A onda de calor que afetou a Europa no passado junho provocou milhares de mortes
Junho de 2026 foi o junho mais quente alguma vez registado na Europa Ocidental e o segundo mais quente em todo o planeta, mostram dados divulgados pelo Observatório Europeu Copernicus.

Em junho, a onda de calor que atingiu grande parte da Europa levou as temperaturas a níveis recordes de junho, em vários países, atingindo-se mesmo em alguns locais os maiores valores de temperaturas máximas diárias de muitas séries históricas longas.
O episódio ocorreu poucas semanas depois de outro período de calor intenso, registado em maio, e foi seguido por uma nova sequência de altas temperaturas no início de julho.
Calor extremo mata
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) o stress térmico é uma das principais causas de mortes relacionadas com as condições meteorológicas e pode agravar doenças subjacentes, incluindo doenças cardiovasculares, diabetes, problemas de saúde mental e asma, além de poder aumentar o risco de acidentes e a transmissão de algumas doenças infeciosas. A insolação é uma emergência médica com uma elevada taxa de mortalidade.
Em todas as regiões do mundo, o número de pessoas expostas ao calor extremo está a crescer exponencialmente devido às alterações climáticas.
A Europa registou uma mortalidade significativa devido ao calor em verões anteriores mais notavelmente em 2003 e, mais recentemente, em 2022 e 2024.
A onda de calor de junho de 2026, que foi o fenómeno de calor mais extremo registado na Europa provocou impactos graves na saúde, com registos de mortes associadas às altas temperaturas.
Ainda vão demorar alguns meses até que se confirme oficialmente o verdadeiro balanço da pior onda de calor de sempre na Europa, mas os investigadores podem estimar o número de mortos com base no número de pessoas que faleceram na Europa durante períodos de calor anteriores.
Christopher Callahan, da Universidade de Indiana (Paul H. O'Neill School of Public and Environmental Affairs) escreveu um artigo baseado num estudo, que a sua equipa publicou no ano passado, e apresentou uma estimativa do número de mortes provocado pela onda de calor de junho de 2026 na Europa.
Para esta estimativa os cientistas fizeram uma recolha de dados sobre a temperatura e a mortalidade em toda a Europa e estabeleceram uma correlação entre as temperaturas elevadas e as taxas de mortalidade excedentária. De seguida, utilizaram essa relação para inferir como uma determinada onda de calor afeta a mortalidade numa região como a Europa.
Estimou-se que a mortalidade mais elevada se registou em França, com 5 210, na Alemanha, 4 543, em Espanha, 3 163, e em Itália, 2 709.

Na Bélgica, a onda de calor, que decorreu de 18 de junho a 1 de julho de 2026 foi a mais mortífera da história com um aumento de 47,8 % na média de mortes, com mais 1 747 mortes estimadas do que o habitual para esta altura do ano.
Segundo um médico de urgências do hospital universitário na Bélgica, a situação durante o fim de semana de pico foi tão grave que a mortalidade excedente ultrapassou até mesmo a do pior fim de semana da pandemia da COVID-19.
Em Portugal, na onda de calor, que se fez sentir em especial no início de julho, a Autoridade de Saúde estima que tenham ocorrido 125 mortes.
Mitigar o efeito das ondas de calor
Apesar destes números serem preliminares, Callahan alerta para a necessidade de investimentos rápidos em adaptação para evitar estes impactos no futuro.
As Nações Unidas, a partir de diferentes organismos, particularmente a OMS, bem como as Autoridades de Saúde de maior parte dos países divulgam constantemente medidas de autoproteção e adaptação para mitigar o efeito das ondas de calor, sempre que os Serviços Meteorológicos preveem um período de temperaturas extremas.
Como os impactos negativos do calor na saúde são previsíveis e, em grande medida, evitáveis através de políticas e intervenções específicas de saúde pública e multissetoriais é fundamental que as medidas de autoproteção e adaptação a serem tomadas sejam divulgadas à população.
Já há uns anos atrás a OMS publicou orientações destinadas às instituições de saúde pública para identificar e gerir os riscos associados ao calor extremo. As medidas de combate às alterações climáticas, combinadas com uma preparação abrangente e uma gestão de riscos eficaz, podem salvar vidas agora e no futuro, nomeadamente atendendo aos fatores de exposição, dependendo da profissão e das condições socioeconómicas da população.

Assim, em situações de onda de calor extremo, de entre outras recomendações, tais como hidratação, sugere-se tornar obrigatório o acesso a água potável gratuita em eventos públicos, garantir o acesso a espaços frescos ou climatizados dentro das cidades, como os museus, reforçar as medidas de proteção dos trabalhadores expostos ao calor, por exemplo, através do ajustamento dos horários de trabalho e garantir que as autoridades locais ou outros organismos relevantes estabeleçam contacto direto com as pessoas vulneráveis.
Os cientistas alertam que o sinal é claro: o calor é agora o risco meteorológico mais mortífero que se enfrenta, e a maioria destas mortes pode ser evitável pois já se conseguem prever estes eventos com considerável precisão.
Apesar de se terem melhorado algumas medidas de autoproteção e adaptação às ondas de calor, tais como sensibilização e alertas à população e aumento da instalação de sistemas de ar condicionado, ainda não se criaram os sistemas eficazes nas áreas da saúde, habitação, assistência social e transportes, por exemplo, que transformem uma previsão precisa em proteção efetiva.
Os governantes, as autoridades e a população em geral deve ter sempre em conta que o mais importante é evitar mais mortes à medida que o planeta continua a aquecer e o calor se torna mais extremo.
Referência da notícia
Callahan, C.. (2026). Death toll exceeds 20,000 across Europe in June 2026 heat wave.