Recifes artificiais ajudam a preservar biodiversidade na Madeira, mas não substituem os naturais
Estruturas submersas na Madeira e no Porto Santo revelam como ambientes construídos apoiam a vida marinha, embora não reproduzam totalmente a complexidade ecológica dos sistemas naturais.

Ao longo de quase dez anos, uma equipa de investigadores portugueses e espanhóis acompanhou a vida marinha na Madeira e no Porto Santo com o intuito de comparar recifes naturais e artificiais.
Ao fim de quase uma década de monitorização, as conclusões foram inequívocas: as estruturas artificiais ajudam a manter a biodiversidade, mas não substituem a complexidade ecológica dos recifes naturais.
Comparar dois mundos subaquáticos
O trabalho, publicado na revista Biodiversity and Conservation, resulta de nove anos de monitorização contínua de peixes em dois recifes naturais e um recife artificial em cada ilha. A investigação foi conduzida pelo programa BioMa, em colaboração com o Instituto de Florestas e Conservação da Natureza da Madeira e a Universidade de Las Palmas.
A monitorização revelou que os recifes artificiais atraem muitas das mesmas espécies que os naturais e, em alguns processos, comportam‑se de forma semelhante. No entanto, não conseguem replicar totalmente as funções ecológicas dos recifes naturais – sobretudo no que diz respeito à diversidade funcional e à complexidade das interações entre espécies.
Duas ilhas, duas realidades
O estudo mostra que o desempenho dos recifes artificiais depende fortemente do contexto ecológico de cada ilha. Na Madeira, onde as comunidades de peixes são mais ricas e diversificadas, as diferenças entre os dois ecossistemas foram menos marcadas.
No Porto Santo, as diferenças entre recifes naturais e artificiais foram mais evidentes, e o recife artificial apresentou valores elevados de diversidade funcional quando comparado com um recife natural sujeito a maior pressão de pesca. Em ambientes mais vulneráveis, os recifes artificiais parecem desempenhar um papel mais relevante na manutenção da biodiversidade.
O que foi observado debaixo de água
Ao longo dos nove anos, foram registadas 52 espécies de peixes, incluindo castanhetas, peixes‑verdes, porquinhos, castanhetas‑pretas e bodiões – as mais abundantes. O estudo identificou também espécies de grande importância ecológica e de conservação, como o mero, o badejo, o peixe‑cão, o peixe‑porco e várias espécies de raias.

A presença destas espécies demonstra que os recifes artificiais conseguem atrair fauna diversa e desempenhar funções relevantes, mas não atingem o mesmo nível de complexidade ecológica dos recifes naturais, que acumulam séculos de formação e interações biológicas.
Como se estuda um recife
O estudo integra o trabalho do BioMa, um programa que monitoriza a biodiversidade marinha da Madeira desde 2016. Duas vezes por ano – no verão e no outono – a equipa mergulha nos mesmos locais para fotografar e registar a vida marinha. Atualmente, são monitorizados 19 locais na Madeira e no Porto Santo, incluindo recifes rochosos, fundos de areia, campos de rodólitos e estruturas artificiais.
Apesar da vasta informação recolhida, os investigadores ressalvam que só uma observação prolongada permite tirar conclusões robustas sobre tendências populacionais ou impactos da atividade humana.
A próxima fase do estudo passa por converter dados científicos em informação acessível para decisores políticos, facilitando a criação de medidas de gestão costeira e conservação.
Proteger mosaicos, não peças isoladas
Uma das principais conclusões do estudo é que a proteção da biodiversidade não pode centrar‑se apenas num tipo de habitat. Recifes artificiais são úteis para criar novos espaços de vida marinha, mas não substituem a necessidade de proteger recifes naturais, fundos de areia, campos de algas e outras estruturas essenciais.
Os investigadores defendem a criação de mosaicos de áreas protegidas, que integrem vários habitats e atuem como redes ecológicas completas. Proteger apenas um recife natural porque tem mais espécies, ou apenas um recife artificial porque tem maior densidade, é insuficiente. A conservação eficaz exige uma abordagem integrada.
Décadas de experiência
A Região Autónoma da Madeira tem uma longa experiência na implementação de recifes artificiais. Os primeiros foram instalados nos anos 1980 pela Direção Regional de Pescas, com o objetivo de repovoar áreas costeiras afetadas pela atividade humana.
Na costa sul da Madeira, as zonas do Paul do Mar e do Jardim do Mar receberam recifes artificiais entre os 18 e os 22 metros de profundidade, compostos por módulos de betão que contribuíram para um aumento significativo da biodiversidade local.
Mais recentemente, foi afundada a corveta Pereira d’Eça, em 2016, no Porto Santo, que tem ajudado a simular a diversidade dos recifes naturais adjacentes. Dois anos mais tarde, as autoridades regionais fizeram o mesmo com a corveta Afonso Cerqueira, na área marinha protegida do Cabo Girão, onde têm reforçado a produção local de espécies e dinamizado o turismo de mergulho.

Esta experiência acumulada, segundo os investigadores, demonstra que os recifes artificiais podem ser recursos valiosos para a conservação, o turismo e a investigação científica, mas terão de estar obrigatoriamente integrados numa estratégia mais ampla de proteção dos ecossistemas naturais.
Um futuro de ciência e gestão integrada
Os recifes artificiais são aliados importantes, mas não substitutos dos recifes naturais. A preservação da biodiversidade marinha depende da proteção de todos os habitats do ecossistema costeiro da Madeira e do Porto Santo.
Com mais dados recolhidos e novas áreas prestes a serem monitorizadas, como a costa norte, as Desertas e as Selvagens, a região prepara‑se para aprofundar o conhecimento sobre os seus ecossistemas e transformar ciência em políticas públicas eficazes.
Referência da notícia
Pedro Neves, Rodrigo Riera & Claudia Ribeiro. Artificial reefs as functional substitutes? insights from a nine-year reef fish monitoring in Madeira. Biodiversity and Conservation.
CIIMAR MADEIRA. Programa de Monitorização de recifes naturais da Madeira e Porto Santo.
Direção Regional de Pescas. Recifes Artificiais da Região Autónoma da Madeira.