Embalagens que combatem o desperdício é o futuro que já acontece nos laboratórios do Mediterrânico

Investigadores da Universidade Católica do Porto lideram projeto internacional que usa propriedades bioativas de resíduos para atrasar a deterioração dos alimentos.

Embalagens que retardam e sinalizam a deterioração de alimentos estão a ser desenvolvidas por um consórcio internacional, liderado por investigadores portugueses. Foto: Projeto NOVAPACK
Embalagens que retardam e sinalizam a deterioração de alimentos estão a ser desenvolvidas por um consórcio internacional, liderado por investigadores portugueses. Foto: Projeto NOVAPACK

Quantas vezes já abriu o frigorífico e, olhando para uma embalagem, perguntou a si próprio se o alimento estaria em condições de ser consumido? Na dúvida, acabamos quase sempre por desperdiçar comida que poderia eventualmente ser ainda aproveitada.

Imagine agora que a própria embalagem fosse inteligente o suficiente para o avisar que o produto está ainda dentro do prazo ou então que já ultrapassou a data de validade.

Essa é a missão do projeto NOVAPACK, que reúne investigadores de quatro países mediterrânicos - Portugal, Espanha, Tunísia e Egito.

A iniciativa é um autêntico salto no futuro que promete embalagens feitas de resíduos alimentares desenvolvidas para retardar o crescimento de microrganismos associados à deterioração de carnes, peixes, frutas e hortícolas.

A liderança dos investigadores portugueses

Coordenada pelo grupo de Bioativos & Bioprodutos do Centro de Biotecnologia e Química Fina (CBQF) da Universidade Católica Portuguesa do Porto, a investigação procura reduzir desperdício e reforçar a segurança alimentar.

Ao desenvolver embalagens com propriedades bioativas extraídas de subprodutos vegetais produzidos na região do Mediterrâneo, o consórcio internacional espera vir a dar um grande impulso à economia circular.

As soluções incorporam propriedades bioativas, acondicionando os alimentos, ajudando a conservá-los e fornecendo ainda informações sobre a qualidade dos produtos alimentares.

Barreiras protetoras dos alimentos

Os investigadores estão a usar compostos fenólicos extraídos de alimentos com atividade antioxidante e antimicrobiana, que retardam a oxidação e proliferação de bactérias.

A investigação testa, simultaneamente, pigmentos naturais que conferem uma aparência melhorada aos alimentos. Estão ainda a serem analisadas cadeias de açúcares simples e fibras capazes de formar géis ou películas biodegradáveis.

Os compostos bioativos extraídos dos resíduos agroalimentares estão a ser usados para criar embalagens inteligentes. Imagem gerada por IA: Mirala via Adobe Stock
Os compostos bioativos extraídos dos resíduos agroalimentares estão a ser usados para criar embalagens inteligentes. Imagem gerada por IA: Mirala via Adobe Stock

A ideia é incorporar estas moléculas em materiais de embalagens que irão libertar de forma controlada barreiras antimicrobianas e antioxidantes que atrasam a deterioração de alimentos frescos como carne, pescado, frutas e legumes. Os alimentos ficam protegidos, dispensando inclusive conservantes introduzidos diretamente nos produtos.

Soluções inspiradas nos desperdícios

Os extratos naturais são obtidos a partir de desperdícios agroindustriais integrados em embalagens biodegradáveis ou aplicados como revestimento em torno dos alimentos. Estão também a ser estudados sistemas que sinalizam visualmente as alterações no alimento, como mudanças de pH.

Espera-se que estes mecanismos possam alterar a cor quando o produto já não estiver em condições de ser consumido. Para evitar sabores e odores estranhos, os extratos foram igualmente purificados e testados em quantidades e condições diferentes para garantir que não produzem impacto no sabor ou na aparência.

Os pioneiros da biorefinaria

No projeto NOVAPACK, o processo de extração de compostos bioativos segue princípios de biorrefinaria sustentável, uma área em que o Centro de Biotecnologia e Química Fina da Universidade Católica do Porto assume-se como pioneiro em Portugal.

Ao longo dos últimos anos, o Grupo de Bioativos & Bioprodutos desenvolveu investigação fundamental que permitiu identificar, caracterizar e valorizar uma vasta gama de subprodutos agroindustriais, criando metodologias próprias e reconhecidas internacionalmente.

A biorefinaria aplicada à valorização de subprodutos agroalimentares permite usar ingredientes, moléculas ou extratos com propriedades tecnológicas, nutricionais ou bioativas nos produtos finais, especialmente em novas embalagens alimentares.

Mediterrânico, um laboratório natural

A zona mediterrânica foi especialmente relevante para esta investigação. O Sul da Europa, o Norte de África e parte do Médio Oriente estão entre áreas mais vulneráveis às alterações climáticas.

Temperaturas extremas e escassez de água, no entanto, não impedem o Mediterrâneo de ser também uma das regiões mais ricas em produção agroalimentar. Grandes volumes de subprodutos são aqui gerados, mas nem sempre valorizados.

Esta combinação de abundância de recursos e fragilidade ambiental torna o Mediterrâneo um laboratório natural para soluções de embalagem sustentáveis.

Estamos também diante de uma das regiões agrícolas mais ricas e diversificadas do mundo, responsável por produzir grandes quantidades de frutas, legumes, azeite, tomate, citrinos e outros produtos típicos da dieta mediterrânica.

A região Mediterrânica, com grande produção agrícola, oferece enormes oportunidades para investigar soluções que visam reduzir o desperdício. Foto: Jill Wellington via Pixabay
A região Mediterrânica, com grande produção agrícola, oferece enormes oportunidades para investigar soluções que visam reduzir o desperdício. Foto: Jill Wellington via Pixabay

A elevada produção gera igualmente excesso de resíduos agroalimentares, que colocam desafios no seu correto tratamento. Embalagens biodegradáveis são, por isso, o caminho obrigatório para reduzir o impacto ambiental e combater as baixas taxas de reciclagem.

Referências da notícia

Débora Campos & Maria Manuela Pintado. Novel Antimicrobial coatings and PACKaging in the Mediterranean. Universidade Católica Portuguesa