As alterações climáticas obrigam famílias a separarem-se: quem decide quem migra e quem fica nos ambientes extremos?
No Bangladesh, Butão, Índia e Nepal, muitas pessoas migram das zonas rurais para cidades devido a ciclones, tempestades, inundações e secas, que ameaçam ou destroem casas e meios de subsistência, aumentando a migração climática.

A maioria dos estudos anteriores centrou-se na migração de homens que se mudam em busca de emprego e na forma como isso afeta as mulheres e as famílias que deixam para trás. Mas muitas mulheres também migram como resultado de eventos climáticos extremos.
Os núcleos familiares de migrantes assumem muitas formas. Um novo estudo envolveu a recolha de dados através de questionários e entrevistas a cerca de 1.200 famílias nestes países, revelando um quadro complexo.
Impacto mais evidente na Ásia
Na Índia, no Nepal e no Bangladesh, as mulheres tendem a envolver-se mais na agricultura e na criação de animais. Os homens migram para as cidades para trabalhar na construção civil ou em fábricas, regressando frequentemente a casa para visitas anuais, ou com maior frequência se estiverem mais perto de casa. Mas no Butão, é mais comum as mulheres se mudarem para trabalhar, sozinhas ou com as suas famílias.

O Butão e o Nepal são regiões montanhosas propensas a inundações e deslizamentos de terra. A recolha de água tem sido tradicionalmente uma tarefa feminina. Mas os sistemas de água canalizada fornecidos pelo Estado tornaram o abastecimento de água mais fiável e acessível. Posto isto, outras tarefas domésticas e de cuidados, como cozinhar, cuidar dos filhos e dos familiares idosos, continuam a ser da responsabilidade das mulheres. Isto deixa-lhes pouco tempo para outras atividades.
Alterações climáticas e as migrações
As pressões climáticas aprofundam algumas desigualdades de género e intergeracionais já existentes. Por exemplo, os eventos climáticos extremos podem aumentar a carga de trabalho das mulheres sem necessariamente melhorar a sua posse de bens, o controlo financeiro ou a liderança comunitária.
Mas esta investigação mostra como as pressões climáticas têm influências complexas na migração e na adaptação. A migração climática pode levar a uma renegociação das relações familiares – isto depende de quem se muda e de quem fica. Outros fatores incluem as condições materiais e os recursos disponíveis para a família, as dinâmicas sociais e o apoio recebido, bem como as normas de género em torno dos papéis, responsabilidades e expectativas.

No Nepal, os especialistas observaram, de um modo geral, um movimento no sentido da construção de relações mais recíprocas. Isto permite aos pais contribuir conjuntamente para o seu futuro e ajudar a construir um futuro mais estável para os seus filhos.
O Butão reflete uma continuidade das vantagens culturais em termos de equidade económica e social, embora esta esteja a ser, em certa medida, afetada pela migração. Atualmente, há uma ênfase na construção da unidade e da coesão comunitária nas zonas rurais, que testemunham um rápido despovoamento. Na Índia e no Bangladesh, as mulheres estão a assumir maiores responsabilidades na gestão das propriedades rurais, na gestão das finanças e na participação em cooperativas agrícolas ou grupos de poupança, muitas vezes sem controlo ou liderança.
Salários e condições de trabalho justos são essenciais. Mas, além disso, a migração climática está a mudar as responsabilidades de género nos cuidados domésticos e no trabalho dentro das famílias. Afeta também quem detém a propriedade e o controlo das finanças e da terra, e influencia a forma como as famílias tomam decisões. Para apoiar as famílias à medida que esta dinâmica se altera, é importante reforçar os direitos fundiários das mulheres, melhorar o acesso a serviços financeiros e apoiar instituições coletivas que possibilitem uma participação e liderança significativas.
Referências da notícia
Stephanie Leder, Rachana Upadhyaya, Kees van der Geest, Yuvika Adhikari, Matthias Büttner. Rural out-migration and water governance: Gender and social relations mediate and sustain irrigation systems in Nepal. World Development (2024).
SUCCESS – Successful intervention pathways for migration as adaptation
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