Investigador português usa a neurociência para descodificar as emoções ocultas da “Última Ceia”

Estudo conduzido pelo professor Freitas-Magalhães propõe uma releitura da obra-prima de Leonardo da Vinci como um laboratório de expressões faciais e emoções humanas.

O investigador Freitas-Magalhães usou um instrumento neurocientífico inovador para estudar as emoções humanas na obra-prima de Leonardo da Vinci. Imagem: reprodução do original, domínio público via Wikimedia Commons
O investigador Freitas-Magalhães usou um instrumento neurocientífico inovador para estudar as emoções humanas na obra-prima de Leonardo da Vinci. Imagem: reprodução do original, domínio público via Wikimedia Commons

O que mais se pode dizer sobre a “Última Ceia”, a obra-prima de Leonardo da Vinci? Estando entre os quadros do Renascimento mais estudados no mundo, será difícil encontrar novas dimensões para a tela que o artista, nascido em Itália, pintou entre 1495 e 1498.

O quadro rompe com todas as convenções da época, trazendo novos significados para as artes, a religião ou as ciências exatas.

Representando o momento dramático em que Jesus anuncia que um dos discípulos irá traí-lo, a obra é, desde logo, um estudo de perspetiva com todas as linhas arquitetónicas a convergirem para a figura central, o ponto focal técnico e emocional da cena representada.

Surpresa, medo, indignação e ansiedade são algumas das emoções presentes na obra de Leonardo da Vinci, que revelam padrões neuroemocionais distintos, segundo a investigação de Armindo Freitas-Magalhães. Imagem de domínio público trabalhada no Canva.
Surpresa, medo, indignação e ansiedade são algumas das emoções presentes na obra de Leonardo da Vinci, que revelam padrões neuroemocionais distintos, segundo a investigação de Armindo Freitas-Magalhães. Imagem de domínio público trabalhada no Canva.

Os jogos de luzes, as técnicas e os materiais inovadores, a organização geométrica ou o simbolismo dos números fazem desta composição um retrato intenso, mas, ao mesmo tempo, harmonioso e vibrante nas suas cores.

Não por acaso, o mural pintado no teto do refeitório da Igreja de Santa Maria delle Grazie, em Milão, é um dos casos de estudo mais complexos, com historiadores, matemáticos, teólogos, entre outros tantos especialistas, a procurar descobrir dimensões ocultas da “Última Ceia”.

A neurociência aplicada a uma obra-prima

Já muito se escreveu e se estudou sobre esta obra, mas ainda há muito por dizer, como ficou demonstrado agora pela investigação apresentada por Armindo Freitas-Magalhães, professor, psicólogo e diretor do Laboratório de Expressão Facial da Emoção, da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade Fernando Pessoa, no Porto.

Acrescentando uma dimensão original à pintura de Da Vinci, o trabalho do investigador português culminou, ao fim de 16 anos, com o livro "A Face da Traição: A Neurociência da Emoção na Última Ceia de Leonardo da Vinci".

Surpresa, medo, indignação ou ansiedade são algumas emoções presentes na obra, que revelam padrões neuroemocionais distintos, defende a investigação de Armindo Freitas-Magalhães.

A traição estampada no rosto de Judas

Mas entre as emoções expressas pelos 12 apóstolos, Judas é o que se sobressai. O estudo está, por isso, focado no seu rosto, concluindo-se que reúne todos os elementos que o identificam como traidor – os olhos bem abertos, a testa contraída, as sobrancelhas levantadas, os lábios comprimidos e a própria postura corporal que, quando Cristo anuncia “um de vós irá me trair”, se move para trás, denunciando a sua culpa.

Segundo a investigação do diretor do Laboratório de Expressão Facial da Emoção da Universidade Fernando Pessoa, a pintura de Leonardo da Vinci demonstra a reação coletiva à revelação da traição e serve como um modelo naturalista para estudar emoções.

A análise facial indica que a culpa, o medo e a dissimulação formam o triângulo neuroemocional da traição, especialmente evidente na figura de Judas Iscariotes.

A fusão entre a emoção e o cérebro

A composição da pintura, segundo o comunicado da universidade, organiza os apóstolos em quatro grupos emocionais, permitindo comparar diferentes respostas afetivas perante o mesmo estímulo.

A investigação debruçou-se sobre as expressões faciais dos 12 apóstolos, mas está essencialmente focada no rosto de Judas Iscariotes. Imagem: Imagem de domínio público trabalhada no Canva.
A investigação debruçou-se sobre as expressões faciais dos 12 apóstolos, mas está essencialmente focada no rosto de Judas Iscariotes. Imagem: Imagem de domínio público trabalhada no Canva.

A codificação facial revela, por seu turno, que Leonardo da Vinci conseguiu captar microdinâmicas expressivas de extraordinária precisão, antecipando, séculos antes, princípios que hoje são estudados pela neurociência da emoção.

O livro “A Face da Traição” reúne 16 anos de investigação, incluindo as deslocações do autor até Milão para estudar a obra
O livro “A Face da Traição” reúne 16 anos de investigação, incluindo as deslocações do autor até Milão para estudar a obra

A obra evidencia, assim, que o rosto humano funciona como uma interligação biológica entre o cérebro, a emoção e a comunicação social, tornando visíveis processos neuropsicológicos profundos.

“A 'Última Ceia' não é apenas uma obra de arte, é um teatro neuroemocional, onde a biologia da confiança quebrada se torna visível na face humana”.
Freitas-Magalhães, autor do estudo

Integrando neurociência, psicologia da emoção, história da arte e análise facial científica, o especialista em neurolinguística demonstra que, para lá da dimensão artística, espiritual e filosófica, a pintura pode ser compreendida como um verdadeiro laboratório visual da emoção humana.

A ciência e o divino na obra de da Vinci

O livro propõe, por isso, uma nova leitura da obra de Leonardo da Vinci não apenas como narrativa religiosa ou realização artística, mas como “documento extraordinário da psicologia humana”, destaca a universidade em comunicado.

A análise demonstra que a arte pode preservar, com notável fidelidade, os padrões universais da expressão emocional. De acordo com esta investigação, Cristo já compreendia, à época, o poder das expressões faciais.

É a partir desta premissa que surge o presente estudo, articulando a precisão científica com a esfera do divino. Esta perspetiva neurocientífica é, por sua vez, sustentada por um instrumento científico, utilizado pela primeira vez no âmbito desta investigação.

A “Última Ceia” de Leonardo da Vinci é uma das obras do Renascimento mais estudadas pela sua composição, simbolismo e inovação técnica. Imagem: Adobe Stock
A “Última Ceia” de Leonardo da Vinci é uma das obras do Renascimento mais estudadas pela sua composição, simbolismo e inovação técnica. Imagem: Adobe Stock

Trata-se de um código de análise da expressão facial da emoção, único no mundo e usado para identificar os diferentes movimentos expressivos da “Última Ceia”.

Com os resultados reunidos em livro, Armindo Freitas-Magalhães pretende agora ajudar o cidadão comum a reconhecer as emoções. Ao fazê-lo, o investigador espera abrir caminho para uma compreensão mais profunda dos outros e evitar os muitos equívocos que tantas vezes nascem daquilo que não se vê, mas se sente.

Referência do artigo

Laboratório do Porto faz estudo pioneiro de 16 anos sobre A Última Ceia de Leonardo da Vinci. Laboratório da Expressão Facial da Emoção. Faculdade de Medicina da Universidade Fernando Pessoa

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