A Via Láctea caminha para uma nova e violenta fusão galáctica: aproxima-se o próximo "choque" cósmico
A Via Láctea apresenta vestígios de colisões antigas e volta a sofrer tensões gravitacionais que apontam para um novo encontro com outra galáxia massiva nas suas imediações.

A Via Láctea não é um sistema estático, embora, vista da Terra, possa ser percebida como uma faixa estável no céu noturno. A sua história é marcada por vários impactos anteriores que alteraram a sua forma e a sua dinâmica interna ao longo de milhares de milhões de anos.
O estudo da sua evolução permitiu reconstruir episódios que, embora não tenham deixado vestígios visíveis convencionais, deixaram, de facto, marcas no movimento e na composição das suas estrelas. Essa leitura do passado galáctico permite também antecipar as mudanças que virão no futuro.
Via Láctea: memória estelar de antigas fusões galácticas
Os grandes catálogos astronómicos têm vindo a transformar a análise do cosmos. O Sloan Digital Sky Survey abriu o acesso a dados em grande escala, e o telescópio Gaia levou esse trabalho a outro nível com o registo de quase 2 mil milhões de estrelas.
¿Sabías que, en unos 4.000 millones de años, la Galaxia de Andrómeda y la Vía Láctea chocarán? ¿Es tan terrible y apocalíptico como suena? pic.twitter.com/q1ILDbBfTH
— Álex Riveiro (@alex_riveiro) August 29, 2017
Esse volume de informação permitiu identificar algumas estrelas com trajetórias que não se enquadram no movimento habitual do disco galáctico. Trata-se de objetos que atravessam a galáxia com órbitas irregulares e padrões que não são comuns às estrelas locais.
A sua composição química reforça essa diferença. Apresentam menor abundância de elementos pesados, uma característica associada a sistemas galácticos de menor dimensão e evolução mais lenta, o que aponta para a sua origem fora da Via Láctea.
Gaia-Sausage-Enceladus e a transformação da Via Láctea
Um dos episódios mais relevantes identificados na história galáctica é Gaia-Sausage-Enceladus. Este sistema corresponde aos vestígios de uma galáxia absorvida pela Via Láctea há entre 8 000 e 11 000 milhões de anos.

O impacto deixou uma marca dinâmica clara no comportamento das estrelas. Parte do disco primitivo foi deslocada para o halo e foram incorporados novos aglomerados estelares provenientes da galáxia absorvida.
Além disso, estima-se que esse encontro possa ter alterado a orientação do disco galáctico em relação ao halo de matéria escura. Este componente invisível, mas dominante nas zonas externas, condiciona a gravidade total do sistema.
Matéria escura e cartografia da Via Láctea
A matéria escura continua a ser um dos grandes enigmas da astrofísica. Não emite luz, mas a sua influência gravitacional mantém as galáxias unidas e estrutura o seu movimento em grande escala.

Na Via Láctea, a sua distribuição pode ser estudada com maior precisão do que noutras galáxias, graças ao acompanhamento individual das estrelas. Isto permite estimar a sua forma, a sua densidade e o seu comportamento em diferentes zonas do sistema.
Os dados atuais sugerem que o halo de matéria escura não é uniforme. Apresenta irregularidades e deformações que podem estar relacionadas com fusões antigas e com a dinâmica interna da galáxia.
Grande Nuvem de Magalhães: a nova perturbação gravitacional
Após um longo período de relativa estabilidade, a Via Láctea volta a sofrer tensões externas. A Grande Nuvem de Magalhães, a sua companheira mais massiva, está a exercer uma forte atração gravitacional.
Esse efeito já está a alterar a estrutura do halo galáctico e a modificar o equilíbrio do sistema. O processo lembra, em menor escala, o que aconteceu em episódios de fusão anteriores.
O cenário atual aponta para uma interação prolongada que poderá redefinir a dinâmica de ambas as galáxias. Mais do que um acontecimento pontual, trata-se de um processo prolongado no tempo que já começou a fazer-se sentir nos seus movimentos.
Referência da notícia
The Conversation: The Milky Way was rewired by a cataclysmic collision billions of years ago. Now it is on course for another