Geógrafo Alfredo Graça avisa após analisar os mapas: “o jato polar vai condicionar o tempo em Portugal em setembro”

A Meteored lança a sua primeira previsão para setembro em Portugal, um mês famoso pela sua elevada incerteza meteorológica. Analisamos aqui as possibilidades de tempo seco ou de chuva forte, bem como a tendência das temperaturas.

Há anos em que o mês de setembro pode ser bastante chuvoso. Descubra abaixo as tendências para setembro 2026.
Há anos em que o mês de setembro pode ser bastante chuvoso. Descubra abaixo as tendências para setembro 2026.

O outono climatológico vai arrancar já na próxima terça-feira, 1 de setembro, após um verão relativamente ameno em Portugal, especialmente nas regiões do litoral, onde se viveu um contraste absoluto em relação ao resto da Europa, afetada implacavelmente por inúmeras ondas de calor muito intensas que bateram múltiplos recordes de temperatura.

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No nosso país a exceção foi mesmo o período correspondente aos primeiros 8 dias de julho, quando se registou possivelmente a única onda de calor generalizada do verão climatológico inteiro. Apesar de ser muito variável de ano para ano, o clima do mês de setembro é historicamente conhecido pelo facto de em certas ocasiões ainda trazer dias veranis. Por estes motivos, muita gente está atenta ao tempo que se poderá registar em Portugal nas próximas semanas.

O provérbio é elucidativo: “setembro seca as fontes ou leva as pontes"

Este provérbio é um dos mais conhecidos acerca do nono mês do ano e resume perfeitamente o que pode acontecer nas primeiras semanas do outono. Há anos em que setembro é muito chuvoso na generalidade da nossa geografia continental, ora por causa das depressões atlânticas e respetivos sistemas frontais, ora devido às gotas frias.

Estas últimas, quando surgem, podem produzir, por vezes, chuva irregular mas extremamente forte e com possíveis consequências catastróficas, daí nascendo a parte do provérbio que remete-nos para "levar as pontes". No entanto, há outros anos em que a nossa geografia fica à mercê de um evidente prolongamento do verão, daí o “seca as fontes”, com o tempo seco a poder agravar substancialmente a situação de seca.

Em certos anos, o mês de setembro é uma continuação do verão.
Em certos anos, o mês de setembro é uma continuação do verão.

É esta a origem da parte do provérbio que remete para “secar as fontes", pois a escassez de água e a seca podem tornar-se mais graves. Isto é algo que se tem tornado cada vez mais comum nos últimos anos, apesar de em 2026 o balanço hídrico ser francamente mais positivo em relação a anos anteriores.

No que concerne à temperatura, os dados plasmados nas normais climatológicas revelam-nos que o valor médio nas regiões do interior de Portugal continental costuma descer cerca de 3/4 ºC comparativamente a agosto, enquanto nas regiões do litoral e nos arquipélagos dos Açores e da Madeira, a descida térmica é menor graças ao efeito termorregulador do oceano. É também neste mês que os dias vão-se tornando progressivamente mais curtos, pelo que as noites são, de um modo geral, mais frescas.

Os primeiros dias de setembro poderão ser marcados por calor de pleno verão

De momento, as primeiras tendências do modelo europeu são bastante claras. Na primeira quinzena de setembro, o tempo de verão deverá impor-se, especialmente no interior de Portugal continental, e em particular nalgumas zonas do interior alentejano - onde as temperaturas poderão situar-se entre 3 e 6 ºC acima da média para a época.

Setembro poderá arrancar com anomalias positivas de temperatura muito significativas no interior alentejano.
Setembro poderá arrancar com anomalias positivas de temperatura muito significativas no interior alentejano.

Entretanto, no resto de Portugal, as temperaturas poderão registar valores entre 1 e 3 ºC acima da média para essas datas. Somente para os Açores e para a Madeira é que se vislumbram anomalias térmicas positivas suaves (até 1 ºC acima do normal para a época).

Apesar da incerteza ser bastante significativa - tendo em conta que estas previsões possuem baixa fiabilidade - os primeiros sinais indicam que a segunda metade do mês poderá ser caracterizada por uma tendência para a normalização gradual das temperaturas em grande parte da nossa geografia. Este panorama poderá estender-se a muitas outras zonas do Centro e do Sul da Europa nas duas últimas semanas de setembro.

Há algum episódio de chuva forte em perspetiva? O jato polar irá decidir

A precipitação predominante nesta altura do ano é a do tipo convectivo, extremamente irregular (geralmente causadas por depressões isoladas em altitude ou gotas frias), pelo que estas previsões a longo prazo são pouco fiáveis. É ainda importante realçar que os fenómenos associados à precipitação convectiva só podem ser previstos com alguns dias de antecedência, devido à sua evolução tão complexa e imprevisível.

Embora não haja um padrão particularmente definido para a segunda quinzena de setembro, a aproximação a valores normais de precipitação no nosso território poderá indicar um possível aumento da instabilidade face à primeira metade do mês.
Embora não haja um padrão particularmente definido para a segunda quinzena de setembro, a aproximação a valores normais de precipitação no nosso território poderá indicar um possível aumento da instabilidade face à primeira metade do mês.

As primeiras tendências indicam que a chuva poderá ficar abaixo da média na primeira quinzena em praticamente todo o país devido ao predomínio de um padrão positivo da NAO (Oscilação do Atlântico Norte), com as depressões a circularem em latitudes mais setentrionais.

Porém, isto não exclui a possibilidade de surgir alguma pequena bolsa de ar frio em altitude ou algum sistema frontal atlântico de fraca atividade que possa interromper temporariamente a estabilidade conferida pelas altas pressões. A única exceção a este panorama tendencialmente seco seriam os Açores, onde se preveem anomalias positivas de precipitação durante a primeira quinzena de setembro.

O que é o jato polar?
Conhecido também como corrente de jato ou “jet stream”, trata-se de um canal de ventos muito fortes, em forma de tubo. Pode ser entendido como um rio de ar que flui acima das nossas cabeças (a cerca de 9-16 km acima da superfície da Terra) e a velocidades de 100-250 km/h, com milhares de quilómetros de comprimento, mas apenas alguns quilómetros de largura.

Para a segunda quinzena de setembro, não se observa, de momento, uma tendência particularmente definida, embora se detete uma possível aproximação da precipitação para valores normais para a época do ano, o que poderia ser consequência de um aumento da instabilidade. Não se perspetiva um padrão atmosférico especialmente dominante: o jato polar irá determinar o desenrolar da segunda quinzena, dado que, se descer em latitude e produzir ondulações, setembro poderá terminar com um tempo instável.