Picadas de mosquito podem revelar reação do nosso sistema imunitário
Nem todas as pessoas reagem da mesma forma às picadas de mosquito, sendo que, segundo os cientistas, a explicação está na complexa interação entre a saliva do inseto e o nosso sistema imunitário. Vem descobrir mais aqui!

Para algumas pessoas, uma picada de mosquito desaparece quase sem deixar vestígios. No entanto para outras, transforma-se numa área vermelha, inchada e extremamente pruriginosa que pode permanecer durante vários dias.
A diferença não está necessariamente no número de picadas, mas na forma como o organismo reage à saliva do inseto.
Tudo começa no momento da picada
Quando um mosquito fêmea encontra uma pessoa, perfura a pele com a sua probóscide para conseguir chegar ao sangue. Durante este processo, injeta saliva no local. Essa saliva não serve apenas para facilitar a alimentação contém várias substâncias biologicamente ativas, incluindo proteínas que ajudam a impedir a coagulação do sangue e a manter o fluxo sanguíneo enquanto o mosquito se alimenta.
De acordo com um artigo avançado pelo The Conversation, é precisamente essa mistura de proteínas que desencadeia a resposta do sistema imunitário.
O organismo reconhece componentes da saliva como substâncias estranhas e desencadeia uma resposta inflamatória.
Entre os mecanismos envolvidos está a libertação de histamina, uma substância associada a sintomas como comichão, vermelhidão e inchaço. Mas a reação é mais complexa do que uma simples resposta alérgica.
A saliva consegue alterar a resposta imunitária
As substâncias presentes na saliva do mosquito conseguem modificar o ambiente imunitário junto à picada em poucos minutos. Entre os efeitos está a promoção de uma resposta conhecida como Th2, frequentemente associada a processos alérgicos.
Segundo o estudo publicado na Oxford Academic.
Os vasos sanguíneos próximos tornam-se temporariamente mais permeáveis, permitindo a passagem de células e substâncias do sistema imunitário para os tecidos. O resultado é aquilo que conhecemos tão bem, a pele fica vermelha, quente, inchada e com uma vontade quase irresistível de coçar.
De acordo com um estudo genético publicado na Oxford Academic, em que envolveu mais de 84 mil pessoas, mostrou que há quem desenvolva apenas uma pequena marca e quem apresente grandes áreas inflamadas. Até no mesmo indivíduo a resposta pode mudar ao longo do tempo.
Crianças podem reagir mais intensamente
A idade é um dos fatores que pode ajudar a explicar estas diferenças.
As crianças tendem a apresentar reações mais fortes porque tiveram menos oportunidades de exposição à saliva dos mosquitos. Com o contacto repetido, o sistema imunitário pode modificar a sua resposta e as reações tornar-se menos intensas.
O mesmo fenómeno ajuda a explicar por que razão uma pessoa pode reagir de forma diferente quando viaja para uma região onde existem outras espécies de mosquitos.
A saliva não é exatamente igual entre espécies. Assim, um organismo habituado aos componentes salivares dos mosquitos da sua região pode reagir de forma mais intensa quando entra em contacto com proteínas diferentes.
A genética também parece desempenhar um papel, uma vez que existem diferenças individuais na forma como o sistema imunitário regula a inflamação.
Quando uma picada se transforma numa reação exagerada
Na maioria dos casos, a reação é incómoda, mas não representa um problema grave. Existe, contudo, uma pequena percentagem de pessoas que desenvolve respostas locais muito mais intensas.

Uma dessas situações é conhecida como síndrome de Skeeter. O inchaço pode espalhar-se bastante para além do ponto onde ocorreu a picada e, por vezes, a reação pode ser confundida com uma infeção bacteriana da pele.
A síndrome está associada a uma resposta imunitária particularmente intensa às proteínas da saliva do mosquito. Apesar de impressionantes, as reações alérgicas graves provocadas por picadas são extremamente raras.
O problema pode ir além da comichão
A saliva dos mosquitos interessa aos cientistas uma vez que pode influenciar a forma como determinados agentes patogénicos entram no organismo.
As alterações provocadas pela saliva no sistema imunitário da pele parecem poder facilitar, em determinadas circunstâncias, o estabelecimento inicial de vírus transmitidos por mosquitos, como os responsáveis pela dengue, pelo Zika e pela febre do Nilo Ocidental.
O que fazer perante uma reação intensa?
Uma compressa fria aplicada pouco depois da picada pode ajudar a diminuir o inchaço. Anti-histamínicos e alguns cremes corticosteroides de aplicação local podem também aliviar a comichão e a inflamação, quando adequados.
É igualmente importante evitar coçar, pois para além de prolongar a inflamação, as unhas podem provocar pequenas lesões na pele e aumentar o risco de infeção. Na eventualidade da zona ficar muito inchada, dolorosa ou se surgirem sintomas como febre, é aconselhável procurar avaliação médica.
Referência da notícia
Amy V. Jones , Mera Tilley , Alex Gutteridge , Craig Hyde , Michael Nagle , Daniel Ziemek , Donal Gorman , Eric B. Fauman , Xing Chen , Melissa R. Miller , Chao Tian , Youna Hu , David A. Hinds , Peter Cox , Serena Scollen. (2017). GWAS of self-reported mosquito bite size, itch intensity and attractiveness to mosquitoes implicates immune-related predisposition loci.
Khalid Beshir. (2026). Por que algumas pessoas reagem tão mal às picadas de mosquito? A resposta está na saliva dos insetos.