Investigador português usa a neurociência para descodificar as emoções ocultas da “Última Ceia”
Estudo conduzido pelo professor Freitas-Magalhães propõe uma releitura da obra-prima de Leonardo da Vinci como um laboratório de expressões faciais e emoções humanas.

O que mais se pode dizer sobre a “Última Ceia”, a obra-prima de Leonardo da Vinci? Estando entre os quadros do Renascimento mais estudados no mundo, será difícil encontrar novas dimensões para a tela que o artista, nascido em Itália, pintou entre 1495 e 1498.
Representando o momento dramático em que Jesus anuncia que um dos discípulos irá traí-lo, a obra é, desde logo, um estudo de perspetiva com todas as linhas arquitetónicas a convergirem para a figura central, o ponto focal técnico e emocional da cena representada.

Os jogos de luzes, as técnicas e os materiais inovadores, a organização geométrica ou o simbolismo dos números fazem desta composição um retrato intenso, mas, ao mesmo tempo, harmonioso e vibrante nas suas cores.
Não por acaso, o mural pintado no teto do refeitório da Igreja de Santa Maria delle Grazie, em Milão, é um dos casos de estudo mais complexos, com historiadores, matemáticos, teólogos, entre outros tantos especialistas, a procurar descobrir dimensões ocultas da “Última Ceia”.
A neurociência aplicada a uma obra-prima
Já muito se escreveu e se estudou sobre esta obra, mas ainda há muito por dizer, como ficou demonstrado agora pela investigação apresentada por Armindo Freitas-Magalhães, professor, psicólogo e diretor do Laboratório de Expressão Facial da Emoção, da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade Fernando Pessoa, no Porto.
Surpresa, medo, indignação ou ansiedade são algumas emoções presentes na obra, que revelam padrões neuroemocionais distintos, defende a investigação de Armindo Freitas-Magalhães.
A traição estampada no rosto de Judas
Mas entre as emoções expressas pelos 12 apóstolos, Judas é o que se sobressai. O estudo está, por isso, focado no seu rosto, concluindo-se que reúne todos os elementos que o identificam como traidor – os olhos bem abertos, a testa contraída, as sobrancelhas levantadas, os lábios comprimidos e a própria postura corporal que, quando Cristo anuncia “um de vós irá me trair”, se move para trás, denunciando a sua culpa.
Segundo a investigação do diretor do Laboratório de Expressão Facial da Emoção da Universidade Fernando Pessoa, a pintura de Leonardo da Vinci demonstra a reação coletiva à revelação da traição e serve como um modelo naturalista para estudar emoções.
A análise facial indica que a culpa, o medo e a dissimulação formam o triângulo neuroemocional da traição, especialmente evidente na figura de Judas Iscariotes.
A fusão entre a emoção e o cérebro
A composição da pintura, segundo o comunicado da universidade, organiza os apóstolos em quatro grupos emocionais, permitindo comparar diferentes respostas afetivas perante o mesmo estímulo.

A codificação facial revela, por seu turno, que Leonardo da Vinci conseguiu captar microdinâmicas expressivas de extraordinária precisão, antecipando, séculos antes, princípios que hoje são estudados pela neurociência da emoção.

A obra evidencia, assim, que o rosto humano funciona como uma interligação biológica entre o cérebro, a emoção e a comunicação social, tornando visíveis processos neuropsicológicos profundos.
Freitas-Magalhães, autor do estudo
Integrando neurociência, psicologia da emoção, história da arte e análise facial científica, o especialista em neurolinguística demonstra que, para lá da dimensão artística, espiritual e filosófica, a pintura pode ser compreendida como um verdadeiro laboratório visual da emoção humana.
A ciência e o divino na obra de da Vinci
O livro propõe, por isso, uma nova leitura da obra de Leonardo da Vinci não apenas como narrativa religiosa ou realização artística, mas como “documento extraordinário da psicologia humana”, destaca a universidade em comunicado.
É a partir desta premissa que surge o presente estudo, articulando a precisão científica com a esfera do divino. Esta perspetiva neurocientífica é, por sua vez, sustentada por um instrumento científico, utilizado pela primeira vez no âmbito desta investigação.

Trata-se de um código de análise da expressão facial da emoção, único no mundo e usado para identificar os diferentes movimentos expressivos da “Última Ceia”.
Com os resultados reunidos em livro, Armindo Freitas-Magalhães pretende agora ajudar o cidadão comum a reconhecer as emoções. Ao fazê-lo, o investigador espera abrir caminho para uma compreensão mais profunda dos outros e evitar os muitos equívocos que tantas vezes nascem daquilo que não se vê, mas se sente.
Referência do artigo
Laboratório do Porto faz estudo pioneiro de 16 anos sobre A Última Ceia de Leonardo da Vinci. Laboratório da Expressão Facial da Emoção. Faculdade de Medicina da Universidade Fernando Pessoa
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