O inimigo doméstico: a inalação de microplásticos

Como os microplásticos invisíveis no ar da sua casa afetam a saúde respiratória e as estratégias práticas para reduzir a exposição. Saiba mais aqui!

Uma simples lavagem de roupa sintética pode libertar 700.000 microfibras, muitas das quais acabam suspensas no ar que respiras diariamente.
Uma simples lavagem de roupa sintética pode libertar 700.000 microfibras, muitas das quais acabam suspensas no ar que respiras diariamente.

Os microplásticos, partículas de plástico com menos de cinco milímetros, tornaram-se uma presença omnipresente no ecossistema global. Embora o foco mediático tenha recaído frequentemente sobre a poluição dos oceanos e a ingestão através da cadeia alimentar, evidências recentes, revelam que a ameaça pode ser ainda mais próxima e constante: o ar que respiramos dentro das nossas próprias casas.

A origem e a escala do problema

A investigação científica indica que um ser humano médio pode inalar e ingerir entre 74.000 a 121.000 partículas de microplásticos por ano.

Surpreendentemente, a inalação representa uma via de exposição tão ou mais significativa do que a ingestão de alimentos contaminados. A fonte primária desta poluição aérea interior são os têxteis sintéticos.

Materiais como o poliéster, o nylon e o acrílico, presentes em roupas, alcatifas, cortinas e estofos de sofás, libertam constantemente microfibras devido ao desgaste e à fricção diária.

Sabias que inalamos, em média, o equivalente a um cartão de crédito de plástico por semana através do ar e pó?
Sabias que inalamos, em média, o equivalente a um cartão de crédito de plástico por semana através do ar e pó?

Estas partículas, por serem extremamente leves, permanecem suspensas no ar ou depositam-se no pó doméstico, sendo facilmente reinaladas. Uma vez no sistema respiratório, as partículas mais pequenas podem penetrar profundamente nos pulmões, levantando preocupações sobre inflamações crónicas e a transferência de químicos tóxicos para a corrente sanguínea.

Estratégias de mitigação: como respirar melhor

Embora seja impossível eliminar totalmente os microplásticos num mundo saturado de polímeros, existem várias medidas práticas para reduzir a concentração destas partículas no ambiente doméstico:

  • Priorizar fibras naturais: A substituição de têxteis sintéticos por fibras naturais, como algodão, lã, linho ou seda, reduz drasticamente a libertação de microfibras plásticas. Isto aplica-se não só ao vestuário, mas também a lençóis e tapetes.
  • Ventilação estratégica: Manter a casa bem ventilada ajuda a dispersar as partículas em suspensão. Abrir as janelas regularmente cria correntes de ar que retiram as fibras flutuantes do ambiente fechado.
Cerca de 33% do pó em casas modernas é composto por microfibras plásticas que se desprendem de sofás, tapetes e roupas.
Cerca de 33% do pó em casas modernas é composto por microfibras plásticas que se desprendem de sofás, tapetes e roupas.
  • Limpeza com filtros HEPA: Ao aspirar a casa, é crucial utilizar aparelhos equipados com filtros HEPA (High-Efficiency Particulate Air). Estes filtros são capazes de capturar partículas microscópicas que os aspiradores convencionais acabariam por expelir novamente para o ar.
Purificadores de alta qualidade podem ser aliados eficazes na filtragem de poluentes atmosféricos interiores, incluindo microfibras sintéticas.
  • Cuidado na lavagem de roupa: O uso de filtros nas máquinas de lavar e a secagem de roupa ao ar livre (em vez de máquinas de secar, que tendem a fragmentar mais as fibras) também contribuem para uma menor dispersão de resíduos plásticos.

A transição de uma preocupação meramente ambiental (oceanos) para uma questão de saúde pública respiratória é evidente. No entanto, a solução a longo prazo exigirá mais do que mudanças individuais; requer uma reforma na indústria têxtil e uma redução global na dependência de materiais sintéticos descartáveis. Até lá, a consciência sobre o que compõe o pó da nossa casa é o primeiro passo para uma vida mais saudável.

Referência da notícia

https://www.bbc.com/future/article/20260410-how-to-breathe-in-fewer-microplastics-in-your-home

Imogen E. Napper, Richard C. Thompson, Release of synthetic microplastic plastic fibres from domestic washing machines: Effects of fabric type and washing conditions, Marine Pollution Bulletin, Volume 112, Issues 1–2, 2016, Pages 39-45, ISSN 0025-326X, https://doi.org/10.1016/j.marpolbul.2016.09.025.

Francesca De Falco, Mariacristina Cocca, Maurizio Avella, and Richard C.Microfiber Release to Water, Via Laundering, and to Air, via Everyday Use: A Comparison between Polyester Clothing with Differing Textile Parameters, Thompson Environmental Science & Technology 2020 54 (6), 3288-3296. DOI: 10.1021/acs.est.9b06892.

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