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Vamos deixar o Mar Morto morrer?

As cíclicas oscilações climáticas que o planeta azul tem vivenciado desde a formação do seu manto protector, a atmosfera, têm (re)desenhado o seu rosto ao longo do tempo: aparecem e desaparecem espelhos de água, areais, a constante dinâmica da vida!

Mónica Barbosa Mónica Barbosa 04 Dez. 2018 - 11:09 UTC
Alimentado pelo rio Jordão, encontra-se numa posição geográfica que lhe garante apenas entre 50 (mais a sul) e 100mm (a norte) de precipitação anual.

Em África, no médio Oriente, existe um lago de água salgada, a mais de 400m abaixo do nível do mar, e com cerca de 1000 km2, que ladeia a Cisjordânia, a Jordânia e Israel. A sua mais relevante particularidade, para além da temperatura elevada (varia entre os 19 ºC e os 37 ⁰C), de ser um ambiente hostil para a proliferação da vida animal dado o seu elevado teor de salinidade (cerca de 1,240kg/Lt, o que propicia uma incrível sensação de flutuação), é cerca de dez vezes mais salgado do que a água do mar, detendo propriedade medicinais / balsâmicas (benéficas para o tratamento de doenças de pele e reumatismo) e por isso foi um dos primeiros resorts de saúde do mundo, já na época de Herodes.

Numa zona de placas transformantes, a falha do Mar Morto liga a dorsal do Mar Vermelho à Cordilheira de Zagros, uma bacia situada no vale do rio Jordão, que por ser um região de subsidência, ao longo dos tempos, à mercê das variações climáticas, foi repetidamente inundada pelas águas do Mediterrâneo, que foram depositando camadas de sal (chegam a atingir cerca de 3km de espessura!), mas há cerca de dois milhões de anos atrás, o território entre o Vale do Rift e o Mar Mediterrâneo sofreu uma transformação tectónica que o defendeu das cíclicas inundações, transformando-se num lago.

Pela sua volatilidade, sujeito a um cenário meteorológico de particular vulnerabilidade (reduzidos níveis de precipitação), a vida do Mar Morto tem vindo a aproximar-se da sua morte, considerando que para isso acresce o facto de, a partir da década de 60 do século passado, fruto de práticas agrícolas que implicam irrigação intensiva, (assim como, padrões de vida opulentos com piscinas e extensos relvados em pleno deserto!) a alimentação do mar Morto pelo rio Jordão, foi sendo drasticamente reduzida, traduzindo-se num recuo da linha de margem de cerca de um metro e meio por ano, o que alterou profundamente a paisagem, nomeadamente pelo aparecimento de enorme crateras.

Foi em finais da década de 80 do século XX, que se registaram as primeiras crateras, contando-se actualmente mais de seis mil!

Mas afinal o que está a acontecer na região do Mar Morto?

O motivo para estas ocorrências, está directamente relacionado com a poderosa indústria da extração mineral, nomeadamente potássio, cálcio e magnésio, praticada na região. Desta actividade são retirados enormes volumes de água que é depositada em piscinas, para que possa evaporar e deixar visível o que interessa comercializar, restando áreas de terra salinizada, por isso infértil, as quais, quando dissolvidas pela água doce se tornam instáveis e colapsam

Até à presente data, pelo menos duas praias e uma unidade hoteleira (resort) desapareceram em Israel, assim como partes de uma estruturante via de comunicação, a estrada 90 (cerca de 500km que unem o Líbano ao Egipto) que teve literalmente engolidas partes do seu percurso.

Um cenário preocupante?

Certamente! E de tal modo, que se encontram em desenvolvimento projectos como a dessalinização de parte da água do mar Vermelho, tornando-a potável e diminuindo assim a pressão exploratória sobre o rio Jordão, assim como, a perigosa ideia (por ir alterar a composição química do mar morto) do bombeamento de parte da água do Mar Vermelho para colmatar a escassez no Mar Morto, por forma a diminuir o ritmo de evaporação que aí se tem feito sentir, consequência directa das alterações nos padrões climáticos que o planeta (de modo particularmente acelerado) tem vindo a vivenciar nos últimos anos.

Independentemente dos efeitos almejados, tratam-se de projectos megalómanos dado o montante de custos de obras estimados, e com preocupante risco biológico… Uma situação particularmente delicada, aditando a esta equação as tensões político-administrativas vivenciadas nos territórios pelas nações que envolvem o Mar Morto. Não é fácil, mas certamente não será impossível, para um primeiro passo, basta um impulso!

Considerar ainda ser previsível, um aumento entre 5 ºC e 11 ºC na temperatura desta região, e uma consequente redução de precipitação na ordem dos 30%. É por isso vaticinado o seu desaparecimento, até ao ano de 2050! Mas estamos sempre a tempo de agir, desde que, em prol não de interesses politico-financeiros, mas em defesa do bioma!

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