As alterações climáticas afetam todos? Estudo mostra que os riscos são sistematicamente subestimados

Muitas pessoas acreditam que as alterações climáticas são um problema que afeta principalmente outras pessoas. A sua própria vulnerabilidade é frequentemente subestimada, conclui um novo estudo.

No geral, 65% das pessoas acredita que as alterações climáticas as afetam menos do que outras. Imagem: ELG21/Pixabay.
No geral, 65% das pessoas acredita que as alterações climáticas as afetam menos do que outras. Imagem: ELG21/Pixabay.
Lisa Seyde
Lisa Seyde Meteored Alemanha 5 min

Muitas pessoas estão convencidas de que as alterações climáticas afetam principalmente os outros: os vizinhos, os outros países ou as gerações futuras. Tendem a subestimar os seus próprios riscos. Uma análise abrangente de estudos internacionais revela o quão generalizada e persistente é esta perceção.

"Mesmo quando as pessoas reconhecem os riscos reais das alterações climáticas, muitas parecem assumir que esses riscos afetam principalmente os outros."

Doutor Magnus Bergquist, Departamento de Psicologia, Universidade de Gotemburgo.

Investigadores da Universidade de Gotemburgo compilaram os resultados de 83 estudos individuais de 17 países. A análise incluiu avaliações de mais de 70.000 participantes. As conclusões mostram que os riscos climáticos são sistematicamente subestimados, pelo menos no que diz respeito ao impacto pessoal.

No geral, 65% dos inquiridos avaliaram o seu risco pessoal de serem afetados pelas alterações climáticas como menor do que o risco para os outros. Isto manteve-se verdade independentemente de o estudo se ter centrado em eventos extremos, como ondas de calor e inundações, ou nas consequências mais amplas das alterações climáticas. "Os estudos que compilámos não medem o risco real das pessoas", explica o Dr. Magnus Bergquist, do Departamento de Psicologia.

Não podemos determinar se as avaliações de risco individuais são excessivamente otimistas, mas, ao nível do grupo, observamos claramente que a maioria das pessoas perceciona o seu próprio risco como menor do que o dos outros.

Também é importante com quem as pessoas se comparam. A análise mostra que o enviesamento é maior quando a comparação é demasiado abstrata, como com "outros", concidadãos ou até com toda a humanidade. O efeito é significativamente menor quando são utilizados pontos de referência concretos, como os vizinhos.

Resiliência superestimada

As diferenças regionais também desempenham um papel. Paradoxalmente, a chamada autodiscrepância foi particularmente acentuada na avaliação de regiões de baixo risco, como a Europa, e menos acentuada em regiões de alto risco, como a Ásia.

Em 81 dos 83 conjuntos de dados analisados, os participantes avaliaram o seu próprio risco como inferior ao das outras pessoas ou à média. Apenas dois estudos com agricultores na China e na Coreia do Sul foram exceção. "Isto sugere que a experiência direta reduz o efeito", explica Pär Bjälkebring, psicólogo da Universidade de Gotemburgo.

Os investigadores atribuem esta perceção a mecanismos psicológicos bem conhecidos. As pessoas tendem a sobrestimar as suas próprias capacidades e resiliência, atribuindo os riscos a grupos mais abstratos. Embora esta tendência psicológica poupe energia cognitiva, pode ter consequências problemáticas.

Os investigadores alertam que os enviesamentos psicológicos podem impactar negativamente ações pessoais ou políticas. Imagem: ELG21/Pixabay.
Os investigadores alertam que os enviesamentos psicológicos podem impactar negativamente ações pessoais ou políticas. Imagem: ELG21/Pixabay.

Porque as avaliações de risco distorcidas também influenciam o comportamento. Aqueles que acreditam ser menos afetados vêem menos motivos para mudar o seu próprio comportamento ou apoiar medidas políticas. É exatamente aí que reside o perigo, explica Bergquist.

Trata-se de um enviesamento psicológico que, no pior cenário, pode atrasar tanto a adaptação às alterações climáticas como os esforços para as mitigar.

A análise torna claro que, para uma política climática eficaz, não basta simplesmente comunicar dados sobre o aumento das temperaturas e eventos climáticos extremos. É igualmente importante compreender os filtros psicológicos que moldam a perceção e aumentar a consciencialização sobre a própria vulnerabilidade.

Referência da notícia

Meta-analytical evidence of a self–other discrepancy in climate change-related risk perceptions, Sandlund, I., Bjälkebring, P. & Bergquist, M. (2026): Nature Sustainability.