Entre gratidão e vandalismo: menir de Monsaraz recebe inscrição indevida

A inscrição “Muito obrigado dotora” terá sido feita por alguém que solicitou à autarquia um banco junto ao menir para repouso durante as caminhadas. Conheça aqui todos os pormenores desta história insólita.

O monólito de granito tem 5,6 metros de altura e um diâmetro médio de um metro e pesa cerca de 8 toneladas. É o segundo maior em Portugal. O topo tem uma cavidade de 30 cm de diâmetro, que se acredita representar uma uretra, o que dá a entender que o menir simboliza um falo. É considerado um dos melhores exemplos de um menir fálico na Península Ibérica. Imagem: © Vítor Oliveira / Portuguese_eyes.
O monólito de granito tem 5,6 metros de altura e um diâmetro médio de um metro e pesa cerca de 8 toneladas. É o segundo maior em Portugal. O topo tem uma cavidade de 30 cm de diâmetro, que se acredita representar uma uretra, o que dá a entender que o menir simboliza um falo. É considerado um dos melhores exemplos de um menir fálico na Península Ibérica. Imagem: © Vítor Oliveira / Portuguese_eyes.

Durante milhares de anos, o Menir do Outeiro da Barrada permaneceu como uma silenciosa testemunha da ocupação humana no Alentejo. Erigido há mais de cinco mil anos, o monumento megalítico situado nas proximidades de Monsaraz, voltou recentemente às luzes da ribalta, não pela sua imensa relevância arqueológica, mas antes por causa de um episódio que colocou no centro das atenções o debate sobre a preservação do património cultural.

Monumento milenar vandalizado num polémico ato de agradecimento

De acordo com o jornal Público, na semana passada a Associação de Defesa dos Interesses de Monsaraz (ADIM) apresentou uma denúncia formal à Câmara Municipal de Reguengos de Monsaraz e à Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo (CCDR-Alentejo), alertando para várias intervenções de índole ilegal no monumento e na área em redor. Entre as situações denunciadas surge a vandalização do menir com uma inscrição grafitada que dizia “Muito obrigado dotora”, acompanhada por desenhos de uma flor e de um coração.

Em declarações ao jornal Público, a conservadora-restauradora Arlinda Ribeiro adiantou que a inscrição, feita com tinta, constituiu um grave atentado à integridade e autenticidade do monumento nacional, tendo sido elaborada com o intuito de “agradecer a quem ali mandou instalar o banco”.

Adicionalmente, a associação criticou ainda a colocação de um banco dentro da zona de proteção legalmente definida para o monumento, considerando que o atentado praticado “compromete gravemente a imagem e o enquadramento paisagístico do monumento”.

O banco dentro dos limites de proteção e o menir com a inscrição "Muito obrigado dotora", acompanhada de uma flor e de um coração. Imagem: © Jornal Público
O banco dentro dos limites de proteção e o menir com a inscrição "Muito obrigado dotora", acompanhada de uma flor e de um coração. Imagem: © Jornal Público

A origem da polémica que envolve o banco e a inscrição no menir foram esclarecidas por Marta Prates, presidente da Câmara de Reguengos de Monsaraz. Segundo a autarca, o pedido a si dirigido chegou durante uma visita ao local por parte de uma idosa que costuma percorrer os caminhos da região a pé, que solicitou então um banco onde pudesse descansar das suas caminhadas.

Sensibilizada pela situação, a autarca autorizou aos serviços da Câmara Municipal a instalação do banco, admitindo posteriormente que não teve em consideração a obrigatoriedade de respeitar uma distância mínima de 50 metros do monumento. Não obstante, assim que a irregularidade lhe foi comunicada pela ADIM, o equipamento “(...) foi de imediato retirado e colocado a uma distância superior aos 50 metros legalmente considerados”.

Entretanto, as autoridades municipais procederam à avaliação da melhor forma de remover a inscrição sem causar danos adicionais à superfície do menir. A queixa realizada pela ADIM dava ainda conta da presença de uma construção nas proximidades do monumento, supostamente ilegal. No entanto, de acordo com Marta Prates, essa construção não é ilegal e “foi autorizada pela autarquia”.

A herança pré-histórica que molda a identidade de Monsaraz

Este episódio polémico desenrolou-se num território reconhecido pela sua riqueza extraordinária quanto ao património pré-histórico. O concelho de Reguengos de Monsaraz possui uma das mais importantes concentrações de monumentos megalíticos da Península Ibérica.

Dos 379 sítios arqueológicos identificados no concelho alentejano, a grande maioria remonta ao período Neocalcolítico, que é a fase de transição entre o Neolítico e o período Calcolítico, muito marcada pelo desenvolvimento das primeiras comunidades agrícolas e pela construção de monumentos de pedra com grande significado social e simbólico.

Uma parte muito significativa deste património foi estudada na década de 1950 pelo casal de investigadores alemães Georg e Vera Leisner, pioneiros no inventário dos monumentos megalíticos portugueses. Mais tarde, os arqueólogos Henrique Leonor Pina e José Pires Gonçalves aprofundaram o conhecimento sobre estes vestígios, salientando-se desse modo a importância excecional desta região alentejana na compreensão das origens das sociedades pré-históricas do Sudoeste Europeu.

Desde a gratidão ao vandalismo, o episódio controverso ocorrido no Menir do Outeiro da Barrada realça a necessidade de se conciliar a valorização pública dos monumentos com a preservação tanto quanto possível da sua integridade, pois só dessa forma se irá assegurar que estes testemunhos milenares continuem a “contar” a sua história às gerações vindouras.

Referência da notícia

Menir do Outeiro da Barrada em Monsaraz foi vandalizado com agradecimento por causa de um banco. Público. Carlos Dias. 15 de junho de 2026.