Morcego-do-norte detetado na Península Ibérica pela primeira vez: o que significa esta descoberta?

Foi identificado pela primeira vez na Península Ibérica um exemplar de morcego-do-norte (Cnephaeus Nilssonii). A descoberta, ocorrida no passado dia 20 de julho por parte de investigadores catalães, possui contornos intrigantes e inesperados. Perceba aqui porquê!

Uma descoberta inesperada está a levar uns investigadores catalães a repensar a distribuição de algumas espécies de morcegos na Europa. Imagem: © Grup de Recerca BiBio
Uma descoberta inesperada está a levar uns investigadores catalães a repensar a distribuição de algumas espécies de morcegos na Europa. Imagem: © Grup de Recerca BiBio

No Parque Natural do Cadí-Moixeró (Catalunha) foi identificado pela primeira vez na Península Ibérica um exemplar de morcego-do-norte (Cnephaeus Nilssonii), uma espécie particularmente adaptada aos ambientes frios do norte da Europa, sobretudo em regiões e países como a Escandinávia, Finlândia e Rússia, embora também seja frequentemente encontrada nos Alpes (cadeia montanhosa do Centro-Sul da Europa).

Numa só noite a equipa capturou 231 morcegos pertencentes a 12 espécies. Entre eles encontrava-se um macho adulto de morcego-do-norte, uma espécie que até agora era conhecida sobretudo por se distribuir por regiões boreais da Europa (Escandinávia, Finlândia e Rússia), mas também em zonas montanhosas do Centro-Sul europeu como os Alpes.

A descoberta ocorreu no passado dia 20 de julho no âmbito de uma campanha de monitorização promovida pelo Parque Natural do Cadí-Moixeró em colaboração com o grupo de investigação BiBio, integrado no Centro Tecnológico BETA, e o Museu de Ciências Naturais de Granollers (Barcelona).

O que é o morcego-do-norte? Conheça as suas principais características

Possui uma extraordinária capacidade de adaptação, resistência e sobrevivência aos ambientes frios, é insetívora (especialmente insetos voadores), ajudando, por isso, no controlo de populações de pragas. É uma das espécies de morcego mais setentrionais do planeta, sendo, de momento, uma das poucas entre os mamíferos que é capaz de se reproduzir acima do Círculo Polar Ártico.

A sua sobrevivência em regiões com longos e rigorosos invernos está associada a adaptações fisiológicas que lhe permitem enfrentar períodos de escassez de alimento e temperaturas muito baixas, e em termos de habital tem preferência por florestas boreais de coníferas e zonas montanhosas.

Entre as adaptações fisiológicas referidas encontra-se a capacidade de entrar em torpor, um estado de atividade metabólica reduzida que funciona como uma espécie de “hibernação de curta duração” e que pode durar menos de 24 horas. Com o metabolismo baixo, o animal consegue assim reduzir consideravelmente o consumo de energia.

Esta descoberta levanta agora várias questões

O achado inédito despertou de imediato múltiplas questões nas cabeças dos investigadores. Será que existe uma população de morcegos-do-norte no Parque Natural de Cadí-Moixeró? Terá este exemplar chegado à Península Ibérica a partir dos Alpes? Ou será somente um vestígio de populações que sobreviveram no sul da Europa desde as últimas glaciações e que se mantiveram indetetadas até aos dias de hoje?

A equipa está agora a preparar a publicação científica que irá formalizar a descrição do primeiro registo da presença do morcego-do-norte na Península Ibérica.
A equipa está agora a preparar a publicação científica que irá formalizar a descrição do primeiro registo da presença do morcego-do-norte na Península Ibérica.

Os cientistas procuram igualmente compreender se há alguma relação entre esta descoberta e a presença do morcego argênteo (Vespertilio murinus), outra espécie de distribuição predominantemente nórdica que foi recentemente identificada no mesmo parque pela mesma equipa.

Os resultados da análise morfológica e genética do espécime recolhido de morcego-do-norte deverão ajudar a determinar a sua origem e a compreender melhor a história e a atual distribuição desta espécie na Europa. Esta descoberta pode abrir uma nova janela sobre a capacidade de adaptação, dispersão e persistência dos morcegos perante as profundas alterações ambientais ocorridas ao longo da história do continente.

Referência da notícia

Agencia EFE. (2026). Localizado pela primeira vez um exemplar de morcego-do-norte na Península Ibérica.