Tartaruga que viveu décadas com tubarões na Irlanda reaprende a nadar em liberdade no Zoomarine Algarve
Após uma complexa operação logística, Molly iniciou um treino rigoroso no aquário de Albufeira para recuperar os instintos selvagens que lhe permitirão regressar ao oceano.

Molly, nativa das águas da Flórida, nos Estados Unidos, é a mais recente hóspede do Zoomarine de Albufeira. Pesa 120 kg e passou os últimos 22 anos a viver num tanque de tubarões no Dingle Oceanworld Aquarium, no condado de Kerry, sudoeste da Irlanda.
As suas barbatanas, parcialmente amputadas, contam uma história de sobrevivência que marcaram esta tartaruga Caretta caretta para sempre. Foi vítima de um ataque de tubarão no Golfo do México. Gravemente ferida e incapaz de vencer a corrente oceânica, acabou resgatada nas águas frias da costa irlandesa.
E esta parecia ser a sua casa definitiva, pois a equipa de tratadores locais estava plenamente convencida de que a libertação, após tanto tempo de cativeiro, seria impensável.
Uma libertação internacionalmente conhecida
Os investigadores portugueses, no entanto, desconfiam que Molly poderá ultrapassar todos os obstáculos e voltar ao oceano, sabendo que este não seria um caso único. O parque temático do Algarve concluiu com sucesso, em 2009, uma missão pioneira realizada com Cat. Mesmo com uma barbatana amputada, essa fêmea foi uma das três tartarugas monitorizadas que percorreu a maior distância para desovar na Mauritânia.
A esperança que o Zoomarine trouxe ao demonstrar a autonomia de Cat levou os responsáveis irlandeses a tentar a mesma sorte com esta nova paciente. Molly despediu-se do Oceanworld há algumas semanas. Chegou a Portugal a meio do mês, numa operação logística complexa que incluiu seis horas de transporte terrestre e mais três horas de voo a bordo da TAP.

Ao final de uma cansativa jornada, a tartaruga entrou finalmente no Porto d’Abrigo já de madrugada. Uma comitiva de especialistas aguardava a sua chegada e encaminhou-a rapidamente para o tanque de transição, onde se encontra atualmente em fase de aclimatização.
O desafio de reaprender a sobreviver no mar-alto
Tanto Molly como os biólogos e veterinários do centro de reabilitação de espécies marinhas têm pela frente um longo percurso para a readaptar à vida selvagem.
É preciso não esquecer que Molly é uma criatura que já viveu em ambiente natural. Enfrentou mares agitados e teve de caçar ativamente para se alimentar. Durante mais de duas décadas, porém, teve uma rotina facilitada e foi perdendo as habilidades essenciais para a vida em mar aberto.
A equipa do Porto d’Abrigo desenhou agora um plano específico focado em estimular três aptidões vitais. Desde logo, a paciente irá reaprender a identificar e capturar presas vivas.
Molly terá, por fim, de recuperar a sua capacidade de navegação em mar aberto, reativando o seu sentido de orientação, um autêntico "GPS biológico" multifatorial, que combina leitura de forças físicas e pistas ambientais à medida que cruza as correntes marítimas.

O seu regresso definitivo ao mar não tem uma data marcada e dependerá exclusivamente do seu ritmo de aprendizagem. A única certeza é que só será libertada quando os cientistas confirmarem que a tartaruga detém todas as condições clínicas e comportamentais para ser totalmente autossuficiente. Só então poderá voltar ao oceano, a sua primeira e verdadeira casa.
Referência da notícia
Molly percorreu milhares de quilómetros até chegar ao Porto d'Abrigo. Zoomarine Algarve
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