Estudo científico revelou projeções alarmantes sobre como as cidades tropicais e subtropicais estão prestes a aquecer
As cidades costumam ser mais quentes do que as áreas rurais circundantes e este fenómeno, conhecido como ilha de calor urbana, pode ser influenciado por vários fatores, tais como infraestrutura urbana, perda de vegetação e retenção de calor localizada.

Devido a este fenómeno da ilha de calor, os riscos para a saúde relacionados com o calor aumentam para algumas populações urbanas e é cada vez mais importante a estimativa da subida da temperatura nas cidades, atendendo à alteração climática.
Cidades tropicais e subtropicais e os níveis de aquecimento
Cada vez há mais população a ir viver para as cidades. Em 2018, estimava-se que mais de metade da população mundial residia em cidades, mas atualmente prevê-se que esta proporção aumente para 68% até 2050.
Um estudo liderado pela Universidade de East Anglia, em Norwich, Inglaterra, publicado recentemente na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, integra projeções climáticas globais de última geração com modelos avançados de aprendizagem automática para prever mudanças nas temperaturas diurnas da superfície terrestre em várias cidades tropicais e subtropicais de média dimensão, sob a mudança climática.
Os resultados do estudo sugerem que os modelos convencionais provavelmente subestimam os riscos do calor urbano, com implicações para o planeamento urbano e a preparação da saúde pública. Os modelos climáticos regionais utilizados têm resoluções mais altas e fornecem compreensões detalhadas do microclima urbano.

A investigação visa especificamente 104 cidades com populações entre 300 000 e um milhão de habitantes, predominantemente em regiões afetadas por monções, como a Índia, a China e a África Ocidental.
Até agora, grande parte da investigação sobre a ilha de calor urbana concentrava-se nas megacidades, que representam apenas 12% da população urbana.
O estudo aponta que várias cidades no nordeste da China e no norte da Índia deverão aquecer 3 °C, apesar das projeções do Modelo do Sistema Terrestre para as suas zonas interiores indicarem um aquecimento de 1,5-2 °C.
Prevê-se assim a amplificação das ilhas de calor urbanas em várias cidades tropicais e subtropicais de média dimensão, sob a mudança climática.
Nas cinco maiores cidades, em termos de população, analisadas, as maiores mudanças são observadas em Jalandhar (Índia), Fuyang (China) e Kirkuk (Iraque), que experimentam uma mudança adicional de 0,7-0,8 °C na temperatura em comparação com os seus arredores rurais.
As duas restantes, Marraquexe (Marrocos) e Campo Grande (Brasil), apresentam diferenças insignificantes entre o aquecimento urbano e o das suas imediações.
No entanto, outras cidades registam um aquecimento significativamente maior, por exemplo, Asyut (Egito), Patiala (Índia) e Shangqui (China) registam uma variação adicional de 1,5-2 °C, o que representa um aumento de até 100 % em relação às suas zonas interiores.
Implicações destas descobertas
As cidades estudadas estão localizadas nas regiões mais quentes do mundo, o que, segundo os autores, torna esses aumentos ainda mais significativos para a saúde humana e o ambiente urbano.
As temperaturas elevadas nas áreas urbanas além de representarem riscos maiores de doenças relacionadas com o calor e pressão sobre os sistemas de saúde podem provocar um aumento da mortalidade durante eventos de calor extremo intensificados pelas mudanças climáticas.

Dada a importância demográfica das cidades de tamanho médio, que, coletivamente, superam as grandes aglomerações urbanas em mais de duas vezes e meia, as consequências destas descobertas são significativas.
Uma compreensão mais profunda das mudanças relacionadas com as alterações climáticas na intensidade das ilhas de calor urbanas é uma informação útil para os arquitetos urbanistas ao projetarem cidades com o objetivo de otimizar o conforto e a saúde humana, além de permitir um planeamento para criar comunidades mais resilientes.
Ao integrar metodologias de inteligência artificial com a ciência climática, o estudo abre caminho para avaliações de risco climático mais matizadas e exequíveis, adaptadas aos centros urbanos em todo o mundo. Esta abordagem integrada é vital para compreender e enfrentar as crescentes ameaças à saúde humana e à sustentabilidade urbana colocadas pelas alterações climáticas.
Este estudo marca um avanço crítico na ciência climática urbana, ressaltando a urgência de estratégias de adaptação climática nas cidades.
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