e construídos paredões ao longo da costa a contribuição de areia do ribeiro para a costa, de aproximadamente 41.000 metros cúbicos por ano, foi reduzido para cerca de 14.000.
No entanto na Gold Coast, na Austrália, a resposta foi diferente. Não é renunciar à proteção rígida, mas enterrá-la sob uma praia que se compromete a manter, e incorporar os efeitos do surf no planeamento costeiro, chegando mesmo a projetar um recife artificial com o surf como "prioridade máxima".
No entanto, é de referir que, em algumas regiões, a intervenção humana na costa é desencadeada como medida de prevenção e proteção a futuros impactos de temporais junto à costa, que, como se sabe, devido às alterações climáticas estão a tornar-se mais intensos e frequentes.
Referência da notícia
Reineman, D., Hodges, T., Sancho-Gallegos, D.. (2026). Globally significant surf breaks are vulnerable to climate change.