Como a erupção de Pompeia e o relato de Plínio refiniram a precisão do tempo geológico

O legado do Vesúvio, a erupção histórica que calibrou o relógio da Terra. Saiba mais aqui!

A precisão na datação de erupções vulcânicas pré-históricas é crucial para compreender a evolução da Terra, calibrar a escala de tempo geológico e correlacionar ciclos climáticos e extinções em massa.

Hoje, dezenas de milhões de pessoas habitam junto a vulcões ativos como os da região de Nápoles.

Para avaliar riscos vulcânicos e prever futuras erupções, é fundamental estabelecer intervalos de recorrência fiáveis através da datação precisa de eventos recentes.

Desafios do método em eventos recentes

O método do árgon40/árgon39 é essencial em geocronologia, mas perde precisão relativa em amostras geológicas jovens. Análises prévias em lavas recentes apresentavam margens de erro superiores a 22%.

No caso do Vesúvio de 79 d.C., medições anteriores por árgon40/árgon39, radiocarbono e urânio-tório/hélio confirmavam a data histórica, mas com incertezas de cerca de 100 anos (~5%).

Além disso, vestígios em testemunhos de gelo da Gronelândia mantinham a dúvida sobre se pertenciam ao Vesúvio ou a erupções contemporâneas nos Açores.

Inovação tecnológica e confirmação histórica

Para ultrapassar este obstáculo, os investigadores extraíram cristais puros de sanidina de pedra-pomes colhida em Oplontis, perto de Pompeia. Combinando aquecimento incremental por laser, espectrometria de massa de múltiplos detetores com amplificadores ATONA e irradiação otimizada por neutrões, obtiveram uma idade de 1938 ± 13 anos (relativa a 2025), correspondente ao ano de 87 ± 13 d.C.

Este valor é estatisticamente indistinguível de 79 d.C., atingindo uma precisão inédita de 0,7% e uma exatidão de 0,4%. O estudo reavaliou também as fontes romanas de Plínio e Cássio Dio, confirmando a data de 24 de agosto de 79 d.C. e desmontando hipóteses de uma erupção no outono baseadas em moedas e artefactos mal interpretados.

Um "relógio" afinado para o futuro

Como os historiadores já sabiam exatamente o ano em que o Vesúvio entrou em erupção, os cientistas puderam usar as cinzas deste vulcão como um teste perfeito para afinar os seus próprios instrumentos de medição.

Na prática, eles observaram o processo natural em que um elemento da rocha se vai transformando noutro ao longo dos séculos, como a areia a cair lentamente numa ampulheta e conseguiram calcular a velocidade exata a que isso acontece.

Este novo cálculo da "velocidade da areia" tem o dobro da precisão de tudo o que já se tinha conseguido fazer em laboratório. Graças a esta descoberta, a partir de agora, os cientistas passam a ter uma "ampulheta" muito mais rigorosa para descobrir a idade de qualquer rocha do nosso planeta, o que vai ajudar também a acertar e melhorar outros métodos de datação famosos, como o do radiocarbono.

Referências da notícia

Clark, Gaby. (2026). Pompeii's destruction helps calibrate volcanic dating to within decades.
Paul R. Renne, William S. Cassata, Caroline E. J. Hasler, Jack N. Carter, Anthony J. Fuentes, Andrew J. Tholt, Andrea Marzoli. (2026). Pliny the Younger advances geochronology.