A variabilidade interna multissecular no Atlântico Norte com impactos no aquecimento da Europa
Além das flutuações de curto prazo impulsionadas diretamente pelas condições atmosféricas, existe no Atlântico Norte uma variabilidade interna natural multicentenária que surge da dinâmica intrínseca do oceano.

Esta variabilidade interna, a que se deu o nome de Circulação Meridional de Retorno do Atlântico (AMOC), é um sistema semelhante a uma correia transportadora que transporta águas superficiais quentes para o norte e devolve águas mais frias e densas para o sul em profundidade.
A AMOC pode afetar fortemente as temperaturas europeias
As variações na intensidade da AMOC podem afetar o transporte de calor, alterando os padrões climáticos em todo o Atlântico Norte e nos continentes adjacentes.
Um estudo recente, publicado na Nature Communications, pretende demonstrar a existência desse modo de variabilidade multissecular, AMOC, e quantificar a sua amplitude.
Assim esta investigação explorou o papel da variabilidade interna multissecular no Oceano Atlântico Norte e o seu potencial para amplificar as alterações climáticas regionais além do que os modelos atuais preveem.
Estes modelos permitiram separar a variabilidade interna das tendências climáticas forçadas externamente, destacando as flutuações autossustentadas do oceano como um modificador significativo da resposta climática regional.
As simulações sugeriram que as oscilações contínuas e futuras da AMOC podem influenciar fortemente a trajetória climática da Europa, modulando os impactos regionais do aquecimento global.
Enquanto as emissões de gases de efeito estufa causadas pelo homem continuam a elevar as temperaturas globais, a variabilidade interna incorporada no Atlântico Norte pode amplificar ou compensar esse aquecimento por longos períodos.
Explica-se assim que durante o século XX, as temperaturas europeias no verão tenham apresentado uma tendência de aquecimento durante os primeiros 40 anos seguida por uma tendência de arrefecimento até ao final da década de 1970.

Desde a década de 1980, a temperatura na Europa tem aumentado rapidamente, tornando-se o continente com o aquecimento mais rápido da Terra.
O estudo sugere ainda mecanismos complexos de retroalimentação que ligam a variabilidade oceânica às mudanças na circulação atmosférica.
As variações no conteúdo de calor do oceano e nos padrões de circulação afetam as distribuições da pressão ao nível do mar, as posições das correntes de jato e as trajetórias das tempestades, moldando diretamente os extremos climáticos e a variabilidade climática sazonal em toda a Europa.
Ações para o futuro
As conclusões do estudo têm implicações profundas para a previsão climática e a gestão de riscos na Europa.
As projeções climáticas convencionais muitas vezes realçam forças externas e variabilidade natural de curto prazo, ignorando muitas vezes modulações significativas causadas por flutuações oceânicas mais lentas.
Os autores do estudo alertam para a importância de preservar e expandir as redes de observação oceânica, com recurso também a boias oceânicas autónomas e altimetria por satélite.

Estas observações, incluem conjuntos de dados de longo prazo que capturam a força da AMOC, perfis de temperatura, salinidade e correntes oceânicas são essenciais para monitorizar o estado atual da variabilidade interna e validar modelos climáticos.
Esta investigação abre portas a outros estudos, pois compreender a variabilidade interna no Atlântico Norte oferece um modelo para explorar processos semelhantes noutras partes do oceano global. Flutuações multicentenárias existem potencialmente nos oceanos Pacífico, Índico e Antártico, que também influenciam os climas regionais e a circulação global.
Os cientistas envolvidos neste estudo também salientaram que essa variabilidade interna do Oceano Atlântico Norte não diminui a urgência de mitigar as emissões de gases de efeito estufa.
Este estudo é relevante pois destaca a AMOC como um potencial fator de aquecimento adicional da Europa nos próximos anos. No entanto é vital que existam colaborações interdisciplinares que unam oceanografia, ciência atmosférica e política climática.