A primeira forma de vida complexa na Terra pode ter precisado de oxigénio desde o início

Uma nova investigação sugere que as primeiras formas de vida complexas da Terra viveram em mares costeiros pouco profundos e ricos em oxigénio, há cerca de 1,7 mil milhões de anos. Estas descobertas contestam as teorias anteriores e oferecem novas pistas sobre a evolução da vida.

O investigador Max Lechte. Crédito: LA Reidman.
O investigador Max Lechte. Crédito: LA Reidman.

Num novo estudo publicado na Nature, cientistas da Universidade McGill e da Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, revelam que os primeiros eucariotas conhecidos, os antepassados de toda a vida complexa no nosso planeta, teriam vivido em ambientes marinhos pouco profundos e oxigenados há cerca de 1,7 mil milhões de anos. As conclusões do estudo contestam a crença de longa data de que a vida complexa primitiva teria surgido em ambientes pobres em oxigénio ou flutuado no oceano aberto.

Os eucariotas incluem plantas, animais, fungos, outros organismos microscópicos e os seres humanos. Compreender onde e como evoluíram pela primeira vez é fundamental para entender como a vida na Terra se tornou tão diversificada e complexa.

"Queríamos saber em que ambientes a vida eucariótica mais antiga habitava, em particular para verificar se os fósseis eucarióticos primitivos já tinham adquirido mitocôndrias, o que lhes conferia a capacidade de ocupar ambientes aeróbicos", afirmou Galen Halverson, professor do Departamento de Ciências da Terra e Planetárias da Universidade McGill e autor principal do estudo.

Como é que estes organismos microscópicos viviam?

A equipa analisou fósseis microscópicos do norte da Austrália, datados de 1,75 a 1,4 mil milhões de anos atrás. Para compreender como estes organismos viviam, estudaram a composição química das próprias rochas. Recorreram a elementos sensíveis ao oxigénio, como o ferro, para determinar que a água do mar em que os primeiros eucariotas viviam continha oxigénio, apesar de, nessa altura da história, a maioria dos oceanos carecer de oxigénio.

"Descobrimos que os primeiros eucariotas de que temos fósseis viviam predominantemente em ambientes bentónicos (no fundo do mar), oxigenados e próximos da costa", afirmou Halverson.

"Isto demonstra que a disponibilidade de oxigénio ditava a evolução dos eucariotas desde as suas fases iniciais", afirmou Leigh Anne Riedman, investigadora da Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, e coautora do estudo.

Muitos investigadores partiam do princípio de que os primeiros eucariotas teriam vivido sem oxigénio ou flutuado à deriva na água. A descoberta de que o oxigénio fazia parte da vida primitiva na Terra desafia suposições de longa data sobre as suas condições de vida.

A localização dos fósseis descobertos também forneceu pistas sobre como teriam vivido.

"A distribuição dos fósseis também mostra que os eucariotas provavelmente viviam no fundo do mar e só se expandiram para os oceanos abertos cerca de mil milhões de anos mais tarde, o que teria transformado a biosfera mais uma vez", afirmou Maxwell Lechte, outro coautor que atualmente está na Universidade de Sydney e que conduziu esta investigação enquanto bolseiro de pós-doutoramento na McGill.

As conclusões do estudo estão em consonância com outros estudos recentes sobre microrganismos intimamente relacionados com os antepassados dos eucariotas, que sugerem que estes organismos eram capazes de utilizar oxigénio.

"Os eucariotas representam a maior parte da vida visível à nossa volta", afirmou Halverson. Compreender como se originaram, acrescentou, "é uma questão científica importante e de longa data, que está ligada à compreensão da biodiversidade presente hoje na Terra e possível noutros planetas habitáveis".

Referência da notícia:

Early fossil eukaryotes were benthic aerobes | Nature. Lechte, M.A., Riedman, L.A., Porter, S.M., Halverson, G.P. and Whelan, M. 20th May 2026.