Arquitetura de vanguarda, calor a bombar: o fiasco térmico da estação de Nantes
Estação de Nantes: nova galeria suspensa de 37 milhões de euros transforma-se em "forno" e é encerrada devido ao calor extremo. Saiba mais aqui!

Quem já foi, por exemplo, ao Centro Comercial Vasco da Gama, em Lisboa, certamente reparou na água que escorre pelo teto, uma solução para arrefecer a infraestrutura e evitar o efeito de estufa. Já em Nantes, França, um episódio insólito e problemático afetou a principal estação ferroviária. Apenas cinco anos após uma renovação profunda e dispendiosa, a grande galeria suspensa teve de ser temporariamente encerrada ao público
O incidente ocorreu na segunda-feira, 30 de junho de 2025, dia em que a zona de Loire-Atlantique se encontrava sob alerta laranja devido ao calor extremo.
Com os termómetros no interior da passagem envidraçada a registarem valores sufocantes que, segundo os passageiros, chegaram a ultrapassar os 42 °C e 43 °C debaixo da enorme cobertura de vidro, a direção da SNCF (Sociedade Nacional dos Caminhos de Ferro Franceses) viu-se obrigada a agir. Para preservar a saúde e garantir a segurança dos clientes, funcionários e comerciantes locais, o acesso a esta área foi interditado durante o início da tarde.

Esta decisão repentina gerou um impacto imediato na logística do local: provocou uma enorme aglomeração e um congestionamento invulgar no átrio principal da estação histórica e nas passagens subterrâneas de acesso às plataformas de embarque. Ao final da tarde, precisamente por motivos de gestão de multidões e para evitar problemas de segurança no piso inferior, a empresa viu-se forçada a reabrir o espaço.
O paradoxo de uma obra...de 37 milhões de euros
O grande paradoxo que tem alimentado a polémica reside na juventude e no custo elevado desta infraestrutura, inaugurada no ano de 2020. Este novo átrio superior demorou três anos a ser construído e implicou um investimento de 37,5 milhões de euros. Trata-se de uma imponente "rua suspensa" de 160 metros de comprimento e 4.000 metros quadrados, que liga as secções norte e sul da estação. A obra foi concebida pelo prestigiado arquiteto Rudy Ricciotti, galardoado com o Grande Prémio Nacional de Arquitetura em França (2006).

Na altura da inauguração, os responsáveis garantiram que o projeto estava preparado para o calor. Os amplos vidros teriam recebido um tratamento especial para assegurar uma "forte proteção contra o sol", e o teto é sustentado por 18 grandes pilares em forma de árvore, cujas copas (feitas de betão de ultra-alto desempenho) funcionariam como sombras artificiais. Contudo, perante as altas temperaturas, estes dispositivos de proteção térmica atingiram o seu limite e revelaram-se totalmente ineficazes, sendo que apenas as lojas no local dispõem de ar condicionado.
Erro de conceção face ao aquecimento global
A situação gerou fortes críticas locais, entre as quais, denunciou-se o que classifica como um "erro de conceção manifesto", criticando o facto de uma obra pública tão recente parecer ter ignorado completamente a realidade inegável do aquecimento global.
Entretanto, a SNCF já avisou os utentes de que o espaço poderá voltar a ser encerrado preventivamente sempre que as temperaturas disparem, não havendo, por enquanto, o anúncio de soluções ou alterações estruturais para contornar o problema crónico desta moderna cobertura.
Referência da notícia:
https://www.batiactu.com/edito/cinq-apres-sa-renovation-partie-gare-nantes-fermee-71807.php