O Sado entrou dentro de Alcácer do Sal e deixou a baixa da cidade debaixo de água

Os botes foram esta manhã a única forma de navegar pelas ruas de Alcácer do Sal. A tempestade Leonardo provocou ainda inundações em vários pontos do Centro e Sul do país.

A tempestade Leonardo trouxe nesta quarta e quinta-feira uma noite e madrugada atormentadas para as populações do Centro e Sul de Portugal. Sem surpresas, os rios em vários pontos do país transbordaram. Mas foi em Alcácer do Sal, no distrito de Setúbal, que as piores previsões se confirmaram.

A cidade de Alcácer do Sal inundada, esta manhã. Foto: reprodução de Facebook/José Fura
A cidade de Alcácer do Sal inundada, esta manhã. Foto: reprodução de Facebook/José Fura

A marginal, hoje, estava completamente inundada e, para circular na baixa, só navegando de semirrígidos, que foram sendo fornecidos pela Marinha para ajudar as autoridades a retirar a população das zonas mais críticas.

Os que se aventuraram a andar a pé, depararam-se com água pela cintura e tiveram de caminhar agarrados às paredes para não serem arrastados pela força das correntes.

A zona ribeirinha de Alcácer do Sal ficou totalmente alagada. Foto: reprodução de Facebook/José Fura
A zona ribeirinha de Alcácer do Sal ficou totalmente alagada. Foto: reprodução de Facebook/José Fura

O rio galgou a margem e inundou o Largo Luís de Camões. O comércio está alagado. Restaurantes, cafés, boutiques de roupa e salões de beleza, entre outros estabelecimentos, ficaram total ou parcialmente submersos. Mesas, cadeiras e eletrodomésticos foram sendo levados pela força das águas.

Mais de 140 pessoas foram retiradas das suas casas por prevenção durante a noite de quarta, em Alcácer do Sal. Foto: Reprodução de Facebook/ Colete Encarnado VFX
Mais de 140 pessoas foram retiradas das suas casas por prevenção durante a noite de quarta, em Alcácer do Sal. Foto: Reprodução de Facebook/ Colete Encarnado VFX

Segundo a Proteção Civil Municipal de Alcácer do Sal, os botes da Marinha retiraram ao longo da noite de ontem um total de 143 pessoas das suas casas devido a inundações, 62 das quais já tinham sido, entretanto, realojadas.

Inundações no Centro-Sul

As cheias em Alcácer do Sal são, nesta altura, consideradas as mais graves registadas em todo o território e que maior atenção exige das autoridades. Mas a chuvas que a depressão Leonardo trouxe nas últimas horas está a causar inúmeros transtornos em várias regiões do país.

O temporal da última noite provocou danos elevados em Portalegre. A zona mais afetada é a Avenida de Santo António, que, ao início desta tarde estava, ainda intransitável. A chuva e o vento provocaram uma enxurrada de pedras e lama que arrastou dezenas de viaturas.

Várias zonas ribeirinhas da vila de Alcoutim, no Algarve, estão também inundadas devido ao aumento do caudal do Guadiana. O nível das águas subiu cerca de seis metros, segundo a Proteção Civil Municipal, alagando quiosques e restaurantes que estão junto ao rio.

A elevação deve-se em grande parte às descargas realizadas no Alqueva, mas as chuvas intensas estão também a contribuir para persistência de caudais e afluentes elevados.

O Guadiana subiu entre seis e sete metros, provocando inundações em Alcoutim, que esta manhã estava parcialmente alagada. Foto: reprodução de Facebook/ Vítor Teixeira
O Guadiana subiu entre seis e sete metros, provocando inundações em Alcoutim, que esta manhã estava parcialmente alagada. Foto: reprodução de Facebook/ Vítor Teixeira

Várias zonas rurais de Leiria estão igualmente inundadas, estando os meios da autarquia concentrados nas cheias depois de o concelho ter sido severamente afetado pela passagem da depressão Kristin, na semana passada. Durante esta manhã, a proteção civil procedeu à retirada de algumas populações ribeirinhas, tendo interditado a circulação em diversas vias na sequência de transbordos nos rios Lis e Lena.

O rasto da tempestade na região de Lisboa

A Região de Lisboa e Vale do Tejo também não escapou ilesa à subida do caudal dos rios. Em Torres Vedras, o rio Sizandro, que atravessa a cidade, galgou as margens perto do Estádio do Torreense e nas freguesias de Dois Portos e Ponte do Rol, obrigando por prevenção a retirar 12 pessoas das habitações e ao encerramento de todas as escolas.

Mais de meia dúzia de habitações ficaram também com danos avultados e correm risco de ruir no concelho de Arruda dos Vinhos, tendo 12 moradores ficado desalojados.

Na Lourinhã, o rio Grande, que atravessa o concelho, não galgou as margens, mas encheu de água as ruas do centro da vila e no Vimeiro. A inundação obrigou a cortar vários acessos no município e a encerrar todas as escolas e o centro de saúde como medida de segurança.

O centro da vila de Lourinhã, esta manhã. Foto: reprodução de Facebook/Município da Lourinhã
O centro da vila de Lourinhã, esta manhã. Foto: reprodução de Facebook/Município da Lourinhã

O galgamento do rio Tejo causou ainda inundações junto às zonas ribeirinhas de Alhandra e Vila Franca de Xira, ainda distrito de Lisboa, levando esta manhã à suspensão da Linha ferroviária do Norte, entre Castanheira e Alverca.

Caudais elevados exigem vigilância

Esta quinta-feira é decisiva para os rios Sado, Tejo, Mondego e Vouga. Mas há também outros cursos fluviais que estão sob vigilância, como são os casos de Águeda, Lis, Sorraia, Lima, Guadiana, Cávado, Ave, Douro e Tâmega.

As bacias hidrográficas de grande parte do país apresentam caudais elevados, que ainda podem levar, nesta quinta-feira, à ocorrência de mais cheias. Não existe uma barragem que não esteja no limite e até a da Bravura, no Algarve, que nos últimos dez anos não passou dos 15% de capacidade, estava, hoje, a 96% e a fazer descargas de superfície.

Aviso laranja em 10 distritos

A chuva e aguaceiros persistentes esperados nas próximas horas, sobretudo nas regiões Centro e Sul, levou a Proteção Civil a manter o nível máximo de prontidão, pelo menos até amanhã, sexta-feira.

Dez distritos de Portugal continental, a costa Norte da Madeira e o Porto Santo estão sob aviso laranja — o segundo mais grave — por causa da agitação marítima.

O rio Sizandro, em Torres Vedras, galgou as margens, inundando habitações, lojas e estradas ribeirinhas. Foto: reprodução de Facebook/Rita Moreira
O rio Sizandro, em Torres Vedras, galgou as margens, inundando habitações, lojas e estradas ribeirinhas. Foto: reprodução de Facebook/Rita Moreira

De acordo com o IPMA, estão sob aviso laranja até às 5h de domingo os distritos de Viana do Castelo, Braga, Porto, Aveiro, Coimbra, Leiria, Lisboa, Setúbal, Beja e Faro, enquanto na costa Norte da Madeira e no Porto Santo o aviso vigora até às 15h de sexta-feira.

Também sob aviso laranja, mas por causa da neve, estão os distritos de Castelo Branco e Guarda, até às 5h de domingo. A estes juntam-se os de Viana do Castelo, Vila Real e Braga, entre as 12h de sexta-feira e as 6h de sábado.