Os coentros são a alma do Alentejo que Noémia e Orlanda querem preservar
Duas investigadoras do Politécnico de Portalegre estão a melhorar geneticamente a erva aromática para conservar a autenticidade das sementes nativas e restaurar a biodiversidade.

A cozinha portuguesa não teria a mesma piada sem os coentros. O que seriam dos pratos mais típicos de peixe, de carnes, das sopas ou das saladas sem o toque especial desta erva aromática?
Portugal, aliás, é dos raros lugares do mundo a consumir a planta fresca, ao contrário do que acontece na maioria dos países, onde o uso está centrado nas sementes ou nos frutos.
Utilizados na gastronomia dos povos ibéricos desde a Antiguidade, os coentros assumiram uma importância central nos pratos característicos do Alentejo, como as famosas açordas, as tradicionais sopas de cação ou a carne de porco à alentejana.
Um património em perigo
Mas sabia que, apesar de ser a planta aromática medicinal mais cultivada no nosso país, a maioria da produção de coentro assenta em grãos importados? O uso de sementes autóctones está apenas circunscrito às zonas rurais alentejanas.
Noémia Farinha e Orlanda Póvoa, investigadoras do Instituto Politécnico de Portalegre, estão determinadas a fazer de tudo para não deixar o coentro português desaparecer dos nossos campos e das nossas tradições.

Há mais de 20 anos que a sua equipa tem vindo a desenvolver análises aprofundadas sobre conservação de recursos genéticos e melhoramento desta planta. A investigação foi em janeiro deste ano um dos temas em destaque na série de documentários “O Mundo das Aromáticas”, do canal de televisão franco-alemão ARTE.TV, dedicada à divulgação de plantas aromáticas e medicinais em diversos países.
Preservação de sementes autóctones
O trabalho, conduzido na Escola Superior de Biociências de Elvas, está centrado em sementes tradicionais recolhidas junto de agricultores por toda a região do Alentejo. As variedades foram estudadas, avaliadas e submetidas a um programa de melhoramento aprovado pela Direção-Geral de Alimentação e Veterinária.
Com o trabalho de aperfeiçoamento genético concluído, foram selecionados quatro tipos de sementes aprovados pelo Catálogo Nacional de Variedades - Alcácer, Assunção, Campo Maior e Amareleja.
Diversas amostras destas sementes foram depois enviadas ao Banco Português de Germoplasma Vegetal, em Braga, que conserva, avalia e documenta a diversidade genética de plantas agrícolas portuguesas.

Este depósito, gerido pelo Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, é no fundo uma versão sofisticada da Arca de Noé, guardando mais de 40 mil plantas e sementes consideradas essenciais para o futuro da biodiversidade e segurança alimentar do nosso país.
O impulso à tradição
A primeira etapa da investigação desenvolvida na Escola Superior de Biociências de Elvas teve como critérios a produção de folhas e sementes. O contacto com os produtores tradicionais do Alentejo facilitou a recolha de um considerável acervo de informação sobre os saberes associados ao cultivo e à utilização dessas espécies na gastronomia, em usos medicinais ou na etnobotânica – ciência que estuda as tradições e crenças associadas às plantas.
Boa parte do estudo esteve por isso suportada em entrevistas com as populações mais velhas do Alentejo. Conversas informais, ao final das tardes ou ao início das manhãs, deram depois origem a um variado leque de receitas incluído no e-book “Coentros do Alentejo”.
A obra é agora um testemunho escrito que fica para a prosperidade e que pode ser consultado online, bastando para isso carregar na primeira ligação das referências deste artigo.

O trabalho desenvolvido ao longo destes 25 anos visa disponibilizar aos agricultores variedades de plantas aromáticas mais bem-adaptadas ao clima, mas refletindo também o conhecimento tradicional adquirido ao longo de gerações
Um aliado das abelhas
Atualmente, as investigadoras continuam a trabalhar com estas espécies de plantas, mas os objetivos de pesquisa estão agora direcionados para a ecologia. O compromisso da equipa do Politécnico de Portalegre é produzir plantas em ciclos mais curtos, com maior número de sementes e flores.
O estudo acontece sobretudo no laboratório e em trabalho de campo, procurando-se encontrar a combinação genética ideal para a utilização dos coentros em cobertos vegetais, visando atrair mais polinizadores nas zonas de cultivo.

O coentro desde sempre foi importante para a identidade gastronómica do Alentejo e agora está também a revelar-se central no restauro da biodiversidade.
Referências da notícia
Orlanda Póvoa, Noémia Farinha, Elsa Lopes, João Paulo Mendes & Luísa Silva Pereira. Coentros do Alentejo - Conservação do Conhecimento Tradicional e dos Recursos Genéticos. Instituto Politécnico de Portalegre
Orlanda Póvoa, Noémia Farinha & Susana Saraiva Dias. Levantamento etnobotânico sobre coentros e poejos no Alentejo. C3i – Centro Interdisciplinar de Investigação e Inovação do Instituto Politécnico de Portalegre