Tempestades de inverno estão 36% mais intensas no sul da Península Ibérica
Estudo da World Weather Attribution adverte para invernos mais húmidos e episódios de chuva mais intensa em Portugal.

As recentes tempestades em Portugal, Espanha e Marrocos, entre janeiro e fevereiro, não foram excecionais. A análise da World Weather Attribution (WWA) mostra que estes eventos se inserem numa tendência de agravamento dos episódios de precipitação extrema nos invernos das últimas décadas.
O estudo avaliou a precipitação máxima acumulada num só dia (Rx1day, na sigla formal) em duas áreas particularmente afetadas pelas intempéries: Norte de Portugal/Noroeste de Espanha e Sul de Portugal/Sudoeste de Espanha, incluindo ainda o Norte de Marrocos.
De acordo com os investigadores, as conclusões do estudo confirmam que o aquecimento da atmosfera provocado pelas emissões coletivas de carbono está a conduzir a um padrão de chuvas mais intensas.

Ao ligar os dados observacionais às simulações de modelos climáticos, os investigadores estimaram um aumento “combinado” de 11% na intensidade dos eventos extremos na região norte, valor considerado consistente com a influência das mudanças climáticas induzidas pela atividade humana.
Os autores do relatório advertem que o risco cresce à medida que comunidades e infraestruturas permanecem expostas, sobretudo em zonas inundáveis e em territórios onde o ordenamento não salvaguarda o risco climático.
Ainda que sistemas de aviso e medidas preventivas tenham mitigado impactos em alguns casos, a tendência de intensificação aumenta a probabilidade de danos severos.
O aumento da humidade e as depressões do inverno
Para os investigadores da WWA, as mudanças do clima tiveram uma relação direta com as chuvas que atingiram a Península Ibérica e Marrocos no início de 2026, matando mais de 50 pessoas e obrigando milhares de pessoas a se deslocarem.
Essa mudança pode trazer várias consequências, como foi o caso do comboio de depressões Kristin, Leonardo e Marta que, em Portugal, fez 18 vítimas mortais, centenas de feridos e desalojados.
A tempestade Kristin teve impactos particularmente severos, relembra o relatório da World Weather Attribution. Registaram-se seis mortes, ventos até 202 km/h, cortes de energia, que afetaram cerca de um milhão de pessoas no pico da tempestade, e danos estruturais por todo o território, levando o Governo a anunciar um pacote de 3,5 mil milhões de euros para apoiar a reconstrução.

O estudo da WWA, para a Greenpeace Portugal, deve ser encarado como um alarme que reforça a urgência de uma resposta política e estrutural.
Adaptação, prevenção e proteção das populações mais expostas a riscos climáticos são as prioridades diante de uma realidade que não pode ser mais ignorada.
Cinco propostas da Greenpeace |
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Reduzir rapidamente as emissões e acelerar a transição energética |
Criar plano de adaptação com execução real, que não esteja dependente apenas da resposta de emergência |
Travar nova ocupação de zonas de risco e reduzir a exposição em áreas inundáveis |
Investir em infraestruturas mais resilientes, incluindo sistemas de drenagem e proteção contra cheias |
Reforçar a capacidade dos órgãos locais e melhorar a articulação entre níveis municipal e nacional em sistemas de aviso, resposta e recuperação |
O país deve responder com medidas concretas, calendário e financiamento assentes em dois pilares inseparáveis: mitigação e adaptação. A abordagem não poderá continuar a limitar-se a reagir quando o pior já aconteceu, remata a organização ambiental.
Referência da notícia
Increasingly severe rainstorms put people and structures built on floodplains at risk (análise sumária). World Weather Attribution.
Increasingly severe rainstorms put people and structures built on floodplains at risk (relatório científico). World Weather Attribution.
Greenpeace Portugal reage à análise do World Weather Attribution: chuvas extremas estão a intensificar-se e Portugal tem de agir já. Greenpeace Portugal