Manjericão em agosto: porque é que floresce de repente e perde sabor
De um dia para o outro aparecem espigas brancas no topo e as folhas deixam de saber ao que sabiam. Não é falta de jeito, é o próprio calendário a mandar na planta.

Há um momento do verão em que quase toda a gente com um vaso de manjericão faz a mesma pergunta. A planta estava bonita, cheia, a cheirar bem, e de repente encheu-se de espigas com florinhas brancas, as folhas ficaram pequenas e o sabor mudou.
Não é falta de água nem falta de adubo, embora ambas ajudem a acelerar o processo. É o ciclo natural da planta a cumprir-se, e agosto é precisamente o mês em que isso acontece em Lisboa, no Porto ou em Faro.
Não é só o calor, são também os dias mais curtos
Desde o solstício de junho que os dias vão encurtando, e em agosto essa diferença já é bem notória. O manjericão nota isso. É uma planta que floresce mais depressa quando os dias começam a ficar mais curtos, e o calor forte do verão acelera ainda mais o processo.
A partir daí a planta muda de objetivo. Já não quer crescer, quer deixar descendência. Toda a energia vai para as flores e para as sementes, e as folhas ficam em segundo plano.
Porque é que o sabor muda
As folhas que nascem depois da floração são visivelmente mais pequenas e mais rijas. E o aroma também muda, porque a composição dos óleos essenciais, que são os responsáveis pelo cheiro e pelo sabor, altera-se quando a planta entra nesta fase.
Sinal na planta | O que está a acontecer | O que fazer |
|---|---|---|
Espigas brancas no topo | A planta entrou em floração | Cortar logo abaixo, acima de um par de folhas |
Folhas mais pequenas e duras | A energia foi desviada para a semente | Colher com mais frequência e podar os topos |
Folhas murchas ao meio-dia | Falta de água nas horas de maior calor | Regar de manhã cedo e cobrir a terra |
Sabor mais amargo | Mudança nos óleos essenciais | Colher de manhã, antes de o sol aquecer |
Caule a endurecer na base | A planta chegou ao fim do ciclo | Fazer estacas para renovar |
| Principais sinais que o manjericão dá ao longo do seu ciclo e o que fazer. Fonte: Elaboração própria. | ||
O resultado é aquele travo mais amargo e menos fresco que se nota logo no molho de tomate ou no pesto. A planta não está estragada nem doente, apenas deixou de ser interessante para a cozinha.
Como atrasar a floração e ganhar mais umas semanas
A boa notícia é que se pode adiar bastante este momento, desde que se atue cedo. A regra principal é cortar as espigas assim que aparecem, sem esperar que abram as flores. Corte sempre um pouco acima de um par de folhas, porque é daí que vão nascer dois ramos novos.
Depois, colha com regularidade. O manjericão que é colhido muitas vezes floresce mais tarde do que aquele a que só se tiram folhas soltas de vez em quando. E corte ramos inteiros, em vez de andar a arrancar folha a folha, que é o hábito mais comum e o que menos resultado dá.

O stress também acelera a floração. Um vaso pequeno de mais, uma terra que seca todos os dias
ou uma planta ao sol das duas da tarde chegam para desencadear o processo mais cedo. Regue de manhã, cubra a terra do vaso com uma camada fina de material orgânico e, nos dias de calor extremo, dê alguma sombra durante a tarde.
Se já floriu, não deite fora
Um pé de manjericão que já espigou ainda serve para duas coisas.
A primeira é multiplicar. Corte um ramo com dez a quinze centímetros, tire as folhas de baixo, e ponha-o num copo de água num sítio com luz mas sem sol direto. Ao fim de uma a duas semanas tem raízes e pode ir para um vaso novo. É a forma mais rápida e mais barata de ter manjericão fresco outra vez, e ainda vai a tempo antes do outono.
A segunda é deixar uma planta florir de propósito. As flores do manjericão são muito procuradas pelas abelhas e, se as deixar secar, ainda lhe dão semente para o ano seguinte.
E se quiser guardar o que colher agora, esqueça a secagem. O manjericão perde quase todo o aroma quando seca. Congelado, em cubos de gelo com um pouco de azeite, ou já transformado em pesto, mantém-se muito melhor.
Uma última nota que faz mais diferença do que parece: colha sempre de manhã cedo, antes de o sol aquecer as folhas. É nessa altura que o teor em óleos essenciais está no máximo e o aroma é mais intenso.