ICNF vai formar 500 profissionais para travar pragas que ameaçam a floresta portuguesa
Técnicos, sapadores e proprietários vão aprender a detetar doenças e insetos invasores que estão a fragilizar pinhais, montados e soutos em várias regiões do país.

O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) vai formar 500 profissionais para reforçar a capacidade de resposta às pragas e doenças que estão a fragilizar a floresta portuguesa.
A iniciativa surge num momento em que os organismos invasores representam uma ameaça crescente para espécies como o pinheiro, o sobreiro, a azinheira, o eucalipto e o castanheiro. O impacto vai muito além da degradação ambiental, com vários estudos científicos a apontar para prejuízos económicos elevados, perda de produtividade e maior vulnerabilidade dos ecossistemas.

Um dos exemplos mais expressivos está relacionado ao gorgulho-do-eucalipto. Uma investigação publicada na revista Forest Ecology and Management estimou, por exemplo, que esta praga provocou perdas acumuladas de 648 milhões de euros em madeira ao longo de duas décadas em Portugal. Sem medidas de controlo biológico, alertam os autores, os danos poderiam ter sido até 11 vezes superiores.
Também o castanheiro enfrenta uma pressão crescente. O cancro do castanheiro e a doença da tinta têm afetado soutos em várias regiões do interior, comprometendo uma atividade com forte peso económico local. Além da produção de fruto e madeira, estas áreas sustentam atividades complementares como a caça, o turismo de natureza e a recolha de cogumelos.
Vigilância no terreno para travar novas infestações
Ao longo de 30 horas de formação, os participantes nas formações dinamizadas pelo ICNF vão aprender a reconhecer sintomas precoces, instalar armadilhas biológicas, recolher amostras e aplicar medidas de prevenção e contenção. O plano combina sessões teóricas online com exercícios práticos realizados nas áreas florestais.
Os participantes vão treinar técnicas de monitorização e de identificação de sinais associados à presença deste organismo e dos insetos vetores responsáveis pela sua disseminação.
Nos montados, a formação aborda o declínio do sobreiro e da azinheira, incluindo a deteção da bactéria Xylella fastidiosa e de insetos perfuradores que enfraquecem as árvores. Já nos eucaliptais, os módulos dedicam-se aos principais desfolhadores e perfuradores que têm provocado perdas significativas na produção.

As ações práticas incluem ainda simulações de comunicação de focos suspeitos e demonstrações de eliminação de material contaminado, numa tentativa de acelerar a resposta local perante novos surtos.
Alterações climáticas agravam pressão sobre a floresta
O ICNF enquadra o programa no reforço da vigilância fitossanitária nacional, numa altura em que as alterações climáticas, o comércio marítimo e a circulação internacional de plantas aumentam o risco de propagação de organismos nocivos.
Vários estudos apontam para uma intensificação destes fenómenos nas últimas décadas. Investigadores portugueses têm alertado para o impacto crescente das pragas na sustentabilidade da floresta nacional, associando a expansão de doenças e insetos invasores ao aumento das temperaturas e aos períodos prolongados de seca.
Além dos prejuízos económicos diretos, as árvores debilitadas tornam-se mais suscetíveis a incêndios, perdendo a capacidade de regeneração e de captura de carbono. Os danos provocados por pragas afetam não apenas a produção florestal, mas também a saúde pública e o valor recreativo das áreas naturais.

O plano nacional coordenado pelo ICNF envolve ainda o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV), a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV), o RAIZ – Instituto de Investigação da Floresta e Papel – e o Instituto Politécnico de Bragança.
A meta passa por criar uma rede técnica mais preparada para identificar rapidamente sinais de infestação e reduzir a propagação de doenças antes que os impactos se tornem irreversíveis.
Referências do artigo
Identificação Precoce, Prevenção e Reação Adequada a Riscos Bióticos na Floresta (programa e plano de formação). Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas
Maria Rosa Santos de Paiva. Economic assessment of managing processionary moth in pine forests: A case-study in Portugal. Journal of Environmental Management
Carlos Valente, Catarina I. Gonçalves, Fernanda Monteiro, João Gaspar, Margarida Silva, Miguel Sottomayor, Maria Rosa Paiva & Manuela Branco. Economic Outcome of Classical Biological Control: A Case Study on the Eucalyptus Snout Beetle, Gonipterus platensis, and Parasitoid Anaphes nitens. Ecological Economics
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