Anna Atkins, a pioneira que fez da luz uma ferramenta para a ciência

No século XIX, Anna Atkins encontrou nas algas uma matéria-prima inesperada para revolucionar a representação científica através da fotografia. Vamos descobrir mais um pouco sobre a sua história!

Anna Atkins utilizou as algas e a luz do sol para criar algumas das primeiras imagens fotográficas da história, transformando ciência em arte. Fonte: Revista CULT
Anna Atkins utilizou as algas e a luz do sol para criar algumas das primeiras imagens fotográficas da história, transformando ciência em arte. Fonte: Revista CULT

Quando se pensa na história da fotografia, é fácil imaginar câmaras antigas e retratos a preto e branco. Mas algumas das imagens mais importantes dos primeiros tempos da fotografia não foram feitas com uma câmara. Foram criadas com plantas, luz solar, água e uma folha de papel sensível.

Assim, a 16 de março de 1799, Anna Atkins nasceu em Tonbridge, no condado de Kent, em Inglaterra, e cresceu num ambiente pouco comum para uma mulher do seu tempo.

O seu pai, John George Children, era cientista e trabalhava no British Museum, e mantinha contactos próximos com investigadores e instituições científicas. Foi através dele que Anna teve acesso desde bem cedo ao mundo da ciência, desenvolvendo um particular interesse pela botânica e pela ilustração científica.

Ainda jovem, revelou talento para representar espécies naturais com grande rigor. Participou na ilustração da tradução inglesa de uma obra de Jean-Baptiste de Lamarck dedicada às conchas, produzindo centenas de desenhos cientificamente detalhados. No entanto foi uma nova tecnologia, que mudou o rumo do seu trabalho.

A descoberta do azul

Na década de 1830, a fotografia começava a transformar a forma como o mundo podia ser registado. Anna Atkins encontrava-se próxima de algumas das figuras fundamentais desse processo, entre elas William Henry Fox Talbot e John Herschel. Este último desenvolveu, em 1842, uma técnica fotográfica conhecida como cianotipia.

O processo era relativamente simples. Um papel era revestido com uma solução de sais de ferro e colocado ao sol com um objeto diretamente sobre a sua superfície. A luz provocava uma reação química que deixava o papel com uma intensa tonalidade azul, enquanto as zonas protegidas pelo objeto permaneciam claras. Depois de lavado e seco, surgia a silhueta do espécime.

Atkins percebeu rapidamente o potencial desta técnica para a botânica. Em vez de desenhar uma planta, podia colocá-la diretamente sobre o papel e deixar que a própria natureza produzisse a imagem. E escolheu como protagonistas as algas.

Um livro feito de luz

Em 1843, Anna Atkins começou a publicar Photographs of British Algae: Cyanotype Impressions. A obra pretendia complementar o manual de algas britânicas de William Henry Harvey, publicado em 1841, que não possuía as ilustrações que Atkins considerava necessárias.

O resultado era extraordinariamente diferente dos livros científicos tradicionais, pois em vez de gravuras ou desenhos, cada página apresentava uma impressão fotográfica azul e branca do espécime.

A dificuldade de fazer desenhos rigorosos de objetos tão pequenos como muitas das algas e confervas levou-me a recorrer ao belo processo de cianotipia de Sir John Herschel.

De acordo com a sua publicação na Royal Society, Enlightened letters.

Atkins produziu o trabalho ao longo de cerca de uma década, até 1853, organizando-o em três volumes. A Royal Society refere mais de 400 imagens fotográficas, enquanto o exemplar da própria instituição reúne 425 placas, além de algumas duplicadas.

Cada impressão tinha, porém, uma particularidade, como não existia um negativo a partir do qual fossem feitas várias cópias, cada imagem precisava de ser produzida individualmente. A delicadeza das algas, a necessidade de as posicionar cuidadosamente e a dependência da luz solar tornavam o processo minucioso e imprevisível.

Ciência com uma dimensão artística

O trabalho de Atkins não era apenas uma forma de catalogar espécies. As suas composições mostram também uma preocupação estética evidente. As delicadas estruturas das algas destacam-se contra fundos de azul profundo, criando imagens que parecem simultaneamente científicas e artísticas.

As delicadas silhuetas azuis das algas revelam o pioneirismo de Anna Atkins e a sua forma inovadora de documentar o mundo natural. Fonte: The Guardian
As delicadas silhuetas azuis das algas revelam o pioneirismo de Anna Atkins e a sua forma inovadora de documentar o mundo natural. Fonte: The Guardian

Essa combinação ajudou a dar à cianotipia uma vida muito para além da obra de Atkins. A técnica viria a ser utilizada posteriormente na reprodução de desenhos técnicos e plantas de arquitetura e engenharia, originando o termo inglês blueprint.

Atkins continuou também a trabalhar com outras plantas, incluindo fetos, em colaboração com a amiga Anne Dixon. A sua coleção botânica chegou a reunir cerca de 1500 exemplares de plantas e algas.

Uma pioneira durante muito tempo esquecida

A importância de Anna Atkins ultrapassa a própria botânica. O seu livro é considerado a primeira publicação ilustrada fotograficamente e é frequentemente apontado como o primeiro verdadeiro photobook da história.

A sua obra surgiu numa época em que as mulheres enfrentavam fortes limitações no acesso à ciência e à educação. A botânica e a ilustração eram algumas das poucas áreas científicas socialmente aceitáveis para mulheres, mas Atkins conseguiu transformar esse espaço numa oportunidade para experimentar uma tecnologia completamente nova.

Anna morreu a 9 de junho de 1871, mas as suas imagens sobreviveram. Hoje, as cianotipias de Anna Atkins são observadas tanto como documentos científicos como obras de arte.

O que começou como uma tentativa de representar fielmente algumas das formas mais delicadas do mundo vegetal acabou por mudar a própria história da fotografia.