Previsão para o verão em Portugal: as anomalias que deve esperar em junho, julho e agosto
Após um evento de calor histórico no sudoeste da Europa, o verão climatológico irá arrancar no próximo 1 de junho. Consulte a nossa análise às possibilidades reais de fenómenos extremos em Portugal nos próximos meses.

Maio termina com um evento extraordinário de calor em grande parte da Europa Central e Ocidental, com temperaturas praticamente inéditas para esta época do ano em países como Portugal, Espanha, França ou Reino Unido, onde, em vários observatórios, foram batidos os recordes vigentes, muitos dos quais registados nos últimos anos.
Tratam-se de valores mais típicos da canícula (a época estatisticamente mais quente do ano), numa altura em que o verão ainda nem sequer começou. Não obstante, o verão climatológico arrancará já na próxima segunda-feira, 1 de junho, logo após este evento de cúpula de calor. Muitas pessoas estão atentas ao tempo devido à proximidade das férias de verão, e o modelo europeu atualizou as suas tendências para o próximo trimestre.
Um verão recorde em Portugal devido ao super El Niño?
Nas últimas semanas, tem-se falado que o provável e iminente super El Niño poderá influenciar as temperaturas deste verão em Portugal. No entanto, é importante esclarecer que os meses de verão costumam ser, por si só, quentes em grande parte da nossa geografia, e a cada ano que passa ficam mais quentes: foram batidos recordes tanto com o El Niño como com o La Niña.
El Niño Update - Wednesday May 20, 2026
— David Schlotthauer (@Weatherunited1) May 20, 2026
Sea surface temperatures continue to warm across Niño 3.4 and are running around 29°C which is incredibly warm relative to average. In fact, sea surface temperatures here are around 1.2 Celsius above the long-term average, which suggest pic.twitter.com/Vq7Sl6cOGG
O sinal deste fenómeno chega muito enfraquecido ao sudoeste do continente europeu, e em especial à Península Ibérica. Além disso, os principais modelos climáticos sugerem que o pico deste episódio de El Niño ocorrerá entre o outono e inverno, pelo que, a priori, não haverá uma relação direta entre possíveis temperaturas extremas ou inéditas e este fenómeno. É essencial relembrar que as condições meteorológicas em Portugal são mais influenciadas por outros fatores, como o jato polar.
Eis como as temperaturas poderão evoluir em Portugal entre junho e agosto
As últimas previsões do Centro Europeu de Previsão a Médio Prazo (ECMWF), organismo de referência da Meteored, indicam que, no próximo trimestre, as temperaturas irão situar-se, provavelmente, acima da média para a época em grande parte da nossa geografia.
No interior Norte, Centro e em algumas zonas do interior Alentejano, as temperaturas poderão situar-se entre 1 e 2 ºC acima dos valores médios do verão. Ao longo do trimestre estival (junho, julho e agosto), sobressaem visualmente as anomalias térmicas positivas previstas para os distritos de Vila Real, Bragança e Guarda.

Porém, por enquanto, não se observa uma tendência particularmente definida para o litoral Centro e Oeste, Área Metropolitana de Lisboa e Algarve. Em todas estas regiões, especialmente nas que estão orientadas para oeste, a nortada tipicamente estival costuma influenciar decisivamente as temperaturas diurnas registadas entre junho e agosto, produzindo valores de máximas mais moderados em relação às regiões normalmente mais quentes.
O nevoeiro de advecção que surge muitas vezes nas manhãs de julho e agosto, bem como as brisas marítimas que sopram do Atlântico acabam por suavizar o calor nas regiões mais próximas ao mar.
Tampouco se deteta uma tendência especialmente definida da temperatura no que diz respeito aos arquipélagos dos Açores e da Madeira. Ainda é muito precoce afirmar se irá ocorrer alguma onda de calor em Portugal continental, mas, tendo em conta as tendências recentes, é bastante provável que haja, pelo menos, um evento.
Saiba a possível evolução da precipitação no trimestre estival
Quanto à precipitação, quando ocorre é geralmente do carácter convectivo (aguaceiros, por vezes de granizo, e trovoadas) associadas à passagem de pequenas bolsas de ar frio (gotas frias). Embora as chuvas sejam normalmente muito escassas no verão em Portugal, é preciso salientar que, uma única tempestade intensa pode “virar do avesso” o balanço pluviométrico de toda a estação estival.
Se nos referirmos estritamente à precipitação acumulada durante os meses de verão (junho, julho e agosto), o arquipélago dos Açores e a região do Minho são as zonas onde mais chove em Portugal continental.
Acrescente-se ainda que, no mês de agosto, sobretudo a partir da segunda quinzena do mês, a precipitação pode, por vezes, registar um ligeiro aumento da sua frequência na nossa geografia devido ao enfraquecimento e à deslocação para sul do anticiclone dos Açores, à passagem dos primeiros sistemas frontais atlânticos e a atividade de vestígios de antigos ciclones tropicais ou ex-furacões.
Os mapas sugerem que o próximo trimestre poderá ser ligeiramente mais seco do que o habitual, especialmente na Região Norte e no Centro-norte, enquanto que para o resto do território não se observa uma tendência particularmente definida. É fundamental ter em conta que a variável da precipitação é a mais complexa de analisar, sobretudo quando se trata de trovoadas, e que esta primeira tendência deverá sofrer alterações nas próximas atualizações.

A distribuição das anomalias pluviométricas aponta para a possível formação de bloqueios na região das Ilhas Britânicas, o que, por vezes, poderá contribuir para a aproximação de bolsas de ar frio à geografia do Continente.
Quanto aos arquipélagos, no da Madeira observa-se uma tendência semelhante à do Continente (pouco definida), e no dos Açores vislumbra-se possibilidade de precipitação ligeiramente acima da média nalgumas ilhas somente no mês de agosto, o que bate certo com a possibilidade de chegada dos primeiros sistemas frontais atlânticos ou restos de ex-ciclones tropicais.
Importa ainda perceber que papel desempenhará o anticiclone dos Açores, na medida em que quanto mais próximo e robusto estiver da nossa geografia, maior é a probabilidade de registarmos estados de tempo predominantemente secos, estáveis e soalheiros, com vários dias consecutivos de céu pouco nublado ou limpo e ainda a presença de nevoeiros matinais, por vezes persistentes, na costa ocidental.
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