Será que as alterações climáticas têm impacto no futuro do surf em muitas regiões da Terra?

O surf ganhou importância cultural, social e económica ao longo do último século e hoje é globalmente relevante. Baseado no fenómeno natural da interação das ondas do oceano com a linha de costa, será que o futuro do surf está ameaçado pelas alterações climáticas?

O surf é uma atividade desportiva muito dependente do estado do mar, mais especificamente das ondas que rebentam junto à costa.
O surf é uma atividade desportiva muito dependente do estado do mar, mais especificamente das ondas que rebentam junto à costa.

A prática do surf, que ocorre em muitas zonas costeiras do globo, é importante para esses locais, pois, além de sustentar o lazer e o turismo, é muitas vezes um meio de subsistência para essas regiões.

Os melhores picos de surf do mundo estão vulneráveis às alterações climáticas

A comunidade ligada ao surf e ao oceano, é a primeira a perceber os impactos no ecossistema do surf, sejam eles causados pela deterioração da qualidade da água, pela perda de habitat, pela poluição por plástico e detritos marinhos e, cada vez mais, pelos impactos das alterações climáticas.

Lixo provocado por turistas num conhecido 'spot' de surf nas Maldivas.
Lixo provocado por turistas num conhecido 'spot' de surf nas Maldivas.

Embora os surfistas saibam intuitivamente que fatores como a subida do nível do mar e o aumento da atividade das tempestades afetarão as ondas, é também importante demonstrar cientificamente como as alterações climáticas irão moldar e alterar os ecossistemas do surf, de forma a que seja possível uma melhor preparação para as alterações que se avizinham e integrar a resiliência no planeamento costeiro.

Uma equipa de cientistas em parceria com a associação Save the Waves, organização internacional sem fins lucrativos que trabalha com diversas organizações dedicadas à proteção dos ecossistemas de surf e que tem como missão proteger os ecossistemas de surf em todo o mundo, desenvolveu um estudo para analisar a relação do surf e as alterações climáticas.

Este estudo mostra como as ondas dentro da rede de Reservas Mundiais de Surf serão afetadas pelas alterações climáticas de diferentes formas, dependendo de uma variedade de fatores, incluindo a sensibilidade da ondulação à altura do nível do mar, à composição do fundo do mar, à resiliência da linha costeira e muito mais.

Estando a resiliência da linha de costa relacionada com a degradação por construções, paredões e escassez de sedimentos, a sensibilidade ao nível do mar com o facto do aumento da profundidade da água alterar a quebra da onda e a composição do fundo do mar com o facto de serem os bancos de areia e recifes de corais que dão forma à onda.

Os recifes de corais moldam o fundo do mar e criam algumas das ondas perfeitas para o surf
Os recifes de corais moldam o fundo do mar e criam algumas das ondas perfeitas para o surf

Neste estudo foram analisadas as vulnerabilidades de 57 picos de surf em 8 países, incluindo Portugal, Austrália, Peru, Brasil, EUA, Reino Unido, El Salvador e Costa Rica.

Estes locais foram selecionados por estarem incorporados na chamada Reserva Mundial de Surf, um estatuto solicitado pelos atores locais e designado pela associação Save the Waves, com base na importância cultural, histórica e ambiental de cada local para o surf.

O Dr. Dan Reineman, consultor e autor principal do estudo, utilizou uma ferramenta que desenvolveu, chamada SurfCAT, Ferramenta de Avaliação da Vulnerabilidade dos Picos de Surf às Alterações Climáticas, para analisar riscos diretos e indiretos.

Trata-se de uma série de questões, respondidas por 190 especialistas locais, das condições de surf, que gera uma avaliação dos fatores mais influenciados pelas alterações climáticas, criando-se assim uma base de dados única.

Esta ferramenta científica avalia múltiplas métricas de risco, incluindo a sensibilidade do pico de surf ao nível da maré e à subida do nível do mar, o transporte de sedimentos e composição do fundo do mar, a adaptabilidade da linha de costa e o corredor de ondulação, bem como a inclusão no planeamento da adaptação.

Uma das conclusões do estudo é que uma elevada proporção de picos de surf está em risco devido à resiliência da sua linha de costa (89% apresentam risco médio ou elevado), à sensibilidade à subida do nível do mar (79% apresentam risco médio ou elevado) e à composição do fundo marinho (75% apresentam risco médio ou elevado).

Assim, a maior parte dos picos de surf selecionados apresentam um risco médio ou elevado de perturbação devido às alterações climáticas.

Enquanto a subida do nível do mar pode atuar em algumas regiões costeiras a longo prazo, as respostas humanas às alterações climáticas podem ter já um efeito a curto prazo.

Além das alterações climáticas, há a intervenção humana a ter também impacto no surf

As próprias respostas humanas às alterações climáticas, como, por exemplo, a construção de paredões que também representam ameaças existenciais e imediatas para a qualidade das ondas e a dinâmica de sedimentos.

Por exemplo, o que tem vindo a acontecer em Malibu ao longo dos anos é o resultado da intervenção humana, com a construção de barragens, diques e rios canalizados que privaram esta costa dos sedimentos que formam as suas praias.

Mas esta situação está a tornar-se rapidamente uma questão climática, porque uma costa desprovida das suas defesas naturais é uma costa sem nada que absorva o que está para vir, designadamente fortes tempestades. E nos próximos meses poderá ocorrer já um evento severo, atendendo ao grau de intensidade do atual El Niño.

O Centro de Previsão Climática da NOAA emitiu um alerta El Niño e estima em mais de 90% a probabilidade de um evento muito forte na costa da Califórnia neste outono e inverno, pois a temperatura à superfície ultrapassou o recorde histórico para este fenómeno.

Malibu é apenas um exemplo visível de uma transformação que se desenrola ao longo de toda a costa da Califórnia, onde a areia que forma as praias foi cortada em quase todas as suas fontes: presa atrás de barragens nos rios que antes a forneciam e selada atrás de paredões nos penhascos que antes a depositavam.

A faixa de areia de muitas praias da costa da Califórnia está a tornar-se mais estreita
A faixa de areia de muitas praias da costa da Califórnia está a tornar-se mais estreita

Estima-se que em Malibu ao longo dos anos, desde que foi construída a barragem de Rindge e construídos paredões ao longo da costa a contribuição de areia do ribeiro para a costa, de aproximadamente 41.000 metros cúbicos por ano, foi reduzido para cerca de 14.000.

Cerca de 596.300 metros cúbicos de sedimentos permanecem hoje atrás da barragem, aproximadamente metade será areia adequada para praias, de acordo com o Departamento de Parques Estaduais da Califórnia.

No entanto na Gold Coast, na Austrália, a resposta foi diferente. Não é renunciar à proteção rígida, mas enterrá-la sob uma praia que se compromete a manter, e incorporar os efeitos do surf no planeamento costeiro, chegando mesmo a projetar um recife artificial com o surf como "prioridade máxima".

Conclui-se assim, que os melhores picos de surf do mundo estão vulneráveis às alterações climáticas e à intervenção humana na costa.

No entanto, é de referir que, em algumas regiões, a intervenção humana na costa é desencadeada como medida de prevenção e proteção a futuros impactos de temporais junto à costa, que, como se sabe, devido às alterações climáticas estão a tornar-se mais intensos e frequentes.

Referência da notícia

Reineman, D., Hodges, T., Sancho-Gallegos, D.. (2026). Globally significant surf breaks are vulnerable to climate change.