Seca no Tejo pode agravar-se em 2028, mas centros de dados em Abrantes gastariam 22 milhões de litros/dia
Duas infraestruturas digitais de grande escala geram incerteza quanto à preservação dos recursos naturais, numa região que já enfrenta escassez de água.

A instalação de dois megacentros de dados em Abrantes colocou o município no centro de um debate que questiona o desenvolvimento tecnológico e a segurança ambiental.
O volume exato de água dependerá da tecnologia de arrefecimento adotada. Mas a pressão sobre os recursos hídricos surge num momento crítico para a região.
Escassez hídrica vai intensificar-se
A Agência Portuguesa do Ambiente (APA) antecipa um agravamento da escassez hídrica na bacia do Tejo entre 2028 e 2033, coincidindo exatamente com a entrada em pleno funcionamento de ambos os empreendimentos.
Diante desta possibilidade, as associações Quercus e proTEJO exigem que os projetos não sejam licenciados de forma isolada, mas sim através de um Estudo de Impacte Ambiental (EIA) cumulativo que avalie o impacto conjunto no território, incluindo o consumo elétrico, o ruído, a ocupação do solo e a criação de ilhas de calor.
Duas infraestruturas, uma pressão comum
Os empreendimentos pertencem à EDC One e à Hyperion II Renewables Services. O primeiro está previsto para o Pego e representa um investimento anunciado de 7 mil milhões de euros. A entrada em funcionamento está prevista para 2028. O projeto deverá criar 450 postos de trabalho diretos e 700 indiretos até 2030.
O segundo, da Hyperion, está previsto para a zona de Alvega. O pedido de informação prévia recebeu parecer favorável da câmara municipal em maio e prevê uma área de cerca de 15 hectares. O arranque está apontado para 2029.
| O que está em causa | Estimativa para os dois projetos |
|---|---|
| Consumo de água | 3,6 a 22,2 milhões de litros por dia |
| Potência combinada | 500 MW |
| Consumo elétrico máximo | 4.380 GWh por ano |
| Entrada prevista da EDC One | 2028 |
| Entrada prevista da da Hyperion | 2029 |
| Fonte: proTEJO | |
Os valores relativos à água são cálculos apresentados pelo movimento proTEJO e dependem do sistema de refrigeração. O movimento salienta que os promotores ainda não divulgaram qual a tecnologia prevista nem o respetivo consumo.
O proTEJO projeta que o teto máximo de consumo elétrico dos dois empreendimentos chegue a 4.380 GWh anuais — o equivalente a cerca de 29 vezes a eletricidade consumida no concelho de Abrantes. O movimento ressalva, contudo, que este número reflete uma estimativa de plena capacidade e não uma previsão de consumo contínuo.
A água que arrefece a inteligência artificial
Um centro de dados consiste, fundamentalmente, numa infraestrutura de computação em grande escala, em que o processamento contínuo dos servidores gera elevados níveis de calor, que exigem refrigeração constante para garantir a segurança dos equipamentos.

É aqui que a expansão da inteligência artificial generativa muda as regras do jogo. Ao requerer capacidade computacional massiva, tanto no treino como na utilização diária dos modelos, a tecnologia exige uma maior densidade de servidores. O efeito imediato é a explosão da procura por sistemas de arrefecimento.
O problema não é exclusivo de Portugal, mas sim global. De acordo com projeções do Greenpeace, os centros de dados em todo o mundo consumiram cerca de 175 mil milhões de litros de água em 2023, um volume que deverá quase quadruplicar para 664 mil milhões em 2030. A organização ambiental salienta, contudo, que os valores variam consoante o tipo de infraestrutura e as tecnologias de refrigeração adotadas.
O relatório Water Atlas 2025, da Fundação Heinrich Böll, utiliza outro indicador para ilustrar a escala. Segundo as estimativas citadas pela publicação, 20 a 50 respostas do ChatGPT podem implicar cerca de meio litro de água associada ao arrefecimento dos centros de dados. O valor é uma estimativa média e não corresponde à água consumida diretamente por cada utilizador.
O problema não é só a água
A pressão sobre o território, porém, vai além dos recursos hídricos. A Quercus alerta para as consequências no uso do solo, com potenciais repercussões em áreas agrícolas e florestais, além do ruído e das alterações na paisagem. A isto soma-se o desafio da infraestrutura elétrica.
Ambos os projetos partilham o mesmo ponto de ligação na Central do Pego, com os pedidos de reforço de capacidade ainda em avaliação. A magnitude desta procura demonstra, portanto, que os centros de dados ultrapassaram a esfera puramente tecnológica, assumindo-se como uma prioridade de ordenamento energético e do território.

Portugal, ao mesmo tempo, posiciona-se para atrair estes investimentos. O Plano Nacional de Centros de Dados, aprovado em 2026, assume estas infraestruturas como estratégicas para a economia e para a soberania digital.
O programa estabelece 15 iniciativas para facilitar a expansão do setor, procurando equilibrar o desenvolvimento tecnológico, as exigências de sustentabilidade ambiental, a eficiência energética e o ordenamento do território.
Crescer, mas com contas feitas
É precisamente nessa tensão que se encontra a questão de Abrantes. Os centros de dados podem trazer investimento, emprego e capacidade computacional num momento em que Portugal quer afirmar-se como destino europeu para estas infraestruturas. Mas os benefícios económicos não eliminam a necessidade de calcular os custos ambientais.
A discussão, no fundo, não é apenas sobre avaliar se Abrantes deve receber centros de dados. É determinar também quanto de água e energia o território pode disponibilizar para os alimentar, sobretudo quando a própria bacia hidrográfica se prepara para enfrentar anos de maior pressão.
Referências da notícia
Quercus. Dois mega centros de dados em Abrantes poderão ultrapassar em quase 30 vezes o consumo energético anual do concelho.
Tinta Fresca. proTEJO exige lei para impedir que centros de dados sequem o rio Tejo.
digitalGOV. Plano Nacional de Centros de Dados / 2026.
Fundação Heinrich Böll. Water Atlas 2025.
Greenpeace. Environmental Impacts of Artificial Intelligence.