Matilde Bensaúde: a pioneira da biologia em Portugal
A primeira bióloga investigadora portuguesa, Matilde Bensaúde destacou-se através da investigação em micologia e fitopatologia, abrindo assim o caminho às mulheres na ciência e modernizando a investigação biológica em Portugal. Venha saber mais sobre esta cientista aqui!

Quando se fala na história da ciência em Portugal, o nome de Matilde Bensaúde merece um lugar de destaque.
Numa época em que o acesso das mulheres ao ensino superior e à investigação científica era extremamente limitado, tornou-se a primeira bióloga investigadora portuguesa, deixando uma marca profunda na biologia, na fitopatologia e na modernização da agricultura nacional.
O seu percurso foi pioneiro, tanto pela excelência científica como pela determinação com que ultrapassou as barreiras impostas pelo seu tempo.
Matilde Simonne Rachel Pauline Bensaúde nasceu em Lisboa, a 23 de janeiro de 1890, numa família que valorizava profundamente a educação. Filha de Alfredo Bensaúde, fundador e primeiro diretor do Instituto Superior Técnico, e de Jane Oulman Bensaúde, escritora e pedagoga.
Uma vida dedicada à ciência e ao estudo das plantas
Depois de concluir os estudos secundários na Suíça, prosseguiu a sua formação universitária em Paris, na prestigiada Universidade da Sorbonne, onde se licenciou em Ciências Naturais em 1916. Dois anos mais tarde, doutorou-se na École Normale Supérieure com uma tese inovadora sobre a sexualidade dos basidiomicetos, um grupo de fungos que inclui cogumelos e outras espécies de grande importância ecológica e agrícola.
"Meninas Prendadas" e "Fêmeas Ambiciosas": Portugal, Cajal e o papel da mulher na investigação biológica na primeira metade do século XX
Este trabalho permitiu esclarecer mecanismos fundamentais da reprodução destes organismos, estabelecendo o conceito de heterotalismo nos autobasidiomicetos.
Esta descoberta foi realizada de forma independente e antecedeu a publicação de resultados semelhantes por outros investigadores europeus, demonstrando o elevado nível científico do seu trabalho. Após o doutoramento, Matilde Bensaúde especializou-se em fitopatologia nos Estados Unidos.
A fitopatologia é a ciência que estuda as doenças das plantas, uma área essencial para proteger as culturas agrícolas e garantir a produção de alimentos. Esta experiência internacional permitiu-lhe contactar com métodos científicos avançados, que mais tarde introduziu em Portugal.
Investigação biológica em Portugal
De regresso ao seu país, dedicou-se ao estudo das doenças que afetavam diversas culturas agrícolas, como a batata, a vinha e outras espécies de importância económica. Em 1931 ingressou no Ministério da Agricultura, onde organizou e dirigiu os serviços de inspeção fitopatológica.

O seu trabalho contribuiu para a criação de estruturas de vigilância sanitária vegetal e para o desenvolvimento das primeiras políticas de proteção das culturas agrícolas em Portugal. Graças ao seu conhecimento científico, tornou-se uma referência na prevenção e combate às pragas e doenças das plantas, ajudando a aumentar a produtividade agrícola numa época em que estas questões assumiam grande importância económica.
Para além da investigação aplicada, Matilde Bensaúde desempenhou um papel relevante na organização da ciência portuguesa. Em 1920 foi a única mulher entre os membros fundadores da Sociedade Portuguesa de Biologia, um feito notável num meio científico dominado por homens.
A sua presença nesta instituição simbolizou o início da participação feminina na investigação biológica em Portugal e abriu caminho para que outras mulheres seguissem carreiras científicas.
Igualdade na ciência
Apesar do reconhecimento internacional das suas investigações, a cientista nunca ocupou um lugar de destaque numa universidade portuguesa, reflexo das limitações impostas às mulheres cientistas durante grande parte do século XX.
Ainda assim, continuou a desenvolver investigação no Instituto Rocha Cabral, onde prosseguiu estudos em biologia e microbiologia, mantendo uma produção científica respeitada pela comunidade internacional.
Veio a falecer em Lisboa, a 22 de novembro de 1969, deixando um legado que ultrapassa largamente as suas descobertas científicas.
Foi uma investigadora de excelência, mas também um símbolo de perseverança, competência e inovação. Hoje é reconhecida como uma das figuras mais importantes da ciência portuguesa.