Qual o impacto nos gases de efeito de estufa dos campos de arrozais, que têm vindo a aumentar nas últimas décadas?

O arroz é um alimento básico diário para mais de metade da população mundial. Noventa por cento do abastecimento mundial de arroz provém da Ásia, onde existem os maiores arrozais do mundo.

O arroz é a terceira maior cultura cerealífera do mundo, apenas ultrapassada pelas de milho e trigo.
O arroz é a terceira maior cultura cerealífera do mundo, apenas ultrapassada pelas de milho e trigo.

Os arrozais são essenciais para a segurança alimentar global, mas são também uma das principais fontes de emissões de gases com efeito de estufa do sector agrícola.

Implicação da expansão dos arrozais e método de cultivo

A produção de arroz está em plena expansão devido à procura global. Embora a Ásia domine a produção, a África Austral, particularmente Angola e a Zâmbia, duplicou as suas áreas de cultivo de arroz desde 1960.

A área cultivada anualmente em todo o mundo variou entre 397,4 milhões de acres em 2015 e 426 milhões de acres em 2024.

Os arrozais são continuamente inundados, criando condições de baixo oxigénio que sufocam as ervas daninhas e permitem que o arroz floresça. No entanto, o solo com baixo teor de oxigénio é também o ambiente perfeito para o desenvolvimento de bactérias que produzem metano, que é um dos gases mais relevante com efeito de estufa, que impulsiona o aquecimento climático a curto prazo.

O método de cultivo utilizado, que é denominado por incorporação de resíduos da cultura, consiste na utilização de a mistura de restos de colheita, como talos e folhas, no solo alagado do arrozal para melhorar a estrutura do solo e a ciclagem de nutrientes. No entanto, isto também satura o solo com carbono e aumenta a produção de metano.

Os arrozais têm vindo a aumentar nos últimos anos, provocando um aumento de gases com efeito de estufa na atmosfera
Os arrozais têm vindo a aumentar nos últimos anos, provocando um aumento de gases com efeito de estufa na atmosfera

Um novo estudo, publicado na Nature Food, fez a avaliação global mais abrangente das emissões de gases com efeito de estufa relacionadas com o arroz até à data, analisando as alterações do metano, óxido nitroso e carbono do solo desde 1961 a 2020.

O objetivo do estudo era compreender o impacto climático total dos sistemas de cultivo do arroz, não apenas do metano, mas de todos os principais gases com efeito de estufa em conjunto e identificar caminhos realistas para a mitigação.

Os investigadores combinaram a aprendizagem automática (ou machine learning) baseada em mais de 21.000 observações de campo e uma meta-análise global. Quantificaram as emissões totais, identificaram os principais fatores e avaliaram como as futuras estratégias de mitigação poderiam contribuir para as metas climáticas.

Este estudo descobriu que as emissões globais de gases com efeito de estufa provenientes da produção de arroz duplicaram nos últimos 60 anos, apesar das iniciativas mundiais para reduzir o impacto climático da cultura.

As emissões líquidas de gases com efeito de estufa dos arrozais globais duplicaram aproximadamente de 1961–1980 para 2001–2020, devido principalmente ao aumento de 52% nas emissões de dióxido de carbono (CO2) do solo e um aumento de 44% nas emissões de metano (CH4) do solo.

Os autores concluíram ainda que a expansão da produção de arroz não foi o único fator responsável pelo aumento das emissões de metano, este aumento também se deve ao método de cultivo utilizado, com incorporação de resíduos da cultura.

Regionalmente, o Leste Asiático registou um aumento das emissões de metano associadas à incorporação excessiva de palha nos arrozais. Isto ocorre quando grandes quantidades da palha de arroz restante são devolvidas ao solo após a colheita, em vez de serem removidas. O processo melhora a fertilidade do solo e aumenta a matéria orgânica, que, na sua inevitável decomposição, produz emissões de metano.

O estudo avaliou que a prática de devolver a palha ao solo é responsável por 18% do aumento das emissões líquidas totais do arroz desde a década de 1960.

Além disso, África emergiu como um ponto crítico de emissões em rápido crescimento, dado que a área cultivada com arroz aumentou sete vezes em média entre 1961 e 2024, atingindo 40 milhões de acres.

Como reduzir as emissões provenientes dos arrozais

No estudo foram ainda apresentadas algumas medidas de mitigação das emissões provenientes dos arrozais.

Apesar do aumento das emissões, os autores indicam que uma melhor gestão agrícola poderia reduzir as emissões em cerca de 10% sem comprometer a produtividade.

As principais estratégias incluem a otimização da gestão da água para reduzir a formação de metano, minimizar o retorno excessivo de resíduos ao solo e melhorar a eficiência dos fertilizantes azotados.

Os fertilizantes utilizados nos arrozais também contribuem para o aumento de gases com efeito de estufa na atmosfera, nomeadamente o óxido nitroso
Os fertilizantes utilizados nos arrozais também contribuem para o aumento de gases com efeito de estufa na atmosfera, nomeadamente o óxido nitroso

Os fertilizantes também são um dos contribuintes para as emissões. A utilização de azoto sintético aumentou cerca de 76% após 2000, o que leva à emissão de maiores quantidades de óxido nitroso para a atmosfera.

Um dos autores do estudo destaca que as soluções de mitigação apresentadas no estudo são soluções práticas e escaláveis que os agricultores podem adotar de imediato e oferecem um caminho significativo para que a agricultura contribua para as metas climáticas de curto prazo, incluindo as metas de redução de metano.

Os resultados sugerem ainda que a adoção de uma “agricultura climaticamente inteligente” adaptada a cada região se tornará cada vez mais importante para equilibrar a produção alimentar com as metas de mitigação das alterações climáticas.

No entanto, em cenários futuros de aquecimento global, a eliminação completa das emissões dos arrozais é improvável, e o estudo concluiu que serão essenciais estratégias de gestão integradas e específicas para cada região.

Referência da notícia:

Jingting Zhang, Hanqin Ti et al., “Global rice paddy greenhouse gas emissions have doubled over the past six decades driven by area expansion and intensified residue incorporation”, Nature Food, vol 7., Published: 22 May 2026