A vida invisível que habita na fossa de Atacama

Um grupo de cientista descobriu, nas profundezas da fossa de Atacama, microrganismos que sobrevivem sem luz solar, sustentados por reações químicas baseadas em compostos de enxofre, desafiando os limites da vida.

Oceanógrafos descem até 8 quilómetros de profundidade na Fossa de Atacama, onde encontram Holotúrias, uma espécie de pepino do mar. Fonte: BBC
Oceanógrafos descem até 8 quilómetros de profundidade na Fossa de Atacama, onde encontram Holotúrias, uma espécie de pepino do mar. Fonte: BBC

Nas regiões mais profundas do oceano, onde a luz solar não penetra e a pressão é esmagadora, a vida parece improvável.

No entanto, a fossa de Atacama, localizada no oceano Pacífico ao largo do Chile, revela precisamente o contrário.

Este ambiente extremo, que ultrapassa vários milhares de metros de profundidade, continua a surpreender a ciência ao demonstrar que a vida consegue adaptar-se a condições aparentemente inóspitas.

Uma descoberta científica inesperada

Uma recente investigação, publicada na revista Nature, trouxe à luz um ecossistema microbiano singular que vive nos sedimentos marinhos desta região.

Os cientistas identificaram comunidades de microrganismos que prosperam sem depender da luz solar, baseando o seu metabolismo em reações químicas.

A descoberta ocorreu numa área conhecida como “cold seep”, onde gases e fluidos emergem lentamente do subsolo oceânico, criando condições únicas para o desenvolvimento de vida.

O papel central do enxofre

Ao contrário da maioria dos ecossistemas da Terra, que dependem da fotossíntese, estas comunidades vivem graças ao ciclo do enxofre.

Na superfície dos sedimentos, os microrganismos oxidam os compostos de enxofre para obter energia.

Já nas camadas mais profundas, outros organismos reduzem sulfatos, completando um ciclo químico essencial para a sobrevivência do ecossistema. Este processo substitui o papel da luz solar como fonte primária de energia.

Um dos aspetos mais intrigantes desta descoberta é a ausência quase total de metano. Em muitos ambientes semelhantes, este gás desempenha um papel fundamental como fonte de energia para microrganismos especializados. Segundo os cientistas chilenos Ulloa e Escribano

Diversidade escondida no fundo do mar

A análise genética das amostras recolhidas revelou uma diversidade surpreendente de vida microbiana.

Estes organismos participam em ciclos biogeoquímicos essenciais, envolvendo não apenas o enxofre, mas também o carbono e o azoto.

Além disso, foram identificadas relações simbióticas com organismos mais complexos, como alguns moluscos, que dependem destas bactérias para sobreviver em condições tão extremas.

Mapa batimétrico com a localização dos pontos de amostragem ao longo do eixo da Fossa de Atacama. Fonte: SINC
Mapa batimétrico com a localização dos pontos de amostragem ao longo do eixo da Fossa de Atacama. Fonte: SINC

Esta descoberta não é relevante apenas para a biologia marinha. Ambientes como o da fossa de Atacama são considerados análogos de possíveis habitats fora da Terra.

Os oceanos subterrâneos em luas geladas do Sistema Solar podem apresentar condições semelhantes, sem luz mas com fontes de energia química. Assim, compreender estes ecossistemas pode ajudar a orientar a procura de vida extraterrestre.

A surpreendente resiliência da vida

No fundo, este estudo reforça uma ideia fundamental, a vida é extraordinariamente adaptável.

Mesmo nos ambientes mais extremos do planeta, onde a energia solar está ausente, os organismos conseguem encontrar alternativas para sobreviver.

A fossa de Atacama torna-se, assim, mais do que um local remoto, é um laboratório natural que desafia os limites do que consideramos possível para a vida.

Referência do artigo

Arribas Tiemblo, M., Azua-Bustos, A., Sánchez-España, J. et al. "Carbon, nitrogen, and sulfur cycling unveil deep-sea microbial niches in the Atacama Trench." Nat Commun (2026).

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