Os diques do Mondego já não suportam eventos meteorológicos como os que ocorreram nos últimos dias

Saiba aqui como funciona o sistema de drenagem do Mondego, que ao final de quase 50 anos, terá de ser redimensionada para responder aos desafios provocados pelas mudanças do clima.

A rutura dos diques no Mondego afetou sobretudo os campos agrícolas das regiões de Coimbra e de Montemor-o-Velho. Foto: Município de Montemor-o-Velho
A rutura dos diques no Mondego afetou sobretudo os campos agrícolas das regiões de Coimbra e de Montemor-o-Velho. Foto: Município de Montemor-o-Velho

Quase meio século após terem sido construídos e depois de fustigados por um comboio de tempestades, que afetou o país inteiro, os diques do Mondego são agora a maior preocupação das autoridades.

Após o colapso do primeiro dique, ontem ao final da tarde em Coimbra, mais um rebentou esta manhã, desta vez na localidade de Granja do Ulmeiro, no município de Soure.

A água está a espalhar-se pelos campos de cultivo da margem direita já bastante saturados. As inundações multiplicam-se pelas propriedades agrícolas principalmente nos concelhos de Coimbra e Montemor-o-Velho.

Risco de novas ruturas

As povoações nas zonas mais baixas de Tentúgal, Meãs do Campo, Carapinheira, Montemor-o-Velho e Ereira são as que, neste momento, requerem maior vigilância. Mas o risco de novas ruturas é um cenário admitido como provável pela Proteção Civil.

No pior dos casos, o dique da margem esquerda também pode vir a ceder e inundar a parte sul do canal do Mondego, atingindo as populações de Casais, Ribeira de Frades ou a Corujeira, localizadas mais perto do canal fluvial do que as povoações do lado oposto.

A rutura dos diques do Mondego pode vir a ter, portanto, consequências ainda mais graves se ocorrer na margem esquerda. Ao cederem do lado oposto, foram principalmente os campos agrícolas que ficaram alagados, evitando-se danos maiores em zonas mais urbanizadas.

Uma obra que ficou obsoleta

A segurança da infraestrutura é agora o ponto central para os especialistas. A obra foi projetada para evitar cheias, mas não está preparada para resistir aos eventos meteorológicos extremos agora mais frequentes com alterações climáticas.

A margem esquerda do Mondego, que é mais urbanizada, não foi ainda afetada, mas a Proteção Civil admite novos riscos de ruturas nos diques. Foto: Município de Montemor-o-Velho
A margem esquerda do Mondego, que é mais urbanizada, não foi ainda afetada, mas a Proteção Civil admite novos riscos de ruturas nos diques. Foto: Município de Montemor-o-Velho

Os diques do Mondego foram construídos entre o final da década de 1970 e meados dos anos de 1980. São dezenas de quilómetros de taludes compactados, entre Coimbra e Figueira da Foz, com alturas a variar entre cinco e oito metros e ainda vários mecanismos de segurança concebidos para impedir que o rio invada os campos agrícolas.

O controlo das cheias sem intervenção humana

O rio possui quatro descarregadores para a margem direita, cada um permitindo escoar até 200 metros cúbicos de água por segundo. Na Mata do Choupal, em Coimbra, o dique de fusível abre quando o caudal atinge uma determinada cota, drenando a água para uma vala adjacente.

Os três descarregadores restantes, mais a jusante no canal central, funcionam como um sistema de sifão automático. Quando a água sobe, o mecanismo inicia a descarga sem comportas nem energia, apenas pela diferença de níveis, escoando rapidamente grandes volumes de água para aliviar o leito central. E assim que o nível baixa, o sifão desce automaticamente, conseguindo controlar as cheias sem intervenção humana.

Encontrar uma solução resiliente às mudanças do clima

Este é o mecanismo que, embora com falhas, como as que aconteceram em 2019 e 2001, evitou o galgamento do rio e inundação das zonas mais baixas do Vale do Mondego. Mas, diante dos desafios que as mudanças do clima trouxeram, o sistema de drenagem já não oferece a mesma segurança.

Na sequência das cheias que afetaram a região de Coimbra, o Governo já anunciou que vai avançar com a revisão da obra hidrográfica do Mondego.

Durante a visita que fez esta quarta-feira à região, o primeiro-ministro, Luís Montenegro, salientou que a reavaliação do sistema exigirá o "esforço das autoridades locais e da academia” para encontrar uma solução estrutural capaz de resistir a adversidades “tão extremas” como as que ocorreram nestas últimas semanas.

O Governo reconhece que o sistema hidráulico do Mondego já não oferece segurança e precisa de ser revisto. Foto: Município de Montemor-o-Velho
O Governo reconhece que o sistema hidráulico do Mondego já não oferece segurança e precisa de ser revisto. Foto: Município de Montemor-o-Velho

Parte desta solução vai implicar também a construção da Barragem de Girabolhos, no distrito de Viseu, considerado um projeto é estruturante para o controlo de cheias no Mondego. O concurso, segundo o Governo, será lançado no final de março. A obra tem um prazo de execução de 2026-2037, com um custo previsto de 300 milhões de euros, mas ainda com a fonte de financiamento por determinar.