Cidades a afundar: dados de satélite revelam o ritmo da subsidência urbana no mundo

Estudo global em mais de quatrocentas cidades mapeia a subsidência do solo e revela contrastes extremos entre diferentes regiões. Saiba mais aqui!

O afundamento gradual do solo ameaça infraestruturas vitais, fragilizando edifícios, sistemas subterrâneos e aumentando de forma crítica o risco de inundações.
O afundamento gradual do solo ameaça infraestruturas vitais, fragilizando edifícios, sistemas subterrâneos e aumentando de forma crítica o risco de inundações.

A subsidência do solo consiste no afundamento progressivo da superfície terrestre, configurando uma ameaça estrutural para os ambientes urbanos modernos. A descida lenta dos solos provoca fissuras e danos graves em edifícios, enfraquece fundações de infraestruturas estratégicas e compromete sistemas subterrâneos essenciais, designadamente as redes de drenagem pluvial e de saneamento de águas residuais.

Como consequência direta, este fenómeno amplia consideravelmente a vulnerabilidade das populações ao risco de inundações.

Contudo, a informação sobre a sua dinâmica tem sido historicamente escassa e fragmentada, dificultando a atuação dos decisores políticos na identificação das zonas prioritárias. A maioria dos estudos anteriores recorria a metodologias divergentes, cobria períodos díspares ou incidia somente sobre poucas cidades, impossibilitando comparações à escala planetária.

Focos críticos: aceleração no México e no continente asiático

Para colmatar esta lacuna, os investigadores recorreram a dados de satélite de alta resolução recolhidos entre 2014 e 2023, quantificando a movimentação vertical do solo em 465 cidades de 107 países, num estudo divulgado pela revista Nature Cities. Os resultados revelaram assimetrias territoriais marcantes.

A Cidade do México registou o afundamento localizado mais rápido do mundo, com certas áreas a descerem cerca de 217 milímetros por ano, embora a mediana municipal global se tenha situado nos 8 mm anuais.

No mesmo país, Torreón registou uma descida de aproximadamente 17 mm por ano. A nível regional, a Ásia concentrou os cenários mais graves em termos medianos: destacam-se Medan (cerca de 33 mm por ano) e Bandung (22 mm por ano), ambas na Indonésia, a par de Isfahan, no Irão, com 11 mm anuais.

Estabilidade geológica: metrópoles com oscilações mínimas

Em sentido inverso, várias das maiores capitais e polos económicos mundiais apresentaram uma estabilidade assinalável na movimentação anual da superfície. Cidades como Boston, Nova Iorque, Londres, Pequim, Tóquio, Seul, Sydney, Montevideu e Nápoles registaram taxas anuais reduzidas, que oscilaram meramente entre 0,1 e 1,9 milímetros por ano.

Metrópoles como Londres, Nova Iorque e Tóquio mantêm solos geologicamente estáveis, registando variações anuais inferiores a apenas dois milímetros.
Metrópoles como Londres, Nova Iorque e Tóquio mantêm solos geologicamente estáveis, registando variações anuais inferiores a apenas dois milímetros.

Estas estimativas abrangeram tanto ligeiros afundamentos como pequenos soerguimentos (elevação) do terreno. Dada a reduzida dimensão física destas medições, os investigadores recomendam prudência na sua interpretação, salientando que estes centros urbanos se mantêm substancialmente equilibrados.

Zonas da Cidade do México afundam até 217 milímetros anuais, registando a descida localizada mais acelerada à escala global
Zonas da Cidade do México afundam até 217 milímetros anuais, registando a descida localizada mais acelerada à escala global

Os investigadores destacam igualmente importantes ressalvas metodológicas que devem contextualizar as conclusões. A investigação incidiu sobre um período de nove anos e focou-se estritamente na subsidência local relativa dentro do perímetro de grandes cidades, podendo desconsiderar áreas adjacentes situadas fora dos limites administrativos oficiais.

Adicionalmente, as medições apresentam maior incerteza em territórios onde a rede de estações terrestres de validação é reduzida ou dispersa. Por esta razão, a manutenção de uma vigilância por satélite continuada revela-se fundamental para atestar se estas tendências persistem ao longo do tempo e para fundamentar respostas governamentais direcionadas.

Referência da notícia

Wang, L., Ao, Z., Tao, S. et al.. (2026). A global view of urban land subsidence and its changing trajectories..