Governo cria reserva marinha D. Carlos, uma das maiores da UE. O processo fica em consulta pública até 6 de março
Estão reunidas condições técnicas e científicas para a criação de uma nova reserva natural marinha, que inclui o conjunto de montes submarinos abrangidos pelo complexo Madeira-Tore e Banco de Gorringe. Terá uma extensão de cerca de 173 mil km2, quase duas vezes a área de território emerso de Portugal.

D. Carlos, fundador da oceanografia em Portugal e cuja investigação pioneira abrangeu o mar profundo, vai emprestar o nome àquela que será a futura reserva natural marinha que deverá incluir o conjunto de montes submarinos abrangidos pelo complexo Madeira-Tore e Banco de Gorringe. Visa proteger a biodiversidade e contribuir para uma gestão mais sustentável do oceano.
Esta nova reserva marinha, que será uma das maiores da União Europeia (UE), terá uma extensão de cerca de 173 mil km², quase duas vezes a área de território emerso de Portugal, revela o Governo, através de um comunicado difundido nesta terça-feira, 20 de janeiro.
“Em resposta ao Despacho n.º 12518/2025, de 24 de outubro, da ministra do Ambiente e Energia e do ministro da Agricultura e Mar, e no prazo previsto, foram entregues ao Governo os elementos que fundamentam o processo de classificação, reunindo o melhor conhecimento disponível sobre esta área marinha”, avança o Governo.
O relatório científico deste processo foi elaborado pela Direção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos (DGRM), Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), Instituto Português do Mar e Atmosfera (IPMA), Instituto Hidrográfico (IH), Estrutura de Missão para Extensão da Plataforma Continental (EMEPC) e Direção Regional do Ambiente e Mar do Governo Regional da Madeira (DRAM-GRM).
Necessidade de proteger zona oceânica
De acordo com o comunicado emitido pelo Executivo, a fundamentação científica reflete “um forte consenso sobre a necessidade de proteger esta notável zona oceânica”.
O Governo garante que “será reforçada a proteção e classificação do Banco de Gorringe enquanto Zona Especial de Conservação (ZEC), por via da aprovação do Plano de Gestão que também é agora sujeito a consulta pública”. E estão também garantidas “medidas com vista à melhoria do seu estado ecológico e redução das pressões que existem sobre os recursos marinhos”.

A nova reserva marinha integra alguns dos mais relevantes montes e bancos submarinos do Atlântico Nordeste, incluindo também o Monte Josephine, o Monte Seine, o Banco Coral Patch e o Monte Ampère, que são reconhecidos pela sua elevada produtividade e importância para espécies vulneráveis, migratórias e de elevado valor ecológico.
Múltiplas campanhas oceanográficas
“Este processo teve por base o melhor conhecimento disponível, refletindo os resultados de múltiplas campanhas oceanográficas nacionais e internacionais, no âmbito de projetos de investigação dedicados aos ecossistemas marinhos envolvendo diversas instituições públicas e privadas, bem como universidades e centros de investigação”, diz o Governo, em comunicado.
Na área a proteger “está amplamente confirmada a existência de ecossistemas de grande valor ecológico e altamente vulneráveis”.

Aí se incluem recifes de corais de águas frias, jardins de gorgónias, agregações de esponjas de profundidade, campos de crinóides, comunidades bentónicas ricas em endemismos e zonas de elevada produtividade que funcionam como áreas de alimentação, reprodução e agregação de diversas espécies.
Por seu lado, o ministro da Agricultura e Mar realça que “esta área marinha protegida terá um impacto positivo na saúde dos ecossistemas e, a médio prazo, na produtividade dos recursos pesqueiros”.
Garantir a sustentabilidade das pescas
José Manuel Fernandes assegura que, “ao proteger montes submarinos que funcionam como verdadeiras ‘maternidades’ no oceano, garantimos melhores condições para a sustentabilidade das pescas e para a valorização da economia do mar”.
O Governo assume que a gestão de uma área marinha protegida com esta dimensão, sujeita a quadros legais de diversa génese (regional, nacional e internacional), “representa um grande desafio e será pioneira à escala mundial”.
É que, “até hoje, não se conhecem modelos de gestão de áreas protegidas localizadas em Zona Económica Exclusiva, abrangendo áreas de plataforma continental além das 200 milhas náuticas e envolvendo governos regionais e centrais”.
É preciso notar que a classificação desta nova área marinha protegida “adiciona 72 272 km2 de área protegida” à ZEE - subárea Continente, 56 069 km2 à ZEE - subárea Madeira e ainda 44 135 km2 à área da plataforma continental subjacente a águas marinhas internacionais.
A consulta pública referente à reserva natural marinha D. Carlos decorre no portal Participa.pt até 6 de março de 2026.