Balanço de 2025. Portugal falha metas de reciclagem num ano decisivo
Os objetivos da Comissão Europeia até 2025 era de 65%, mas o nosso desempenho não foi além de 60% de resíduos urbanos reaproveitados.

Os portugueses separaram, em 2025, mais dez mil toneladas de embalagens para a reciclagem do que no ano anterior. Não é um grande desempenho, tendo em conta que o crescimento não foi além dos 2%, estando ainda muito abaixo dos objetivos definidos pela Comissão Europeia.
O balanço anual da Sociedade Ponto Verde mostra que o total de embalagens recicladas atingiu as 486 990 toneladas num ano em que o investimento no sistema quase duplicou, com mais de 90 milhões de euros, num total de 220 milhões de euros.
Mais financiamento, mas poucos resultados
O reforço no financiamento, contudo, não foi suficiente para cumprir as metas europeias da reciclagem. No ano que passou, a taxa de retoma foi de 60,2%. Portugal, assim como todos os estados-membros, estava comprometido a enviar 65% dos seus resíduos para reciclagem até 2025.

Com levantamento anual concluído, a Sociedade Ponto Verde, anunciou que o país entrou em incumprimento num ano decisivo. Os resultados evidenciam, por isso, um “desfasamento estrutural” entre o investimento feito e o desempenho alcançado na recolha seletiva.
Ana Trigo Morais, CEO da Sociedade Ponto Verde
Vidro e embalagens de cartão para alimentos líquidos (ECAL) voltaram a ser os materiais mais críticos. Garrafas e frascos registaram uma quebra de 1% na separação para reciclagem (212 693 toneladas) e embalagens, como pacotes de leite e de sumo, tiveram uma descida de 7% (7 724 toneladas), segundo os números divulgados pela Sociedade Ponto Verde.
Quanto aos restantes materiais, os dados do Sistema Integrado de Gestão de Resíduos de Embalagens (SIGRE) revelam terem sido encaminhadas para a reciclagem 164 531 toneladas de papel/cartão (mais 4%), 89 125 toneladas de plástico (mais 4%) e 2 374 toneladas de alumínio (menos 4%).
É preciso reavaliar o modelo
São números que, no global, são desanimadores, demonstrando que Portugal está a avançar com demasiada lentidão num momento em que seria crucial acelerar o caminho da economia circular.

É preciso por isso repensar o modelo, exigir eficiência e qualidade no serviço de recolha e triagem para garantir que o investimento possa gerar mais embalagens recolhidas nos ecopontos. É pelo menos isso que defende a Sociedade Ponto Verde, alertando também para o papel central da fiscalização na alteração dos comportamentos dos consumidores.
"Estamos num momento em que os recursos existem. O que falta é garantir que o sistema funciona. Não podemos continuar a aceitar que mais investimento produza exatamente os mesmos resultados”, defendeu em comunicado Ana Trigo Morais, diretora-executiva da organização, apelando a uma mudança estrutural orientada para o desempenho.
O alerta do Tribunal de Contas Europeu
Os resultados agora divulgados não são, todavia, inesperados. Em dezembro de 2025, o relatório do Tribunal de Contas Europeu (TCE) já alertava para o facto de Portugal, Grécia, Roménia e Polónia estarem em risco de falhar a meta de reciclagem de resíduos urbanos para 2025.

A Comissão Europeia recomendou a Portugal reforçar a capacidade de tratamento de biorresíduos, apoiar a compostagem doméstica e estabelecer normas de qualidade para o uso de composto na agricultura.
A auditoria do TCE apontou deficiências que atravessam quase toda a cadeia, desde a insuficiente separação do lixo até à vulnerabilidade financeira das instalações de reciclagem, muitas enfrentando custos crescentes, quedas na procura e concorrência do plástico importado mais barato.
Em vésperas da preparação de uma nova Lei da Economia Circular, prevista para este ano, os auditores advertem que, sem um mercado robusto para os produtos reciclados, incentivos eficazes e investimento consistente, a União Europeia arrisca a as suas metas ambientais.
Referências da notícia
Portugal entrou em incumprimento em 2025, ano em que o investimento quase duplicou. Sociedade Ponto Verde
Relatório Especial 23/2025 - Gestão dos resíduos urbanos. Tribunal de Contas Europeu (versão portuguesa)