Aos 91 anos, Maria Agalantina saiu da sua aldeia para ver o mar pela primeira vez
A iniciativa da Fundação INATEL levou moradores da Póvoa de São Cosme a conhecer Lisboa e a descobrir lugares que muitos só conheciam pela televisão.

O sol ainda não se tinha levantado e os habitantes da Aldeia da Póvoa de São Cosme, em Oliveira do Hospital, já estavam numa roda-viva. Não era a lufa-lufa típica das grandes cidades, em que se corre todos os dias contra o relógio para pôr as crianças na escola e chegar a horas ao escritório.
O dia começou cedo, nesta povoação rural, como quase sempre. Mas, desta vez, não era apenas por causa das hortas regadas antes do calor ou dos rebanhos que era preciso alimentar. Um autocarro da Fundação INATEL aguardava um grande grupo de moradores para uma longa viagem de quase 300 quilómetros.

Lisboa foi o destino desta excursão. Pode parecer algo banal para quem vive no litoral ou viaja com frequência pelo país. Para as povoações isoladas no interior, é uma rara oportunidade de verem, com os seus próprios olhos, o que apenas viram nas imagens transmitidas na televisão.
O desejo de Maria
Todos os momentos mereciam ficar registados. A tradicional fotografia de grupo assinalou a partida, mas havia mais uma história a merecer especial atenção.
O desejo ficou registado no documentário "Póvoa de São Cosme: Festa na Aldeia", da Fundação INATEL, e acabaria por ser um dos momentos mais comoventes da viagem. Maria Agalantina tem 91 anos e nunca esteve perto do mar. O autocarro partiu, ainda de madrugada, com cautela na autoestrada, mas com a pressa de cumprir o seu desejo.
Do interior ao litoral
A povoação da freguesia de Ervedal da Beira foi eleita, este ano, a Aldeia dos Sonhos. Desde 2014, a Fundação INATEL, em parceria com o Turismo de Portugal, escolhe uma localidade do interior com 100 habitantes ou menos para levá-los a conhecer um grande centro urbano do país.
Ouguela, em Campo Maior, foi a primeira que se estreou, há 12 anos, nesta iniciativa, passando um fim de semana em Lisboa, com direito a uma visita aos bastidores do Estádio da Luz e um passeio nas águas do rio Tejo.
Desde então, outras aldeias do interior, como Barranha, Candal, Penhaforte ou Rio de Mel, também saíram da rotina para conhecer monumentos, museus, parques e praias das áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto.
Lisboa pela janela
O programa da Aldeia de Sonho, no fim de semana, entre 9 e 14 de outubro, foi intenso. Incluiu uma visita guiada à Assembleia da República, uma passagem pelo Quarke – Museu do Terramoto e uma paragem pelo Oceanário de Lisboa.

O próprio percurso do autocarro atravessou o centro da cidade, mostrando os lugares emblemáticos da capital, como o Rossio, a Praça do Saldanha, os jardins do Campo Grande ou a travessia da Ponte 25 de Abril.
A passagem pela Avenida da Liberdade acabou por despertar memórias antigas de Celestino Ventura, outro nonagenário da aldeia, que, quando jovem, viveu em Lisboa. “Quando subia ao Parque Eduardo VII, apanhava ameixas brancas e comia-as naqueles bancos que havia lá”, recordou à equipa de reportagem da Fundação INATEL.
O Atlântico no horizonte
A viagem esteve carregada de emoções, mas nenhuma tão forte como a chegada do grupo de excursionistas à Costa da Caparica, em Almada. Maria Agalantina desceu do autocarro com a ajuda da bengala e contemplou o Atlântico, agora sem o ecrã da televisão pelo meio. Arregaçou as calças, descalçou as sapatilhas e avançou até à beira-mar.

O que sentiu quando a água lhe tocou os pés, só ela saberá. Nenhuma imagem conseguiria traduzir o silêncio com que observou o horizonte. Mas não são precisas palavras para saber que os moradores de Póvoa de São Cosme regressaram a casa com a viagem cumprida.
Referência da notícia
Fundação Inatel. Póvoa de São Cosme: Festa na Aldeia.