Deitaram 65 000 litros de químicos ao mar para travar o aquecimento global: a experiência que preocupa os cientistas
A geoengenharia climática volta a estar no centro do debate, na sequência de uma experiência controversa que libertou milhares de litros de substâncias químicas no oceano com o objetivo de capturar carbono.

As alterações climáticas estão a levar a ciência a explorar soluções cada vez mais ousadas. Algumas delas parecem saídas da ficção científica: modificar a atmosfera, refletir a luz solar ou alterar quimicamente o oceano para absorver dióxido de carbono. Este conjunto de ideias é conhecido como geoengenharia e suscita tanta esperança quanto preocupação.
Neste contexto, uma experiência recente gerou uma intensa polémica: cerca de 65 000 litros de produtos químicos foram despejados no oceano com o objetivo de aumentar a capacidade da água para absorver dióxido de carbono (CO₂). O raciocínio é relativamente simples: se o mar conseguir capturar mais carbono da atmosfera, poderá ajudar a travar o aquecimento global.
Mas o oceano é um sistema extremamente complexo. Intervir na sua química pode ser comparável a adicionar um ingrediente desconhecido a uma receita gigantesca que alimenta todo o planeta.
Um antiácido para o oceano
Os oceanos já desempenham um papel crucial no equilíbrio climático: absorvem cerca de 25% do dióxido de carbono emitido pelas atividades humanas. Sem essa função natural, o aquecimento global seria ainda mais intenso.
O problema é que esta «esponja de carbono» tem um limite. Quando o mar absorve demasiado CO₂, a água torna-se mais ácida, o que afeta organismos marinhos como os corais, os moluscos e o plâncton.
Pouring 65,000 litres of sodium hydroxide into the Gulf of Maine removed up to 10 tonnes of carbon dioxide from the atmosphere without harming wildlife, according to the researchers behind an ocean alkalinity enhancement test https://t.co/gS4zziOzoC
— New Scientist (@newscientist) February 27, 2026
A experiência procurou intervir nesse processo. A estratégia consiste em adicionar substâncias alcalinas à água, o que permitiria aumentar a capacidade do oceano para capturar carbono sem aumentar tanto a sua acidez... algo como dar um Alka Seltzer ao mar.
Segundo os investigadores, a vida marinha não foi colocada em risco... o problema é que o oceano não é um estômago de laboratório, mas sim um sistema dinâmico que regula as correntes, a biodiversidade e os ciclos químicos globais.
Os riscos desconhecidos de intervir no oceano
Muitos cientistas alertam que este tipo de intervenções poderá gerar efeitos em cadeia difíceis de prever. Alterar a composição química da água poderá afetar as comunidades de microrganismos, modificar as cadeias alimentares ou afetar os processos biogeoquímicos que sustentam a vida marinha.
Além disso, existe uma preocupação crescente: a geoengenharia poderá tornar-se uma "solução tecnológica tentadora" que reduza a pressão para diminuir as emissões de gases com efeito de estufa.
Alguns investigadores comparam esta estratégia a tomar analgésicos para uma doença grave. A dor pode diminuir temporariamente, mas o problema de fundo continua presente.
O debate é também político e ético. Os oceanos pertencem a todos os países e a nenhuma nação em particular. Por isso, a realização de experiências no mar levanta questões sobre a governação global e a regulamentação internacional.
Entre a urgência climática e os riscos planetários
Esta experiência resume um dos grandes dilemas da era climática. Por um lado, o planeta precisa de reduzir rapidamente o dióxido de carbono atmosférico. Por outro lado, intervir diretamente nos sistemas naturais do planeta poderá desencadear efeitos que ainda não compreendemos totalmente.

A geoengenharia apresenta-se como uma possível ferramenta de emergência. No entanto, muitos especialistas concordam num ponto fundamental: nenhuma tecnologia poderá substituir a redução drástica das emissões.
Em suma, alterar o clima do planeta pode ser a intervenção mais arriscada que a humanidade alguma vez tenha tentado.
Referência da notícia
Michael Le Page. (2026). Ocean geoengineering trial finds no evidence of harm to marine life.