Fungo "zombie" que inspirou The Last of Us é registado pela primeira vez na Amazónia

Descoberta inédita na Amazónia revela fungo do género Cordyceps a parasitar tarântula gigante, ampliando o conhecimento sobre relações evolutivas raras, biodiversidade amazónica e a importância da conservação da chamada funga brasileira.

"Fungo do The Last of Us” foi encontrado a infetando tarântula na Amazónia. Crédito: @drechsler_santos/Instagram/Reprodução/ND Mais
"Fungo do The Last of Us” foi encontrado a infetando tarântula na Amazónia. Crédito: @drechsler_santos/Instagram/Reprodução/ND Mais

Investigadores brasileiros e dinamarqueses registaram, pela primeira vez, um fungo do género Cordyceps a parasitar uma tarântula gigante na Amazónia. A descoberta ocorreu durante uma expedição científica na Reserva Adolpho Ducke, perto de Manaus, e envolveu cientistas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), da Universidade de Copenhaga (UCPH) e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

A espécie identificada, Cordyceps caloceroides, foi encontrada a infetar uma aranha da espécie Theraphosa blondii, considerada uma das maiores tarântulas do mundo. Fungos deste grupo ficaram conhecidos do grande público por obras de ficção como a série The Last of Us, mas, na natureza, são altamente especializados em infetar insetos e outros artrópodes.

O registo foi feito em janeiro pela estudante Lara Fritzsche, da UCPH, durante atividades do Tropical Mycology Field Course, curso de campo organizado pelo biólogo João Paulo Machado de Araújo. A descoberta ganhou repercussão após ser divulgada pelo professor Elisandro Ricardo Drechsler-Santos, da UFSC, nas suas redes sociais.

Relação rara entre fungo e aracnídeo

Segundo Elisandro, embora fungos do género Cordyceps sejam encontrados em diferentes biomas brasileiros, o parasitismo em aracnídeos é extremamente raro. Estes organismos costumam apresentar um elevado grau de especialização, atacando hospedeiros muito específicos, resultado de relações evolutivas estabelecidas ao longo de milhões de anos.

“São interações muito antigas e específicas. No caso das formigas, já existem evidências de associações com mais de 50 milhões de anos. Em aranhas, este tipo de registo é raro e difícil de encontrar”, explicou o investigador em entrevista.

O cientista destaca que as condições ambientais da Amazónia e a diversidade de espécies tornam a descoberta ainda mais relevante, permitindo comparações com registos feitos noutros biomas e ampliando o entendimento sobre a evolução destes fungos.

Como age o fungo "zombie"

De acordo com os investigadores, o Cordyceps caloceroides propaga-se através de esporos que entram em contacto com o corpo da aranha, possivelmente pelo solo ou pela superfície da floresta. Após a infeção, o fungo passa a utilizar o organismo do hospedeiro para completar o seu ciclo de vida.

Investigador divulgou descoberta do “fungo do The Last of Us” em tarântula nas redes sociais. Crédito: Acervo pessoal/Agecom UFSC/ND Mais
Investigador divulgou descoberta do “fungo do The Last of Us” em tarântula nas redes sociais. Crédito: Acervo pessoal/Agecom UFSC/ND Mais

No exemplar encontrado, uma estrutura alongada e alaranjada emerge do corpo da tarântula. Esta formação é a parte reprodutiva do fungo, responsável pela libertação de novos esporos. Antes disso, a aranha muda de comportamento e enterra-se no solo rico em matéria orgânica, ambiente ideal para o desenvolvimento do parasita.

Apesar da aparência impressionante, o investigador reforça que este tipo de fungo não representa qualquer risco para humanos. “Eles são altamente especializados em insetos e aracnídeos. O nosso sistema imunológico lida diariamente com milhares de esporos sem que a gente adoeça”, afirmou.

Importância científica e conservação das espécies

Para Elisandro, a repercussão do caso também ajuda a despertar o interesse do público pelos fungos, um grupo historicamente negligenciado pela ciência. No Brasil, eles passaram a ser oficialmente reconhecidos como um componente próprio da biodiversidade, ao lado da fauna e da flora.

Além de fundamentais para o equilíbrio dos ecossistemas, os fungos possuem grande potencial económico e medicinal. “A penicilina é um exemplo clássico de como estes organismos podem gerar benefícios para a humanidade”, lembrou o investigador.

O Brasil abriga mais de 10% da biodiversidade mundial, incluindo inúmeras espécies de fungos ainda pouco estudadas. “Conhecer e conservar esta diversidade é essencial para o avanço científico, o desenvolvimento socioeconómico e a soberania do país”, concluiu.

Referências da notícia

UFSC. Pesquisadores encontram tarântula infectada por fungo que a torna ‘zumbi’ em expedição na Amazônia. 2026