O cristal nascido do fogo atómico: o misterioso material de Hiroshima que desafia as leis da geologia
O bombardeamento atómico de Hiroshima não apenas mudou drasticamente a história, mas também criou materiais nunca antes observados na natureza, surgidos sob condições físicas impossíveis de reproduzir através de processos geológicos convencionais.

Na manhã de 6 de agosto de 1945, quando a história mundial mudou para sempre, a detonação da bomba atómica Little Boy sobre Hiroshima libertou energia equivalente a cerca de 15 quilotoneladas de TNT. Em apenas alguns segundos, a temperatura dentro da bola de fogo atingiu vários milhares de graus, vaporizando prédios, veículos, aço, concreto, vidro, solo e até mesmo parte da água da superfície.
Esta explosão causou uma tragédia humana sem precedentes — provocou a morte de cerca de 140.000 pessoas entre o momento da detonação e os meses seguintes —, mas também desencadeou um fenómeno físico extraordinário cujos efeitos ainda surpreendem a comunidade científica.
Mais de oito décadas depois, uma equipa internacional de investigadores identificou uma estrutura cristalina e uma liga metálica nunca antes descritas em minúsculas partículas de material provenientes de Hiroshima. A descoberta, publicada na revista Science Advances, demonstra que as condições extremas geradas por uma explosão nuclear podem produzir materiais inteiramente novos, impossíveis de serem obtidos através de processos geológicos comuns.
Os "Hiroshimaitas", o legado microscópico da devastação
A descoberta teve origem em minúsculas partículas vítreas conhecidas como hiroshimaítas. Estes minúsculos fragmentos foram identificados pela primeira vez em 2019 nas areias da Baía de Hiroshima, a vários quilómetros a sul do hipocentro da explosão. Durante anos, permaneceram despercebidos entre os grãos de areia até que uma análise detalhada revelou que não se tratavam de minerais naturais, mas sim de remanescentes condensados da imensa nuvem de material vaporizado gerada pela bomba.
Hiroşima'ya atılan atom bombası yeni bir madde oluşturdu.
— DonanımHaber (@donanimhaber) July 31, 2026
Atom bombasının oluşturduğu aşırı sıcaklık, daha önce bilinmeyen silisyum zengini bir kristal alaşım meydana getirdi.
Yeni yapı, beş veya daha fazla temel metal elementinden oluşan çok bileşenli kristal alaşım pic.twitter.com/s8CdzsPI9f
Estas partículas exibem uma grande variedade de formas: algumas são esféricas, outras alongadas, ou assemelham-se a gotículas solidificadas. A sua composição também é extraordinariamente complexa, pois contêm misturas de vidro, minerais e metais da cidade destruída.
Os investigadores acreditam que elas constituem um verdadeiro registo fóssil dos segundos após a detonação, quando a matéria foi submetida simultaneamente a temperaturas extremas, pressões enormes e arrefecimento quase instantâneo.
Uma liga completamente nova
O novo estudo analisou 34 amostras de hiroshimaítas utilizando microscópios eletrónicos de alta resolução e difratómetros de raios X, instrumentos que permitem o estudo da estrutura interna de materiais cristalinos.

Entre milhares de minúsculos grãos metálicos, um destacava-se. A sua composição incluía ferro, crómio, níquel, manganês, molibdénio, silício e alumínio, mas o que era realmente surpreendente não era a mistura de elementos, e sim a forma como os seus átomos estavam dispostos. Os cientistas descobriram que esta disposição cristalina não correspondia a nenhuma estrutura conhecida até então, nem na natureza nem em materiais industriais.
Por outras palavras, a explosão resultou numa liga completamente nova, formada sob condições físicas impossíveis de reproduzir através de processos geológicos convencionais. Segundo os autores, a descoberta demonstra que fenómenos extremos causados pelo homem também podem gerar minerais e materiais inteiramente novos, ampliando o catálogo de estruturas cristalinas conhecidas.
Partículas originadas de uma nuvem de átomos
A chave está na velocidade do processo. Quando a bomba explodiu a uma altitude de cerca de 600 metros, a imensa bola de fogo vaporizou praticamente tudo pelo seu caminho. Por alguns instantes, prédios inteiros, metais, concreto, vidro e solo foram transformados numa nuvem de átomos e moléculas a temperaturas superiores a 6.000 °C.

Então, um processo de arrefecimento extraordinariamente rápido teve início. À medida que a nuvem se expandia, os vapores metálicos começaram a condensar-se em apenas alguns segundos. Este arrefecimento ultrarrápido "congelou" os átomos antes que pudessem rearranjar-se nas suas estruturas cristalinas habituais. Como resultado, eles ficaram presos numa configuração diferente de qualquer outra conhecida anteriormente.
Os investigadores comparam este fenómeno ao revenimento extremo de alguns materiais industriais, embora realizado sob condições muito mais elevadas de pressão, temperatura e taxa de arrefecimento.
Um material sem equivalente conhecido
A natureza produz processos capazes de gerar temperaturas muito elevadas, como erupções vulcânicas ou o impacto de grandes meteoritos. No entanto, muito poucos eventos combinam a vaporização massiva de materiais urbanos com o arrefecimento praticamente instantâneo.

Portanto, os meteoritos de Hiroshima constituem um tipo de material sem equivalente conhecido. Estudos anteriores já tinham demonstrado que estes vidros se formaram por condensação direta dentro da nuvem nuclear e que exibem até mesmo assinaturas isotópicas (uma espécie de impressão digital atómica que revela a sua origem e os processos pelos quais passaram) comparáveis às observadas em certos meteoritos primitivos chamados condritos, que são os materiais sólidos mais antigos conhecidos no sistema solar.
Esta semelhança impressionante transformou as partículas de Hiroshima num modelo inesperado para o estudo de processos que ocorreram há mais de 4,5 mil milhões de anos, durante a formação dos planetas.
Referência da notícia
Bindi, L. et al. (2026). A new multicomponent alloy in Hiroshima fallout: Extreme anthropogenic conditions generate previously unknown crystalline materials. Science Advances.