Como se calcula o excesso de mortalidade devido ao calor em Portugal?
Em ondas de calor, os óbitos podem aumentar. Como separar esse impacto da oscilação habitual? Saiba como especialistas medem o risco para a população portuguesa.

Uma mulher com doença cardíaca morre durante uma onda de calor. Um idoso com problemas respiratórios não resiste a vários dias de temperaturas extremas. O calor pode não surgir como causa direta nas respetivas certidões de óbito. Ainda assim, quando o número de mortes sobe acima do habitual, os epidemiologistas podem encontrar a marca estatística deixada pelas temperaturas elevadas.
É essa, precisamente, a pergunta a que o sistema de vigilância ÍCARO procura responder. O ponto de partida não é quantas pessoas morreram oficialmente por causa do calor. É quantas mortes ocorreram acima do número esperado para aquele período.
Primeiro, é preciso detetar o risco
Coordenado pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, o sistema ÍCARO acompanha o efeito potencial das temperaturas na mortalidade. Criado em 1999, identifica períodos de calor extremo suscetíveis de afetar a saúde da população.
A peça central é o Índice-ÍCARO. Os valores diários correspondem a excessos relativos do risco de morte e são calculados a partir das temperaturas registadas e previstas para os três dias seguintes nas capitais de distrito de Portugal continental. O indicador não é uma simples escala de temperatura, mas traduz, antes, o risco associado às condições térmicas.

Um dia com 40 °C não tem necessariamente o mesmo efeito em toda a população. A relação entre temperatura e mortalidade varia entre regiões e depende de vários fatores, incluindo a capacidade de adaptação das populações às condições climáticas locais.
A identificação de um período de calor extremo com potencial impacto na mortalidade resulta da análise conjunta do Índice-Alerta-ÍCARO e das temperaturas máximas registadas. Entre os critérios utilizados estão valores elevados do índice e determinados limiares de temperatura, avaliados ao longo de vários dias consecutivos.
Depois, começa a verdadeira conta
O alerta gerado ainda não é o número de mortes. Essa estimativa exige uma segunda operação. Os investigadores comparam os óbitos observados durante o período de calor com o número de mortes que seria esperado em condições semelhantes, mas sem aquele episódio de temperaturas extremas. A diferença entre os dois valores revela o excesso de mortalidade.
A conta, em termos simples, é esta:
- Óbitos observados − óbitos esperados = excesso de mortalidade
O valor esperado, no entanto, não é escolhido arbitrariamente. É estimado através de modelos estatísticos que consideram a tendência da mortalidade e os seus padrões sazonais.
Os dados dos óbitos são obtidos através do sistema de Vigilância Diária da Mortalidade, gerido pelo Departamento de Epidemiologia do INSA, e baseado nos registos das conservatórias do registo civil.
Isso não significa, porém, que seja possível identificar individualmente essas 100 pessoas e comprovar que morreram por causa do calor. Trata-se de uma estimativa estatística do impacto das temperaturas na população.
A análise também não termina necessariamente quando os termómetros descem. Os efeitos da exposição ao calor podem prolongar-se por vários dias. Um estudo desenvolvido para aperfeiçoar o sistema ÍCARO encontrou efeitos relevantes de temperaturas muito elevadas até quatro dias depois da exposição, com o risco máximo associado a 43 °C no dia seguinte.
Os números variam de episódio para episódio
A magnitude do excesso depende da intensidade e da duração do calor, da população exposta e das condições de saúde. As pessoas mais velhas, sobretudo com 75 ou mais anos, estão entre os grupos mais vulneráveis, tal como quem sofre de doenças crónicas.
No verão de 2022, entre 4 de julho e 7 de agosto, foram estimados 2401 óbitos acima do esperado, correspondentes a um excesso de 25 por cento. São valores relativos a períodos e populações diferentes e não devem ser lidos como uma série anual diretamente comparável.
Em 2025, uma estimativa divulgada pela Direção-Geral da Saúde apontou para 264 óbitos em excesso entre 26 e 30 de julho, mais 21,2 por cento do que o esperado. O valor correspondia apenas àquele período e não ao conjunto do verão.
O sistema ÍCARO está novamente ativo durante a época de vigilância de 2026, desde 1 de maio. Mas ainda não há estatísticas oficiais consolidadas que permitam fazer um balanço da mortalidade associada aos episódios de calor deste ano.

A ausência de um número imediato não quer dizer que o calor não tenha consequências. Significa antes que, para estimar o impacto de temperaturas extremas, é preciso esperar pelos dados e compará-los com aquilo que teria acontecido num período normal.
Referência da notícia
INSA. Avaliação da época de vigilância ÍCARO 2021.
INSA. Avaliação da época de vigilância ÍCARO 2018 e metodologia de cálculo do excesso de mortalidade.
INSA. Estudo sobre o impacto das ondas de calor na mortalidade e aperfeiçoamento do sistema ÍCARO.
INSA. Monitorização da mortalidade e sistema ÍCARO.
INSA. Análise da mortalidade em 2022.
DGS. Excesso da mortalidade associado ao calor.