A vida invisível que habita na fossa de Atacama
Um grupo de cientista descobriu, nas profundezas da fossa de Atacama, microrganismos que sobrevivem sem luz solar, sustentados por reações químicas baseadas em compostos de enxofre, desafiando os limites da vida.

Nas regiões mais profundas do oceano, onde a luz solar não penetra e a pressão é esmagadora, a vida parece improvável.
No entanto, a fossa de Atacama, localizada no oceano Pacífico ao largo do Chile, revela precisamente o contrário.
Este ambiente extremo, que ultrapassa vários milhares de metros de profundidade, continua a surpreender a ciência ao demonstrar que a vida consegue adaptar-se a condições aparentemente inóspitas.
Uma descoberta científica inesperada
Uma recente investigação, publicada na revista Nature, trouxe à luz um ecossistema microbiano singular que vive nos sedimentos marinhos desta região.
Os cientistas identificaram comunidades de microrganismos que prosperam sem depender da luz solar, baseando o seu metabolismo em reações químicas.
A descoberta ocorreu numa área conhecida como “cold seep”, onde gases e fluidos emergem lentamente do subsolo oceânico, criando condições únicas para o desenvolvimento de vida.
O papel central do enxofre
Ao contrário da maioria dos ecossistemas da Terra, que dependem da fotossíntese, estas comunidades vivem graças ao ciclo do enxofre.
Na superfície dos sedimentos, os microrganismos oxidam os compostos de enxofre para obter energia.
Já nas camadas mais profundas, outros organismos reduzem sulfatos, completando um ciclo químico essencial para a sobrevivência do ecossistema. Este processo substitui o papel da luz solar como fonte primária de energia.
Diversidade escondida no fundo do mar
A análise genética das amostras recolhidas revelou uma diversidade surpreendente de vida microbiana.
Estes organismos participam em ciclos biogeoquímicos essenciais, envolvendo não apenas o enxofre, mas também o carbono e o azoto.
Além disso, foram identificadas relações simbióticas com organismos mais complexos, como alguns moluscos, que dependem destas bactérias para sobreviver em condições tão extremas.

Esta descoberta não é relevante apenas para a biologia marinha. Ambientes como o da fossa de Atacama são considerados análogos de possíveis habitats fora da Terra.
Os oceanos subterrâneos em luas geladas do Sistema Solar podem apresentar condições semelhantes, sem luz mas com fontes de energia química. Assim, compreender estes ecossistemas pode ajudar a orientar a procura de vida extraterrestre.
A surpreendente resiliência da vida
No fundo, este estudo reforça uma ideia fundamental, a vida é extraordinariamente adaptável.
Mesmo nos ambientes mais extremos do planeta, onde a energia solar está ausente, os organismos conseguem encontrar alternativas para sobreviver.
A fossa de Atacama torna-se, assim, mais do que um local remoto, é um laboratório natural que desafia os limites do que consideramos possível para a vida.
Referência do artigo
Arribas Tiemblo, M., Azua-Bustos, A., Sánchez-España, J. et al. "Carbon, nitrogen, and sulfur cycling unveil deep-sea microbial niches in the Atacama Trench." Nat Commun (2026).
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