Maria de Sousa: a mulher que revolucionou a imunologia e marcou a ciência portuguesa

Maria de Sousa destacou-se internacionalmente pela investigação em imunologia e transformou a ciência portuguesa, formando gerações de investigadores e defendendo a importância do conhecimento científico para o futuro do país. Descubra mais aqui!

Maria de Sousa destacou-se internacionalmente pela sua investigação pioneira na área da imunologia. Fonte: Universidade do Porto
Maria de Sousa destacou-se internacionalmente pela sua investigação pioneira na área da imunologia. Fonte: Universidade do Porto


A história da ciência portuguesa escreve-se através de mulheres que desafiaram fronteiras, questionaram certezas e contribuíram para o avanço do conhecimento.

Assim, Maria de Sousa foi uma dessas figuras, imunologista de renome internacional, dedicou a vida a compreender o funcionamento do sistema imunitário e deixou uma marca profunda na investigação científica em Portugal.

Segundo a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), nasceu no Porto, a 17 de outubro de 1939 e licenciou-se em Medicina pela Universidade de Lisboa, em 1963. Contudo, foi na investigação científica que encontrou o caminho para desenvolver uma carreira que a levaria a trabalhar em instituições internacionais de referência. O seu percurso ficou marcado pela curiosidade, pelo rigor científico e pela defesa de uma ciência aberta ao pensamento crítico.

Uma descoberta que mudou a compreensão do sistema imunitário

Durante a década de 70, Maria de Sousa realizou investigações fundamentais sobre a forma como os linfócitos, células essenciais para as defesas do organismo, se distribuem pelos diferentes tecidos e órgãos.

O seu trabalho ajudou a aprofundar a compreensão da organização do sistema imunitário e da relação entre estas células e o ambiente em que se encontram.

Um dos seus contributos mais importantes foi o desenvolvimento do conceito de ecotaxia, que descreve a distribuição seletiva das células do sistema imunitário pelos tecidos do organismo. Esta perspetiva ajudou a compreender que a resposta imunitária não depende apenas das características das células, mas também do local onde se encontram.

A cientista contribuiu para formar novas gerações de investigadores e fortalecer a ciência portuguesa. Fonte: Noticias ao minuto
A cientista contribuiu para formar novas gerações de investigadores e fortalecer a ciência portuguesa. Fonte: Noticias ao minuto

A investigação de Maria de Sousa contribuiu, assim, para uma visão mais integrada do sistema imunitário, com implicações para o estudo de doenças e dos mecanismos que regulam as defesas do corpo humano.

O regresso a Portugal e a aposta nas novas gerações

Após ter trabalhado no Reino Unido e nos Estados Unidos, Maria de Sousa regressou a Portugal em 1984. No ano seguinte, integrou o Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), da Universidade do Porto, onde assumiu um papel determinante no desenvolvimento da imunologia e na formação de novos investigadores.

A sua influência ultrapassou os laboratórios. Em 1985, fundou o mestrado em Imunologia do ICBAS e, em 1996, esteve na origem do programa doutoral GABBA (Graduate Program in Basic and Applied Biology), uma iniciativa pioneira que promoveu a formação avançada e interdisciplinar de jovens cientistas.

Muitos dos investigadores que passaram por estes programas prosseguiram carreiras de destaque, contribuindo para reforçar a investigação biomédica nacional.

O seu legado permanece vivo na investigação biomédica e nas instituições científicas nacionais.Fonte: RTP Arquivos
O seu legado permanece vivo na investigação biomédica e nas instituições científicas nacionais.Fonte: RTP Arquivos

Maria de Sousa também defendeu a importância de avaliar a qualidade da investigação científica e de criar condições para que os investigadores pudessem desenvolver o seu trabalho em Portugal. Numa época em que o sistema científico português procurava consolidar-se, Maria de Sousa ajudou a aproximar instituições, incentivar a colaboração e afirmar a investigação como uma prioridade para o país.

Um legado que vai além da ciência

O seu percurso foi reconhecido com diversas distinções, entre as quais a Medalha de Ouro de Mérito Científico, em 2009, e a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, em 2016. Mostrou também interesse pela literatura, pela poesia e pelas artes, revelando uma visão da ciência ligada à cultura e à sociedade.

Maria de Sousa faleceu a 14 de abril de 2020, aos 80 anos, vítima de COVID-19. Deixou, porém, um legado que permanece vivo nas instituições que ajudou a desenvolver, nos investigadores que formou e no conhecimento que contribuiu para construir.

A sua importância para Portugal não se mede apenas pelas descobertas científicas, mas também pela capacidade de transformar o meio académico e abrir oportunidades para as novas gerações.

Num país onde a investigação nem sempre teve os recursos e o reconhecimento necessários, Maria de Sousa demonstrou que o talento português podia alcançar projeção internacional e, simultaneamente, contribuir para fortalecer a ciência nacional.

Referências da notícia

FCT - Fundação para a Ciência e Tecnologia. (2020). Maria de Sousa (1939-2020).
Notícias da Universidade do Porto. (2009). Maria de Sousa: Uma vida de descobertas.