Os diques do Mondego já não suportam eventos meteorológicos como os que ocorreram nos últimos dias
Saiba aqui como funciona o sistema de drenagem do Mondego, que ao final de quase 50 anos, terá de ser redimensionada para responder aos desafios provocados pelas mudanças do clima.

Quase meio século após terem sido construídos e depois de fustigados por um comboio de tempestades, que afetou o país inteiro, os diques do Mondego são agora a maior preocupação das autoridades.
A água está a espalhar-se pelos campos de cultivo da margem direita já bastante saturados. As inundações multiplicam-se pelas propriedades agrícolas principalmente nos concelhos de Coimbra e Montemor-o-Velho.
Risco de novas ruturas
As povoações nas zonas mais baixas de Tentúgal, Meãs do Campo, Carapinheira, Montemor-o-Velho e Ereira são as que, neste momento, requerem maior vigilância. Mas o risco de novas ruturas é um cenário admitido como provável pela Proteção Civil.
A rutura dos diques do Mondego pode vir a ter, portanto, consequências ainda mais graves se ocorrer na margem esquerda. Ao cederem do lado oposto, foram principalmente os campos agrícolas que ficaram alagados, evitando-se danos maiores em zonas mais urbanizadas.
Uma obra que ficou obsoleta
A segurança da infraestrutura é agora o ponto central para os especialistas. A obra foi projetada para evitar cheias, mas não está preparada para resistir aos eventos meteorológicos extremos agora mais frequentes com alterações climáticas.

Os diques do Mondego foram construídos entre o final da década de 1970 e meados dos anos de 1980. São dezenas de quilómetros de taludes compactados, entre Coimbra e Figueira da Foz, com alturas a variar entre cinco e oito metros e ainda vários mecanismos de segurança concebidos para impedir que o rio invada os campos agrícolas.
O controlo das cheias sem intervenção humana
O rio possui quatro descarregadores para a margem direita, cada um permitindo escoar até 200 metros cúbicos de água por segundo. Na Mata do Choupal, em Coimbra, o dique de fusível abre quando o caudal atinge uma determinada cota, drenando a água para uma vala adjacente.
Os três descarregadores restantes, mais a jusante no canal central, funcionam como um sistema de sifão automático. Quando a água sobe, o mecanismo inicia a descarga sem comportas nem energia, apenas pela diferença de níveis, escoando rapidamente grandes volumes de água para aliviar o leito central. E assim que o nível baixa, o sifão desce automaticamente, conseguindo controlar as cheias sem intervenção humana.
Encontrar uma solução resiliente às mudanças do clima
Este é o mecanismo que, embora com falhas, como as que aconteceram em 2019 e 2001, evitou o galgamento do rio e inundação das zonas mais baixas do Vale do Mondego. Mas, diante dos desafios que as mudanças do clima trouxeram, o sistema de drenagem já não oferece a mesma segurança.
Durante a visita que fez esta quarta-feira à região, o primeiro-ministro, Luís Montenegro, salientou que a reavaliação do sistema exigirá o "esforço das autoridades locais e da academia” para encontrar uma solução estrutural capaz de resistir a adversidades “tão extremas” como as que ocorreram nestas últimas semanas.

Parte desta solução vai implicar também a construção da Barragem de Girabolhos, no distrito de Viseu, considerado um projeto é estruturante para o controlo de cheias no Mondego. O concurso, segundo o Governo, será lançado no final de março. A obra tem um prazo de execução de 2026-2037, com um custo previsto de 300 milhões de euros, mas ainda com a fonte de financiamento por determinar.