Após 12 anos, cientistas identificam nova espécie de planta na Mata Atlântica
Descoberta na Serra do Padre Ângelo, em Minas Gerais, a Oplonia doceana é o primeiro registo do género no Brasil e destaca a relevância do médio rio Doce para biodiversidade.

Uma planta de flores vermelhas encontrada exclusivamente nos campos rupestres da Serra do Padre Ângelo, no médio rio Doce, em Minas Gerais, foi oficialmente reconhecida como uma nova espécie pela ciência após 12 anos de investigação. Batizada de Oplonia doceana, a planta representa o primeiro registo do género Oplonia no Brasil e amplia o conhecimento sobre a distribuição deste grupo de espécies na América do Sul. A descoberta foi publicada na revista científica Plant Systematics and Evolution.
A espécie ocorre entre os municípios de Conselheiro Pena e Alvarenga, numa região que tem vindo a destacar-se como um dos principais refúgios da biodiversidade da Mata Atlântica. Além de revelar uma planta inédita, o estudo reforça a relevância das montanhas do leste de Minas Gerais para a conservação de espécies raras e endémicas.
A história da descoberta começou em 2013, durante uma expedição científica à Serra do Padre Ângelo. Desde a primeira recolha, os investigadores perceberam que se tratava de uma planta incomum, mas a sua identificação mostrou-se um desafio. Durante mais de uma década, especialistas compararam exemplares, fizeram revisão de estudos e consultaram coleções botânicas até confirmar que se tratava de uma espécie ainda desconhecida.
Parentesco inesperado amplia conhecimento sobre a flora sul-americana
Segundo o botânico Paulo Gonella, investigador do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA) e primeiro autor do estudo, a confirmação encerra um longo trabalho de investigação. "Desde a primeira recolha, eu sabia que aquela planta era diferente. Passei muitos anos a tentar descobrir a sua identidade. É muito gratificante ver este quebra-cabeças finalmente resolvido", afirma.
Até então, o género Oplonia era registado apenas em países andinos, nas Caraíbas, em Madagáscar e em partes da América Central e da América do Sul, sem ocorrências confirmadas em território brasileiro. Para os investigadores, este padrão de distribuição levanta novas questões sobre a evolução das plantas sul-americanas e pode ajudar a compreender como diferentes espécies se dispersaram ao longo da história do continente.
Homenagem ao rio Doce e alerta para a conservação
O nome da nova espécie faz referência à bacia do rio Doce, onde ela ocorre. A escolha procura valorizar uma região frequentemente lembrada pelos impactos ambientais, mas que continua a revelar uma riqueza biológica ainda pouco conhecida pela ciência.
Nos últimos dez anos, mais de 40 novas espécies de plantas foram descritas na Serra do Padre Ângelo e em montanhas vizinhas, além de diversos insetos e outros animais exclusivos da região. Apesar deste património natural, grande parte da área ainda não possui proteção oficial e enfrenta ameaças como incêndios, desflorestação e espécies invasoras.
Os autores classificaram a Oplonia doceana como "Em Perigo de Extinção", de acordo com os critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Restrita a poucas populações conhecidas, a planta vive em campos rupestres quartzíticos, um dos ecossistemas mais ameaçados e menos estudados da Mata Atlântica. Para Gonella, a descoberta demonstra que ainda existem muitas espécies desconhecidas e reforça a importância da investigação científica para orientar ações de conservação. "Só é possível proteger aquilo que conhecemos", conclui o investigador.
Referência da notícia
Instituto Nacional da Mata Atlântica. (2026). Após 12 anos de mistério, cientistas identificam nova espécie de planta na Mata Atlântica.