Espelhos espaciais poderiam brilhar mais do que a lua cheia, e a comunidade científica está alarmada
A Reflect Orbital tem como objetivo captar a luz solar sempre que necessário, recorrendo a tecnologia espacial e terrestre. Um novo estudo pré-publicado sugere que os espelhos instalados em satélites poderão iluminar o céu noturno muito mais do que o previsto.

E se o céu noturno estivesse sempre iluminado pela lua? A Reflect Orbital, uma startup tecnológica da Califórnia, obteve a aprovação da Comissão Federal de Comunicações (FCC) para lançar um protótipo de satélite capaz de transmitir radiação solar à Terra, sempre que necessário. A solução assenta numa constelação de satélites em órbita, equipados com espelhos gigantes concebidos para refletir a luz solar para painéis solares gigantes instalados na Terra.
A Reflect Orbital pretende lançar uma rede de até 50 000 satélites equipados com espelhos até 2035, a fim de aproveitar melhor a radiação solar e reduzir a dependência dos combustíveis fósseis.
Brighter than the Moon: the impact of orbital mirrors
— Black Hole (@konstructivizm) August 15, 2026
Reflect Orbital plans to launch giant mirrors into orbit to reflect sunlight onto Earth at night. New modeling reveals that such illumination would drastically increase light pollution.
A single 54-meter satellite beaming pic.twitter.com/zJxIEChpil
"O problema é que a energia solar não está disponível quando realmente precisamos dela", afirmou Ben Nowack, diretor executivo da Reflect Orbital, na Conferência Internacional sobre Energia Espacial de 2024, realizada em Londres.
A nave espacial de teste, cujo lançamento está previsto para 2026, a Earendil-1, irá desdobrar um espelho com 18 metros 18 metros na órbita terrestre baixa. Irá projetar um feixe de luz solar refletida com cerca de 4,83 quilómetros de largura para a superfície da Terra. A Reflect Orbital compara o aumento da radiação solar noturna a um "brilho suave semelhante ao da lua".
A reação: investigação e preocupações ambientais
A aprovação concedida pela FCC à Reflect Orbital, em julho, para o lançamento do Earendil-1 foi alvo de uma onda de críticas por parte de astrónomos e especialistas em vida selvagem. A Sociedade Astronómica Americana (AAS) enviou uma carta à FCC a opor-se à concessão da licença.
By 2035, Reflect Orbital aims to launch up to 50,000 satellites equipped with mirrors to provide sunlight to Earth-based solar panels. Critics are concerned about impacts on wildlife, astronomy research and human health. https://t.co/LO6AuZp2RY
— Smithsonian Magazine (@SmithsonianMag) August 13, 2026
A AAS referiu preocupações relativamente ao aumento da poluição luminosa, ao risco de danos oculares para os astrónomos amadores e às distrações para os pilotos. Salientou ainda que os observatórios financiados pelo governo federal poderiam estar a desperdiçar recursos públicos, caso esses telescópios se tornassem ineficazes devido ao aumento da poluição luminosa.
Os especialistas em vida selvagem também manifestaram preocupações. A DarkSky International, que também se opõe à proposta da FCC, alertou que a luz artificial poderia introduzir um novo e poderoso fator de stress nos ecossistemas noturnos. Estudos anteriores demonstraram que mesmo níveis baixos de luz artificial introduzidos durante a noite perturbam os padrões de navegação, migração, alimentação e reprodução em centenas de espécies.
Novo estudo regista um brilho semelhante ao da lua cheia
O novo artigo, atualmente publicado no arXiv (um arquivo de pré-impressões de artigos académicos de acesso aberto), detalha um estudo realizado em colaboração entre a Academia Eslovaca de Ciências e o Departamento de Ciências Astrofísicas de Princeton. O estudo modelou o brilho do céu para observadores tanto dentro como fora da área iluminada.
Os resultados preliminares comparam o brilho ao da lua cheia. E, uma vez que os satélites se deslocam rapidamente no céu, o estudo afirma que seria necessária uma constelação de milhares de satélites para garantir uma iluminação constante. É de salientar que o estudo ainda não foi submetido a uma revisão por pares completa.