Foi assim que os romanos criaram estruturas e pontes que, após 2000 anos, continuam a desafiar a gravidade
A engenharia romana combinou inovação e precisão para construir edifícios colossais, aquedutos e pontes. Através de inovações como o arco, o betão e o planeamento meticuloso, Roma transformou a arte da construção e a sua marca sobrevive dois mil anos mais tarde.

Quando pensamos na Roma antiga, não imaginamos apenas legiões ou conquistas, mas também obras de engenharia colossais que sobreviveram durante mais de dois mil anos. Em Roma, obras como o Coliseu ou o Panteão, em França o Teatro de Nîmes, em Espanha o aqueduto de Segóvia, o Teatro Romano de Mérida ou as muralhas de Lugo, continuam a dominar as paisagens modernas e testemunham silenciosamente uma civilização que era mestre na arte da construção.
Mas como o faziam há milénios? A resposta combina ciência, tecnologia, organização e uma visão prática que transformou materiais e conceitos arquitetónicos em monumentos eternos.
A revolução do arco: a chave estrutural
Um dos pilares do sucesso romano foi a utilização do arco redondo, uma técnica emprestada e aperfeiçoada que permitia redistribuir eficazmente as cargas.
Num arco, cada pedra (ou cunha) empurra para a seguinte, transferindo o peso para os pilares e fundações, de modo a que a estrutura se mantenha em equilíbrio sem apoios intermédios excessivos.
Isto permitiu aos romanos construir pontes com vários arcos que atravessavam rios largos e edifícios monumentais com grandes câmaras internas, como as que vemos nos anfiteatros ou aquedutos.
O betão romano: um material fora do seu tempo
A invenção do opus caementicium, o betão romano, foi outro marco crucial. Esta mistura de cal, água, cascalho e, sobretudo, cinza vulcânica (pozolana), rica em sílica e alumina, produziu um material que não só era versátil, como também endurecia com o tempo.
A reação química entre os ingredientes gerou um material muito resistente, capaz até de reparar microfissuras ao longo do tempo, um fenómeno que muitos materiais modernos tentam reproduzir hoje em dia.
Este betão permitiu aos romanos moldar formas complexas e criar estruturas monolíticas gigantescas com uma durabilidade espantosa, como o Panteão - a maior cúpula não reforçada com aço alguma vez construída - e partes das paredes exteriores do Coliseu, ambos na capital italiana.
Ferramentas, medição e planeamento
Mas Roma não se limitou a inovar nos materiais e nas formas; também desenvolveu ferramentas e métodos para planear com precisão.
A utilização de instrumentos como a groma, que permitia traçar linhas rectas e ângulos com exatidão, foi fundamental para o planeamento de estradas, vias urbanas e redes de infraestruturas que ligavam todo o império.
A topografia avançada e os conhecimentos práticos de matemática e física (herdados, entre outros, dos gregos) permitiram que estas obras se adaptassem ao terreno e resistissem às forças naturais, como a gravidade, a pressão da água ou as cargas variáveis.
Pontes que ainda atravessam rios
Muitas pontes romanas sobreviveram devido à sua localização estratégica, construção sólida e continuidade de utilização, demonstrando a capacidade dos engenheiros romanos para calcular forças, otimizar materiais e utilizar o arco para atravessar grandes distâncias com elegância e força.
Mesmo as pontes temporárias, como a construída por Júlio César sobre o Reno em 55 a.C., mostram a extraordinária rapidez de construção e organização do trabalho do exército romano, que era capaz de construir estruturas temporárias em apenas alguns dias quando as campanhas militares o exigiam.
Infraestruturas integradas: mais do que pontes e edifícios
Os romanos construíram muito mais do que pontes e templos. A sua rede rodoviária de mais de 80 000 km ligava cidades que serviram de base a muitas vias modernas.
Para o efeito, foram adicionadas várias camadas de materiais compactados para criar uma base sólida e uma drenagem eficaz, com uma superfície ligeiramente curvada e valas laterais para evacuar a água.
Construíram também aquedutos, esgotos como a Cloaca Maxima, portos com fundações em betão hidráulico e grandes edifícios civis que sustentavam a vida urbana do império.
Um legado milenar ainda vivo
A engenharia romana não foi fruto do acaso: foi o resultado de uma combinação de conhecimentos técnicos, planeamento, investimento em materiais de qualidade e uma ética de trabalho que valorizava a durabilidade.
Embora muitos avanços modernos tenham ultrapassado as técnicas antigas em termos de eficiência e economia, o legado estrutural e arquitetónico de Roma ainda desafia a gravidade ao fim de dois mil anos, graças aos engenheiros que pensaram em termos de séculos e não de décadas.