Jovens agricultores apelam ao Primeiro-Ministro: a agricultura e os territórios rurais estão “no fio da navalha”
Guerras, alterações climáticas, economias frágeis e outras dificuldades extremas estão a colocar a agricultura e os territórios rurais no “fio da navalha”, avisa a Associação de Jovens Agricultores de Portugal (AJAP), que apela ao Primeiro-Ministro para “intervir mais ativamente”, com “medidas concretas e urgentes”.

A instabilidade mundial provocada por medidas “políticas completamente desajustadas”, está a provocar o “caos” em todos os continentes e blocos de países, alerta a AJAP, através de um comunicado divulgado nesta quarta-feira.
Por outro lado, as alterações climáticas vão “dando cada vez mais sinais”, com os períodos de seca a revelarem-se cada vez mais severos e duradouros e os incêndios, tempestades e as cheias a assolarem cada vez mais frequentemente os territórios.
E as consequências estão à vista. “O que não gastamos na prevenção, acabamos por gastar muito mais para indemnizar os prejuízos”, tentando minimizar a força incontrolável da natureza ao invés de trabalhar a montante no campo da prevenção.
A AJAP assume que a Europa está “refém dela própria e pouco pode fazer, a não ser correr atrás do prejuízo e preparar-se (gastando obviamente muito dinheiro) para fazer o que devia ter feito há muitos anos”.
A Associação dos Jovens Agricultores aponta casos concretos, dizendo, por exemplo, que “a agricultura, a criação de gado, a floresta e a agroindústria já há muitos anos (décadas mesmo), que deixaram de ser prioritárias” em Portugal.
Agricultura: uma Secretaria de Estado?
“Se recuarmos pouco mais de três décadas, o Ministério da Agricultura, das Florestas e do Desenvolvimento Rural, ocupava o sexto lugar na hierarquia do Governo, mas, por este andar, ainda vamos ver este setor produtivo, crucial para o país, como uma Secretaria de Estado da Economia e da Coesão”, alerta a AJAP.

Outro exemplo de inação é o PRR – Plano de Recuperação e Resiliência, um instrumento de apoio com fundos europeus que, na opinião da AJAP, “ficou muito aquém das expectativas e necessidades do setor agrícola, pecuário e florestal”, que foi “muito pouco apoiado por estes fundos”.
E os poucos que foram disponibilizados foram destinados a “reequipar e melhorar infraestruturas do Estado, quando os agricultores tanto necessitavam deles para se modernizarem e serem mais competitivos”, acusa a mesma associação, a que preside Henrique Silvestre Ferreira.
É que “os agricultores são sempre o elo mais fraco da cadeia, são sempre os mais prejudicados no preço que recebem por tudo o que produzem” e a grande distribuição, acusa a AJAP, “tomou conta disto tudo”.
"Desânimo, abandono e despovoamento"
Este é o panorama que temos em cima da mesa e que “é muito real” e “causa desânimo, abandono e despovoamento nos campos”, o que é “claramente um cenário pouco aliciante para atrair jovens”.

E os agricultores que permanecem, aqueles que “teimosamente resistem”, esses “estão reféns dos problemas complexos como catástrofes climáticas, desprezo político, preços baixos pagos pelas suas produções, custos elevados dos fatores de produção”, entre outros. Com a agravante de que, quando se avizinham cortes nos apoios do Orçamento de Estado ou da União Europeia, são “sempre o elo mais fraco”.
“Se recuarmos aos incêndios (há sete meses), sabemos que para muitos ainda não lhes foi restabelecido o potencial produtivo. Relativamente às cheias onde os prejuízos são bem mais avultados, o cenário infelizmente não vai ter a celeridade que os lesados necessitam”, lamenta a Associação dos Jovens Agricultores.
E, “para agravar tudo isto”, a guerra (Irão) e as “subidas brutais” do preço dos combustíveis vão “acarretar muitas outras subidas” nos vários fatores de produção para a agricultura e pecuária, inclusive no preço a pagar pelos consumidores.
Falta apoio ao investimento agrícola
A AJAP lança a pergunta: “Quem se está a aproveitar?”. E ainda pergunta: "Vão continuar a fazê-lo à custa das dificuldades dos agricultores e dos consumidores em geral?”
Há, para além disso, um outro problema. Se, para a instalação de jovens agricultores, as candidaturas à apresentação de projetos - que estiveram abertas desde 28 de novembro de 2024 até 30 de dezembro de 2025 - até “estão a ter um índice positivo nas decisões de aprovação”, já no que respeita aos agricultores em atividade, a dotação para o investimento, prevista na Medida C-2.1.1. – «Investimento Produtivo Agrícola – Modernização – Explorações Agrícolas», que abriu a 28 de agosto de 2025, revelou-se “insuficiente para fazer face às expectativas dos agricultores”.
A AJAP – Associação dos Jovens Agricultores de Portugal alerta para estas situações e lança um repto ao Primeiro-Ministro: há uma "necessidade urgente" de reavaliar a dotação para o investimento, que é “uma medida âncora do investimento às explorações agrícolas”.