Este “cemitério ferroviário” em Gaia guarda locomotivas a vapor há quase 50 anos

Máquinas históricas permanecem ao ar livre na estação das Devesas desde os anos 90, após terem sido retiradas do ativo em meados da década de 1970. Estão “completamente consumidas pelo tempo”.

Um cenário impressionante. Foto ilustrativa: Unsplash
Um cenário impressionante. Foto ilustrativa: Unsplash

Quem passa diariamente pela estação das Devesas, em Vila Nova de Gaia, dificilmente imagina que, a poucos metros das plataformas movimentadas, existe um cenário quase cinematográfico. Numa linha secundária, afastada do olhar apressado dos passageiros, encontram-se locomotivas a vapor que deixaram de circular há cerca de meio século e que ali permanecem, ao ar livre, desde o início da década de 1990.

Ao longo do tempo, o espaço ficou associado à ideia de “cemitério ferroviário”, pela imagem de máquinas históricas expostas ao ar livre e sem utilização.

Estas locomotivas foram construídas nas primeiras décadas do século XX por fabricantes europeus de referência, como a suíça Swiss Locomotive and Machine Works (Winterthur) e as alemãs Henschel & Sohn e Berliner Maschinenbau. Durante décadas asseguraram serviços de passageiros e mercadorias em várias linhas do país, até serem progressivamente substituídas por material circulante mais moderno.

“Hoje, muitas foram deixadas ao abandono, estacionadas em estações pelo País e pelo mundo”, nota a revista ‘NiT’. Vasco Alves teve oportunidade de visitar as que estão em Devesas e descreve as locomotivas como um cenário “marcado pela ferrugem e pela degradação”.

“Estavam completamente consumidas pelo tempo, todas as peças estavam presas, sem qualquer movimento, e a estrutura dava a sensação de que se estava a desfazer aos poucos”, recorda, citado pela ‘NiT’. “Foi impressionante ver como algo que já teve tanta vida está agora parado no tempo.”

Em outubro de 2014, a CP - Comboios de Portugal transferiu as locomotivas para outra linha dentro da própria estação das Devesas, depois de terem sido identificados problemas de estabilidade no local onde se encontravam. Apesar de a intervenção ter como objetivo reduzir riscos estruturais, acabou por não alterar a situação de fundo: as máquinas continuam expostas às condições atmosféricas e a apresentar sinais evidentes de degradação.

“Não foi propriamente difícil de aceder ao interior, mas também não havia muito por onde entrar”, explica Vasco. “Conseguimos apenas observar o interior de uma forma muito limitada, através de buracos e de algumas portas entreabertas.”

O que resta nas Devesas

De acordo com dados divulgados pela CP em 2023, permanecem na estação cinco locomotivas: a 072, fabricada em 1916, com cerca de 84 toneladas; as 0184 e 0190, ambas de 1924, com aproximadamente 98 toneladas cada; a 282, de 1910, com pouco mais de 63 toneladas; e a 701, de 1912, com cerca de 65 toneladas.

De símbolo de progresso a património esquecido. Foto ilustrativa: Unsplash
De símbolo de progresso a património esquecido. Foto ilustrativa: Unsplash

Uma outra locomotiva (294), datada de 1913, já fora retirada do local em fevereiro de 2023, após uma tentativa inicial sem sucesso em novembro de 2022. A operação acabou por concretizar-se no dia 6 de fevereiro, seguindo o conjunto para a Guarda por via rodoviária, ao abrigo de um protocolo com a Fundação Museu Nacional Ferroviário, para exposição estática naquela cidade.

Nem todas as máquinas terão, contudo, um futuro museológico claro.

A própria CP já explicou que o restauro integral para recolocação em circulação implicaria custos comparáveis ou superiores à aquisição de material novo, o que torna essa hipótese inviável. Ainda assim, admite-se a recuperação para fins expositivos. Duas delas — a 0184 e a 0190 — desempenham inclusive um papel técnico importante, servindo como fornecedoras de peças para manter operacional a locomotiva 0186 do Comboio Histórico do Douro e podendo contribuir para a eventual reativação da 0187.

Património nacional em debate

A situação das locomotivas tem sido alvo de discussão pública. A Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia já afirmou que considera tratar-se de património de âmbito nacional, defendendo que a responsabilidade pela sua preservação cabe à CP. O entendimento da autarquia é que estas máquinas representam um valor histórico que ultrapassa a escala local.

Aliás, já e novembro de 2022 a autarquia enviara um comunicado à 'Lusa', onde afirmava que a permanência das locomotivas a vapor na estação das Devesas não era “uma questão gaiense”, entendendo que a preservação do património ferroviário cabe à CP - Comboios de Portugal.

“Não fazemos disto uma questão gaiense, porque não temos museu do comboio e acreditamos que este é um património nacional e não local”, pode ler-se.

As locomotivas centenárias permanecem paradas nas Devesas. Foto ilustrativa: Unsplash
As locomotivas centenárias permanecem paradas nas Devesas. Foto ilustrativa: Unsplash

Para Eduardo Vítor Rodrigues, “as locomotivas a vapor depositadas na estação das Devesas têm valor patrimonial”, mas com “valor museológico nacional, devendo ser atentamente assumidos como foco da intervenção da CP”.

“Por isso, entendemos que a opção e as despesas decorrentes dessa preservação devem ser assumidas pela CP, preservando uma memória coletiva nacional”, disse fonte oficial da câmara municipal daquele concelho do distrito do Porto, citada pelo jornal ‘Público’.

Já a CP afirmou, na mesma época, que “o restauro não é viável para a recolocação em condições de circulação, uma vez que implicaria custos idênticos ou superiores a uma locomotiva nova”. Ainda assim, todas “poderão ser restauradas para fins estáticos e expositivos, mesmo replicando algumas peças em falta”.

Entre a hipótese de musealização e a manutenção no local, o destino destas estruturas centenárias permanece em aberto.

Entretanto, as locomotivas continuam ali, marcadas pela ferrugem, pela vegetação que cresce à sua volta e pela ação persistente da chuva e da humidade. O cenário, embora melancólico, tem atraído curiosos e entusiastas da história industrial, que encontram naquele espaço um testemunho silencioso da Revolução Industrial e da modernização dos transportes em Portugal.

Mais do que um “cemitério”, a estação das Devesas guarda um capítulo suspenso da história ferroviária portuguesa. São gigantes de ferro que já simbolizaram progresso e inovação e que hoje aguardam uma decisão definitiva sobre o seu futuro. Até lá, permanecem como um raro vestígio físico de uma era em que o vapor movia o País.